A voz do barroco

Entrevista com a soprano Marília Vargas

A Sinfônica da USP é uma orquestra de instrumentos modernos; no entanto, quando for tocar Bach, no fim do mês, contará com alguns dos maiores especialistas brasileiros na música antiga com instrumentos de época: o flautista e regente Ricardo Kanji e a soprano Marília Vargas.

Não parece exagero classificar Marília Vargas como a voz do barroco no Brasil. Nascida em Curitiba e formada em Basileia, na Suíça, ela tem no currículo apresentações com grupos internacionais de destaque no cenário da música historicamente informada, como La Capella Reial de Catalunya, de Jordi Savall, e Orchestra of the Age of Enlightement.

Além da atividade de performance, ela tem atuado na formação de jovens talentos, transmitindo aos cantores brasileiros o conhecimento que recebeu em solo europeu, em instituições como a Schola Cantorum Basiliensis e a Escola Superior de Música de Zurique, de nomes como Montserrat Figueras, Christoph Prégardien, Silvana Bartoli e Barbara Bonney. Marília é professora de canto lírico e da oficina de música barroca da Escola Municipal de Música de São Paulo, professora de canto barroco na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) e preparadora vocal do Coral Jovem do Estado.

Neste ano, sua agenda inclui, entre outros compromissos, o espetáculo “Viva Vivaldi”, com a Orquestra Barroca de Ouro Preto e o cravista Fernando Cordella, no Sesc Palladium, em Belo Horizonte, em maio; e “Viva Händel”, também com Cordella, dessa vez com a Orquestra de Câmara de Curitiba, na capital paranaense, em outubro.

Marília Vargas [Divulgação / Andrea Paccini]
Marília Vargas [Divulgação / Andrea Paccini]

No ano passado, você cantou muito Bach: a Paixão segundo São João e três cantatas do Oratório de Natal, na Sala São Paulo. Neste ano, teve o Magnificat, no Theatro Municipal, e agora, com Ricardo Kanji, o Oratório de Páscoa e a cantata Christ Lag in Todes banden. Para você, como é cantar Bach? 
É uma das coisas mais difíceis de cantar. Bach às vezes parece “fácil”, mas ele tem essa questão tão instrumental… A linha às vezes quase parece não ser vocal, pela questão da respiração. Onde vou respirar aqui? Quando interpreto Bach, preciso lembrar que sou uma cantora, então devo respirar, me dar ao luxo de não soar como um oboé ou um violino, porque preciso contar com meu ar da melhor maneira possível. É uma música extremamente difícil. Se a gente pensar nos alunos, nos cantores jovens: é fácil você se tensionar cantando Bach, porque normalmente a linha está numa região bastante aguda e de passagem para cima, para o soprano. Não vai para os superagudos, para os extremos da voz, mas fica ali na região que sempre é mais difícil. É um repertório a ser abordado com muito respeito. Para mim, é estar em casa.

Como você virou cantora de música antiga? Havia essa prática na Curitiba de sua infância?
Em Curitiba, existia a Camerata Antiqua. Então já tinha um nome para a música antiga. Na verdade, iniciei no canto lírico muito cedo. Comecei a estudar violino com 5 e com 9 fui para o canto. Mas queria mais, e um dia meu pai, que é meu maior incentivador, chegou ao colégio para me buscar e me disse que eu faria uma audição para a soprano Neyde Thomas, que estava voltando para o Brasil. Ela não quis muito me dar aula, mas seu marido, o barítono Rio Novello, que ouviu a audição, disse que eu seria o perfeito pastorzinho para a ópera Tosca, de Puccini, que a Neyde ia fazer com Alceo Bocchino. Entrei nessa produção, nesse papel, com 12 anos, e daí decidi que queria ser cantora de ópera. Isso foi em 1989, então posso dizer que estou completando 30 anos de carreira. Minha voz era muito ágil, muito aguda, então minhas aulas eram divertidas. Muita gente ia assistir, batia palmas quando eu cantava os superagudos, e comecei a me sentir meio circense! Aquilo começou a me incomodar: mas que diabo estou fazendo? Aí, quando eu tinha 17 anos, soube do Festival de Juiz de Fora, já estava na faculdade, e fui fazer canto barroco. Conheci Homero de Magalhães Filho, Luís Otavio Santos, Ricardo Kanji, toda essa turma. Conheci Monteverdi, Couperin, descobri Dowland, e disse: isso é que é música profunda! É isso que eu preciso fazer! Homero me incentivou muito nesse começo: “Você tem que se dedicar a esse repertório, sua voz é perfeita para isso”. Num rompante adolescente, eu disse: “A partir de hoje, eu só canto música antiga!”. E Neyde Thomas ficou irada comigo. Homero me ajudou a ir para a França, fui conhecer Maria Cristina Kiehr, descobri que ela tinha estudado em Basileia e resolvi ir para lá. Em dois anos, fui do canto lírico tradicional para a música antiga.

Daí você foi para a Suíça e até acabou ganhando passaporte suíço. Quem foi decisivo para você lá?
Fui para a Suíça sem nada confirmado. Minha família conhecia a família Brandão, e Eunice Brandão, da viola da gamba, me acolheu e imediatamente me apresentou a Nicolau de Figueiredo. Tive uma sorte danada de passar três meses em Basileia, podendo fazer aulas com ele de três a quatro vezes por semana para me preparar para a prova da Schola Cantorum. Ele era um cantor-cravista. A voz dele era feia, mas ele sabia transmitir o afeto, as intenções. Fora a questão das ornamentações e o conhecimento que tinha. Havia todo um trabalho de afeto, de cor da palavra. Parece muito óbvio o que estou falando, mas a palavra “amor” não pode soar como “dolor”. E esse é o grande lance do canto barroco. No estudo do canto tradicional, você busca uma cor única. O que é bonito é essa cor única, extremamente uniforme, sem importar o texto. No barroco, você tem que brincar com esses coloridos. Você tem que jogar com isso. Você pode escurecer ou clarear a voz, ou até botar ar, de acordo com o afeto que quer. Isso ficou muito presente para mim no contato com Nicolau: eu precisava ter essa flexibilidade vocal que me permitisse colorir a voz de acordo com a palavra ou o afeto que aquele texto me demandava.

Você se formou lá, fez carreira internacional, cantou com Jordi Savall. Profissionalmente, o que a trouxe de volta ao Brasil?
A Emesp. Chegou uma época em que eu estava muito no Brasil, passando meses seguidos, com muitas coisas acontecendo por aqui: na temporada 2008/2009, cantei pela primeira vez com a Osesp. E, Em 2012, Luís Otavio Santos me perguntou: “Por que você não se firma aqui e vem dar aula no Núcleo de Música Antiga da Emesp, que seria o primeiro curso de canto barroco do Brasil?”. E eu disse que não, que não queria me prender, queria estar livre, poder viajar etc. Ele propôs organizarmos uma master class de canto barroco e ver o resultado. Aconteceu que, para essa master class de três horas, tinha setenta alunos inscritos. Daí eu me dei conta da demanda de um professor para esse repertório aqui.

Nesse concerto com Ricardo Kanji, você canta com três alunos seus: Bruno Costa (contratenor), Jabez Lima (tenor) e Fúlvio Lima (baixo). É um jeito também de mostrar o resultado do trabalho que você tem desenvolvido na Emesp?
Cinco anos depois de abrirmos o primeiro curso de canto barroco na Emesp, já temos gente com nível para subir ao palco e cantar, como Ana Carolina Coutinho, que fez a Paixão segundo São João no ano passado conosco e está em Hamburgo, além de outros aqui no Brasil, como Ludmilla Thompson e Bruno Costa. 

Além de convencê-la a se mudar de volta para o Brasil, o violinista e regente Luís Otavio Santos tem sido uma presença constante em sua carreira. Fale sobre sua relação com ele.
É até difícil colocar em palavras o que ele representa em minha vida. Parece que a cada grande passo que dei, ele estava ali. Minha decisão de ir para a música antiga foi no Festival de Juiz de Fora, realizado pela família dele. Os primeiros concertos importantes que fiz no Brasil, como a gravação do Magnificat, de Bach, e apresentações na Sala Cecília Meireles foram com ele. Até culminar de sermos colegas na Emesp, com convívio quase semanal. Ele tem uma inteligência musical fora do comum, e não tenho vergonha de consultá-lo, mesmo quando ele não está envolvido diretamente na apresentação. A gente tem uma simbiose muito bonita no palco. Em nosso último concerto, o Oratório de Natal, na Sala São Paulo, teve um momento em que tive a sensação de estar de mãos dadas com o Luís, fisicamente junto. E depois do concerto ele veio dizer: “Parecia que eu estava de mãos dadas com você”. 

Luís Otavio foi ainda o regente de sua estreia operística em São Paulo, com Alcina, de Händel, no ano passado, no Theatro São Pedro. Para você, cantar ópera é muito diferente da experiência com concertos e recitais?
Eu me assustei um pouco com Alcina, porque foi a primeira vez que fiz um papel principal. Foi minha estreia na ópera nos palcos paulistanos. Eu já tinha feito um pequeno papel na versão concertante do Rosenkavalier, de Strauss, na Sala São Paulo, com a Osesp, mas é muito diferente. O engraçado disso tudo é que, durante meus estudos de canto, inclusive na Schola Cantorum, todo mundo dizia que eu tinha muito potencial para ópera e que devia ir para esse lado. Christoph Prégardien, que foi meu professor durante o mestrado, queria porque queria que eu fosse para um teatro na Alemanha e ficasse fixa por uns dois, três anos, e eu fugi, porque já estava fazendo concertos com Savall, viajando com muita gente e não queria ficar presa em um teatro. Eu fiz alguns projetos de ópera de câmara em Curitiba, mas nada comparável à exposição e à responsabilidade de Alcina. Eu mesma estava muito curiosa para saber como lidaria com isso: passar um mês da vida me esquecendo de todo o resto e fazendo só a ópera. Foi muito gratificante. Fiquei muito feliz. O trabalho com o diretor William Pereira foi magnífico, e com Luís Otavio regendo, e Fernando Cordella ao cravo, eu estava em família. Foi importante também mostrar esse meu lado. Meus próprios alunos diziam: “Professora, é você?”.

Você tem gravado com regularidade. Qual é o projeto de disco para este ano?
Vou fazer meu primeiro disco de música antiga no Brasil. Tenho vários discos de música antiga gravados, mas todos com grupos de fora. E os que fiz aqui não eram de música antiga. Estou muito orgulhosa por gravar airs de court das cortes de Luís XIII e Luís XIV: Pierre Guedron (1570-1620), Michel Lambert (1610-96), Étienne Moulinié (1599-1669). Incluindo umas canções espanholas, porque Luís XIII se casou com uma espanhola. Vão ser dois alaúdes: Silvana Scarinci e Roger Burmester. Temos patrocínio, é um projeto de mecenato da Prefeitura de Curitiba, e gravamos em setembro.

Embora você seja mais conhecida pelo trabalho com a música antiga, tem uma carreira eclética, incluindo a gravação de um disco dedicado à música chinesa. A técnica vocal varia de alguma forma segundo o repertório abordado?
Eu vim de uma formação lírica tradicional e acredito que a técnica vocal seja a técnica vocal. Acho que o que diferencia mesmo o canto barroco do canto moderno é uma questão estética. É o jeito com que vou usar a técnica, a direção que vou dar. E a técnica tem que ser tão plena quanto se eu fosse cantar Verdi ou Puccini. Uma coisa que sempre fiz, desde muito jovem, foi música brasileira. Quando cheguei à Suíça, me pediam música brasileira e fiz algumas coisas com o alaudista Edin Karamazov, que hoje é famosíssimo. Mais tarde, Rosana Lanzelotte me colocou em contato com o violoncelista Antonio Meneses, com quem cantei as Bachianas brasileiras nº 5, de Villa-Lobos. Depois, finalmente, veio André Mehmari, outro parceiro especial, que Janete Andrade me apresentou. Ouvi o CD dele com Ná Ozzetti e disse: “Preciso conhecer essa pessoa”. Eu me apaixonei pela “brasileirice” dele, e ele se apaixonou por minha “barroquice”. A gente se complementou, ele escreveu obras para mim, gravamos o disco Engenho novo e agora temos um projeto Villa-Lobos em andamento.

Obrigado pela entrevista. 


AGENDA
Orquestra Sinfônica da USP
Ricardo Kanji
– regente e flauta
Marília Vargas – soprano
Dia 20, Sala São Paulo