Celebração e sobrevivência

por João Luiz Sampaio 01/04/2019

Theatro Municipal de São Paulo propõe leitura de A sagração da primavera, de Stravinsky

Já se vão mais de cem anos desde que o balé A sagração da primavera, com música de Igor Stravinsky e coreografia de Vaslav Nijinsky, subiu pela primeira vez aos palcos. Ainda assim, os efeitos da obra continuam a ressoar. “É a peça mais desafiadora do repertório”, diz o maestro Roberto Minczuk. “Um século depois, ainda é marca de genialidade e inovação”, completa o coreógrafo Ismael Ivo. Não por acaso, a obra foi a escolhida para marcar, no ano passado, os 50 anos do Balé da Cidade. E, sucesso de crítica e público, volta neste mês ao palco do Theatro Municipal de São Paulo.

A sagração nasceu de uma encomenda do empresário Sergei Diaghilev, que, desde 1907, organizava concertos em Paris e, em 1909, criou os Balés Russos, com o objetivo de reunir artistas em torno de novas obras que dialogassem com questões do século XX. Diaghilev e Stravinsky trabalharam juntos pela primeira vez em 1910, com o balé O pássaro de fogo; em 1911, Petrushka; e, em 1913, A sagração da primavera, uma “obra musical e coreográfica que representa a Rússia pagã, unificada por uma ideia: o mistério do poder criativo da primavera”, como afirmaria o próprio compositor. 

Cena de A sagração da primavera [Divulgação / Fabiana Stig]
Cena de A sagração da primavera [Divulgação / Fabiana Stig]

O balé estreou em 29 de maio de 1913 – e, depois dele, nada foi igual. Para o historiador Donald Jay Grout, a peça tornou-se a mais famosa obra do século XX, e seu efeito foi “uma explosão que destruiu de tal forma os elementos da linguagem musical que eles jamais poderiam ser reconstruídos da mesma forma”. Alex Ross, no livro O resto é ruído, afirma que a peça sugere uma “música do corpo”, não da mente, na qual “as melodias seguem o padrão da fala, os ritmos se combinam com a energia da dança e as sonoridades carregam a dureza da vida como ela é realmente vivida”.

Por tudo isso, criar uma nova coreografia para o balé é um desafio. O espetáculo do ano passado não foi, no entanto, o primeiro contato de Ismael Ivo, diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo, com a obra. Em 2013, no centenário de A sagração, ele criou o espetáculo No Sacre, primeira produção da Biblioteca do Corpo, projeto que reuniu jovens bailarinos de diversos países para o que ele chamou de “indagação coreográfica”. “De certa forma, No Sacre funcionou como projeto-piloto, um estudo que foi completado no ano passado”, ele explica, em entrevista à Revista CONCERTO.

Para o coreógrafo, A sagração trata de “um ideal da mitologia humana de viver em sociedade, celebrar e continuar vivendo”. E foi nessa chave que o conceito do trabalho se desenvolveu. “O espetáculo começa com uma pergunta: temos certeza de que virá a próxima primavera? Estamos destruindo nossa capacidade de sobrevivência neste planeta. Nunca fomos tão assolados por furacões, maremotos e tremores de terra. O polo Norte está em visível degelo e cresce o número de incêndios florestais. No espetáculo, temos uma tempestade de cerca de 650 mil pétalas de rosas, o que inicialmente parece belo, mas que se torna uma tortura, um exagero. Os bailarinos lutam para realizar a coreografia, e a celebração se transforma numa luta pela sobrevivência.”

Para o maestro Minczuk, a temática é um dos elementos a tornar o balé tão atual. “É uma obra que desafia o maestro, os músicos, os bailarinos, o público, mas que segue impactando quem a faz e a ela assiste. Há uma energia transformadora em qualquer interpretação de A sagração”. Ainda mais quando estão juntos, ao vivo, orquestra e bailarinos. “É uma troca de ideias em que precisamos encontrar o tempo certo, de acordo com a coreografia, com o corpo de quem dança. Afinal, o corpo não é sempre o mesmo, a cada dia há algo diferente, e é preciso ter flexibilidade. Um espetáculo como esse é algo que se faz no momento.”


AGENDA
A sagração da primavera

Balé da Cidade de São Paulo – Ismael Ivo, diretor artístico
Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo – Roberto Minczuk 
e Wagner Polistchuk, regentes
Dias 4, 5, 6, 7, 11, 12, 13 e 14, Theatro Municipal de São Paulo