Fernando Lopes, um vulcão pianístico que se apaga

por Júlio Medaglia 01/04/2019

Pianista natural do Rio de Janeiro morreu em março, aos 84 anos

No período áureo da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, quando dirigida pelo maestro Benito Juarez, época em que, mais que um conjunto orquestral, ela era uma usina de ideias culturais, fui convidado a reger, entre outras obras, o Concerto nº 5 de Beethoven. Benito me disse: “O solista a executar o ‘imperador’ dos concertos vai ser o Mike Tyson do piano, Fernando Lopes”. A bem-humorada metáfora do maestro fazia muito sentido. Fernando Lopes não só era parte da elite dos maiores pianistas brasileiros, como se destacava pelo vigor e pelo brilho de seu toucher. Comparável, talvez, só a Martha Argerich, Roberto Szidon ou Jacques Klein. Suas interpretações incendiavam as notas da partitura, quase transformando o piano em outro instrumento, iluminado. Ainda há pouco, regendo-o no Theatro Munipal do Rio de Janeiro no Hexameron de Liszt, em que seis pianistas se digladiam no exacerbado pianismo do autor, quando Lopes enfrentava suas variações a obra ganhava um novo e feiticeiro sentido. 

Tive o imenso prazer de conhecer Fernando Lopes no início de sua carreira, na Bahia, onde foi professor universitário e gravou um LP que de imediato se tornou um excitante mensageiro de seu talento por todo o país. A exuberância de seu piano logo ganharia também o refinamento e a delicadeza clássica ao estudar com o grande mestre vienense do piano Bruno Seidlhofer – e isso pode ser constatado na gravação da integral das sonatas de Mozart. 

A corajosa inquietação cultural de Lopes marcou sua trajetória. Executava e gravava obras importantes e pouco divulgadas – como as composições para piano de Carlos Gomes, as Cartas celestes de Almeida Prado, as obras de compositores da vanguarda brasileira – e enfrentou como nenhum outro colega daqui ou do exterior o desafio da antológica gravação dos cinco concertos para piano e orquestra de Villa-Lobos – fez isso com a Sinfônica de Campinas regida por Juarez.

A corajosa inquietação cultural de Lopes marcou sua trajetória. Executava e gravava obras importantes e pouco divulgadas e enfrentou como nenhum outro colega daqui ou do exterior o desafio da antológica gravação dos cinco concertos para piano e orquestra de Villa-Lobos

Ao mesmo tempo que mostrava seu deslumbrante pianismo não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, na França, na Itália, na Espanha, em Portugal, na Suíça, na Áustria, na Alemanha, na Romênia e em outros países, Fernando Lopes não deixava de prestar inestimavel serviço à música nacional, desenvolvendo dedicada carreira de professor na Unicamp, onde deixou uma legião de bem formados pianistas. 

Entre essas e inúmeras outras qualidades de Fernando Lopes, poderíamos destacar aqui também as deliciosas características de sua personalidade. Tão agradável quanto ouvi-lo ao paino era conviver com ele. Mas, sobre isso, poderiamos escrever outro artigo – e bem maior que este…

Fernando Lopes [Divulgação]
Fernando Lopes [Divulgação]