A ética da destruição

por Jorge Coli 01/04/2019

Perante o caos que nos rodeia, resta esperar, nos dois sentidos dessa bela palavra: “pacientar” e “ter esperança”

Escrevo sob o impacto da notícia que veio de Suzano, o massacre na escola. Como aguentar essas semanas que se sucedem desde o início do ano, trazendo, todas elas, a notícia de alguma tragédia nada natural e perfeitamente anunciada? Os mortos se acumulam por dezenas, por centenas, neste país sem rumo, em que somos dominados pelo controle e pelo descontrole de um gangsterismo infiltrado em tudo. Bandidismo que triunfou sem pudor, dando as caras em campanhas pela violência e pelas armas.

Quando pensamos no moralismo que alavancou eleitores na última campanha política, esquecemo-nos das regras altamente éticas que também regem as máfias. Regras de comportamento punidas com a violência mais abominável. Esquecemos que a moral e os bons costumes, como se diz, são tremendos instrumentos de dominação, de intimidação, ferramentas para que o pior arbitrário possa ocorrer. Rompe-se uma barragem porque não se observaram regras e leis de segurança, morrem trezentos. Não importa; os crimes dos poderosos entre poderosos se resolvem, com negociações e pactos. O que importa é o comportamento dos pequenos. Racismo, machismo, preconceitos sexuais, condenação do aborto são mecanismos de controle e de submissão.

Encenação de Frank Castorf para O ouro do Reno, de Wagner [Divulgação / Enrico Nawrath]
Encenação de Frank Castorf para O ouro do Reno, de Wagner [Divulgação / Enrico Nawrath]

Penso na ópera, que amplifica ao paroxismo anomalias particulares e coletivas. Expõe revoltas e vítimas isoladas, assim como as máquinas infernais que armam os poderosos para o controle do mundo. Wagner é um consolo. Seu mundo é o dos poderosos, de deuses e semideuses, pecadores, desonestos, manipuladores. Esse mundo wagneriano nunca dá certo: termina por implodir, se desfazer, se suicidar. Sempre me espantou que os heróis de Wagner fossem exaltados pelos nazistas, pois não conduzem à vitória e ao triunfo, mas à aniquilação de si. A Cavalgada das valquírias, que se tornou o leitmotiv das rádios alemãs nos tempos hitleristas, não é um arrebatamento de vitória, é um canto de morte. As valquírias são como abutres que se interessam pelos cadáveres. Talvez mesmo o paroxismo dominador do projeto nazista trouxesse consigo esse vírus implacável da autodestruição. Não sem antes ter cometido, em escala gigantesca, a maior violência criminosa contra a humanidade que já se conheceu.

Na exacerbação dos conflitos humanos, a ópera opõe alma coletiva e individual, o interesse dos grupos esmagando todos aqueles que buscam escapar

Frank Castorf, na última Tetralogia que se encerrou em Bayreuth, em 2017, transformou os deuses wagnerianos em mafiosos. Não é muito difícil: creio que seria possível fazer isso com qualquer ópera – ou quase qualquer uma. Porque na exacerbação dos conflitos humanos, a ópera opõe alma coletiva e individual, o interesse dos grupos esmagando todos aqueles que buscam escapar. Raramente se escapa, porém: talvez em Il guarany, em Lo schiavo, em que há o vislumbre de uma vida feliz de amores, sozinhos, lá longe, no meio do mato (se Peri não fizer a bobagem de levar Cecilia para seus parentes no Rio de Janeiro, ou Alvaro transformar Ilara em dona de fazenda)… Ou seja, fora da sociedade.

O mundo moderno, que se formou depois da Revolução Francesa, tem uma face oficial, a da moral, da lei e dos bons costumes; e outra, disfarçada, a dos arranjos, dos crimes ocultos, dos cadáveres no armário. A antiga aristocracia podia ser arrogante porque não se discutia a legitimidade de seu poder. “Qui d’un buffone si disonora la figlia e se ne ride…” [Aqui, de um bufão se desonra a filha e riem disso...], como canta Rigoletto sobre a corte do duque de Mântua. Rigoletto, ópera que está prometida para São Paulo e que, esperemos, não seja varrida pelas enormes instabilidades que abalam a cultura neste país. 

Os transgressores que exageravam eram mandados ao inferno por Deus, ou pela estátua do comendador, como em Don Giovanni, de Mozart. Agora não. É preciso salvar aparências. Cada vez mais abaladas, é bem verdade, nestes tempos de redes sociais e fake news. Mas elas ressuscitam sempre, porque o fake vira verdade pela crença que se põe nele. As aparências, como o inferno de Sartre, são os outros. Enquanto isso, os assassinos e os grandes sicários passam muito bem, obrigado.

Impossível saber se, e quando, dias melhores ou piores virão (ok, os piores é o que temos para hoje e amanhã). Vivemos numa era tão nova no que concerne a ciências, técnicas e comunicações que qualquer previsão é irrisória. Podemos, contudo, constatar o caos que nos rodeia. Não me conformo com o “pois é, a vida continua”, mas não sobra muito além disto, de não me conformar. De resto, temos que esperar, nos dois sentidos dessa bela palavra: “pacientar” e “ter esperança”.