Editorial

por Nelson Rubens Kunze 01/04/2019

Prezadas leitoras, prezados leitores,

Na área da música clássica e, em especial, da ópera no Brasil, uma das grandes personalidades é o maestro Luiz Fernando Malheiro. Coube a ele a façanha, com o apoio determinante do Estado, de transformar o Amazonas e a cidade de Manaus no principal polo da lírica nacional de nossa geração. O “Sr. Ópera”, como escreve o editor executivo João Luiz Sampaio na matéria de capa desta edição, completa vinte anos na direção do Festival Amazonas de Ópera, cuja nova edição se inicia neste mês. Em longas e animadas conversas no Rio de Janeiro, onde também assumiu a direção musical do Theatro Municipal, Luiz Fernando Malheiro falou dos percalços e dos sucessos de sua carreira, toda ela construída em torno da ópera (página 18). 

Uma das maiores expressões da música antiga no Brasil é a soprano Marília Vargas, que neste mês se apresenta como solista da Osusp em um concerto com obras de Bach, na Sala São Paulo. O jornalista Irineu Franco Perpetuo conversou com Marília, que contou de sua formação e de pontos cruciais de sua carreira, revelando seu espírito colaborativo e amoroso, na entrevista que publicamos nesta edição da Revista CONCERTO.

Uma auspiciosa iniciativa musical em nosso país é a Orquestra Camerata Sesi do Espírito Santo. Criada há onze anos pelo maestro Leonardo David, a camerata realiza uma rica e diversificada temporada em Vitória e outras cidades do estado. Para a seção Fermata, a jornalista Camila Fresca entrevistou Leonardo David, que falou sobre sua carreira e seus projetos (página 44).

Em abril, o Theatro Municipal de São Paulo reapresenta uma de suas produções de maior sucesso do ano passado, o balé A sagração da primavera, com coreografia de Ismael Ivo. Participam o Balé da Cidade e a Orquestra Sinfônica Municipal, que será regida pelos maestros Roberto Minczuk e Wagner Polistchuck (página 17).

Uma das maiores criações musicais da humanidade, a Paixão segundo São Mateus, de Bach, será interpretada neste mês na Sala São Paulo – e em alto nível! A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e os Coros da Osesp serão acompanhado por destacados solistas, sob direção de Nathalie Stutzmann. Saiba mais sobre a obra na seção Repertório desta edição (página 22).

Como em todos os meses, a Revista CONCERTO publica os artigos dos colunistas João Marcos Coelho (sobre a versão de Mahler para as sinfonias de Schumann), Jorge Coli (que reflete sobre a complexa relação da arte com a realidade) e Júlio Medaglia (que lembra o pianista Fernando Lopes, falecido no mês passado). E na seção Roteiro Musical, publicamos a agenda dos eventos clássicos de São Paulo, do Rio de Janeiro e de outras cidades do país (a partir da página 24). Apesar das dificuldades aqui enfrentadas, é um alento ver teatros, artistas e produtores se desdobrarem para manter de pé uma programação rica e diversificada. 

Infelizmente, contudo, cortes em verbas públicas ameaçam o frágil arcabouço da cultura no país. Quero registrar, mais uma vez, que iniciativas de sucesso como o Festival Amazonas de Ópera, a Sala São Paulo, a Osesp, a Sala Cecília Meireles ou a Filarmônica de Minas Gerais, por exemplo, só foram possíveis graças ao investimento do poder público. Estudos sobre economia da cultura demonstram que o ecossistema econômico da produção cultural – para além do patrimônio artístico que veicula e de sua importância para o conhecimento e para a formação das novas gerações – devolve múltiplas vezes à sociedade os valores investidos. Como exemplo concreto, cito o resultado de um estudo da Fundação Getúlio Vargas realizado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) do ano passado: com um investimento de R$ 3,5 milhões, o evento gerou um impacto econômico de cerca de R$ 47 milhões. E ainda mais significativo: considerando apenas os recursos públicos, para cada R$ 1 investido, o Estado recolheu em tributos o equivalente a R$ 1,56. Portanto, cultura não é gasto, cultura é solução! 

Desejo um ótimo mês musical a todos. Bom CONCERTO!