Schumann retocado por Mahler

por João Marcos Coelho 01/04/2019

“Estou alterando o caráter dessas obras? Com certeza, não”, dizia o maestro e compositor sobre sua versão para a integral de Schumann, que a Osesp começa a interpretar este mês

Modernamente, mais que mantra, tornou-se lugar-comum o dogma da fidelidade à partitura na interpretação musical. Um pouco por causa da avalanche do movimento da prática da música historicamente informada, outro tanto pelo engessamento da vida musical contemporânea. Na verdade, é um círculo vicioso: o cidadão ouve em casa, no carro ou no celular sua interpretação preferida de determinada obra e, quando topa com uma performance diferente na sala de concertos, simplesmente a rejeita e desqualifica.

“Não toquem em meu Mozart.” Permanece atual a frase que ouvi ainda adolescente no Theatro Municipal de uma senhorinha em pânico porque o maestro Diogo Pacheco propunha no palco leituras pouco ortodoxas da obra do menino-prodígio de Salzburg.

Por isso, é fundamental que o público tenha ouvidos abertos para os dois concertos que a Osesp propõe neste mês, em que serão interpretadas as quatro sinfonias de Robert Schumann. A versão que será levada à Sala São Paulo é a realizada por Gustav Mahler (1860-1911). E, antes que vocês pensem que as mudanças são pequenas, preparem-se. A revisão de Mahler, como aponta David Pickett, “demonstra sua profunda compreensão e empatia com o mundo sonoro de Schumann, que se beneficia de sua superior maestria no trato com a orquestra”. Mahler não se limita a “corrigir” e atenuar eventuais deficiências frequentemente apontadas nas sinfonias. Muda as dinâmicas, reinstrumenta de fato as obras. 

[Reprodução]
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Arranjos e modificações profundas nas obras de terceiros eram comuns e aceitos na era anterior à dos direitos autorais (remember Bach-Vivaldi e mesmo Mozart metendo a mão na partitura do Messias de Händel, numa versão em alemão, entre tantos outros casos). Pickett, que foi engenheiro de gravação no mítico estúdio Abbey Road da EMI, pulou para o campo acadêmico – passando por Indiana, hoje é professor na Universidade do Norte do Texas – e estudou com o maestro Igor Markevitch. É considerado o maior especialista nas “Retuschen” que Mahler fez em praticamente todo o grande repertório (sua tese, Gustav Mahler as an Interpreter, é de 1989; em seu site https://www.fugato.com/pickett, você pode encontrar mais informações sobre o tema e bibliotecas de universidades que contam com cópias da tese). Os “retoques” de Mahler incluem Bach, por exemplo. Em 1909, ele regeu sua versão das suítes de Bach tocando um piano Steinway com tachas de metal nos martelos para soar como um cravo de som mais poderoso e com a vantagem da dinâmica, rodeado pelos músicos da Filarmônica de Nova York. Na Eroica, cortou pela metade as cordas em passagens pianíssimo do primeiro movimento e no Finale; e, escreve Pickett, “mudou notas em que percebeu que a escolha de Beethoven ficava comprometida pelos instrumentos de seu tempo”. Na Sinfonia nº 40, de Mozart, diminuiu drasticamente o número das cordas e colocou mais uma flauta nas madeiras (a partitura só prevê uma ao lado de pares de oboés, fagotes e trompas).

O que mais me chamou a atenção foi uma frase de Richard Wagner em seu livro sobre regência de 1869: “Talvez Mozart tenha deixado tão poucas indicações expressivas para que nós o façamos”. Wagner era guru de Mahler em termos de prática não ortodoxa de interpretação. Essa frase fica ainda mais forte quando o próprio Mahler diz o seguinte sobre seu arranjo para cordas, com contrabaixos, do quarteto A morte e a donzela, de Schubert: “O que proponho é apenas a performance ideal do quarteto (…). Quando a música de câmara é tocada numa sala de concertos grande a intimidade se perde. (…) Estou alterando o caráter dessas obras? Com certeza, não. (…) Não estou agindo contra as intenções do compositor, mas de acordo com seus desejos”.

E aí entra outro músico, contemporâneo exato de Mahler e hoje meio esquecido e quase nunca presente nas salas de concertos. Estou falando de Ferruccio Busoni (1866-1924), o maior pianista de seu tempo, também compositor e agudo teórico da música. Ele coloca a interpretação no mesmo nível de invenção que a obra escrita na partitura. Ou talvez até mais, como explica nestas palavras reveladoras de 1906: “Toda notação é, em si, a transcrição de uma ideia abstrata. No exato instante em que a caneta captura a ideia, a ideia perde sua forma original. A mesma intenção de escrever e anotar uma ideia leva à escolha de ritmo e tonalidade. A forma e o meio sonoro que o compositor deve decidir para poder anotar sua melodia estreitam ainda mais o caminho e os limites”. 

É simples e revolucionário o que Mahler, em revisões, cortes e até acréscimos nas obras dos grandes compositores do passado, e Busoni, com suas transcrições não ortodoxas, propõem: dessacralizar o grande repertório, desmumificá-lo, enquanto tarefa de cada geração de músicos; e situar a obra no presente, na geografia cultural de nosso tempo. Isso é ser atual, isso é fazer da música uma prática viva. 


Para ler
“Arrangements and Retuschen: Mahler and Werktreue”, de David Pickett, na coletânea Cambridge Companion to Mahler (Cambridge University Press, 2007)

Para ouvir
“Schumann – Symphonies 1-4” – Orquestra Gewandhaus de Leipzig; Riccardo Chailly – regente (Decca, 2008).

AGENDA
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop
– regente
Dias 25, 26 e 27 de abril e 3, 4 e 5 de maio, Sala São Paulo