A paixão segundo Mateus

por Leonardo Martinelli 01/04/2019

Quase três séculos após sua estreia, a obra-prima de Bach continua a encantar plateias e a ganhar novas e renovadas interpretações

De maneira geral, a história da música se desenvolveu por um princípio bastante simples: toda atividade musical se justificava a partir de uma demanda social. A música cumpria um papel essencialmente funcional, e cabia a todos os envolvidos – instrumentistas, cantores e compositores – compreender a natureza do serviço encomendado e executá-lo a contento. Ponto.

Por essa perspectiva fica, então, fácil compreender os motivos que levaram Johann Sebastian Bach a elaborar a partitura de A paixão segundo Mateus: desde 1723, o compositor era responsável pela vida litúrgico-musical da Igreja de Tomás em Leipzig, Alemanha. Tal como ocorre com a maioria das designações cristãs, a Páscoa é o momento central do calendário litúrgico, e desta forma cabia a Bach prover uma atividade musical à altura da importância desse momento.

E assim foi feito: tudo leva crer que a obra foi ouvida pela primeira vez em 11 de abril de 1727 (o famoso biógrafo Philipp Spitta defende que isso ocorreu dois anos mais tarde), como parte musical do ofício luterano para a Sexta-Feira Santa. Aliás, reside aí um detalhe importante quanto ao título da obra, originalmente designada por Passio Domini nostri J. C. secundum Evangelistam Matthæum. Ou seja, definindo Mateus como apóstolo evangelista, mas não como santo (designação essa evitada nas religiões protestantes), contrariando o título postumamente popularizado, isto é, A paixão segundo São Mateus.

A obra, por muitos considerada a apoteose de música sacra luterana, pode também ser entendida como a ópera que Bach jamais escreveu. Isso ocorre porque, enquanto gênero musical, A paixão nada mais é que um tipo de oratório, ou seja, uma narrativa musical de temática religiosa, embora sem nenhum tipo de encenação. Sua dimensão operística reside, sobretudo, no uso de formas de escritura típicas desse gênero – como a ária da capo –, quase todas precedidas por um recitativo accompagnato. Ao longo da peça, ouvimos uma grande quantidade de recitativo secco, nos quais a figura do evangelista tece o fio narrativo e as personagens bíblicas ganham voz. Aliás, é durante um recitativo secco que ouvimos um dos momentos mais impactantes na obra, quando em seu calvário Jesus Cristo brada aos céus: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”. Nessa passagem (presente apenas no evangelho de Mateus), Bach vale-se de um inesperado recurso musical para reforçar a dramaticidade: até ali, todas as participações musicais de Cristo eram acompanhadas por uma orquestra de cordas, e apenas durante o brado essa auréola musical se apaga, logo antes de ele render seu espírito. Ao longo dessa estrutura operística, são adicionados diversos corais luteranos, proporcionando singular contraste musical, ao mesmo tempo que seus textos nos conduzem à reflexão sobre diferentes aspectos da fé cristã.

Johann Sebastian Bach (1865-1750) [Reprodução]
Johann Sebastian Bach (1865-1750) [Reprodução]

Todos esses elementos juntos fazem dessa obra muito mais que mero produto funcional da demanda social-religiosa da época: temos uma das grandes obras-primas de todos os tempos. “Nessa obra é notável a maestria de Bach na condução da interioridade do ouvinte, a partir de sua concepção de ‘conversão de uma alma’ por meio da escuta”, afirma Yara Caznok, professora e pesquisadora do Instituto de Artes da Unesp, que há anos desenvolve um trabalho específico de pesquisa e ensino sobre essa peça. “Como diretor ou roteirista, Bach alterna com absoluto domínio as diferentes maneiras de participação do ouvinte, que vive a Paixão de Cristo e não apenas a acompanha como espectador. O ouvinte está ora misturado à multidão (por exemplo, no coro inicial), ora refletindo na comunidade (corais), ora na intimidade de seu coração (árias).”

Apesar de toda a maestria e a beleza, demorou muito tempo para A paixão enfim ingressar no cânone da música clássica mundial. Após a estreia, registram-se apenas outras três reapresentações em vida do compositor. Depois disso, a obra só seria reouvida em 1829, sob a batuta do compositor Felix Mendelssohn. Desde então, sua partitura passou por diversas edições e revisões, mas mais numerosas foram as gravações, num primeiro momento a destacar a monumentalidade da partitura – com grandes massas instrumentais e coros apocalípticos. Mais recentemente, os registros se caracterizam pela busca da sonoridade original, inclusive permitindo-se certas liberdades e ornamentos antes inadimissíveis dentro de um senso um tanto limitado de purismo. Sorte a nossa, que hoje podemos nos arrebatar de forma sempre nova com essa obra cuja escuta é capaz de revelar algo novo sobre nossa relação com a música e com o divino.


AGENDA
A paixão segundo Mateus
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Coro da Osesp, Coro Infantil da Osesp, Coro Acadêmico da Osesp e solistas
Nathalie Stutzmann
– regente
Dias 10 (ensaio aberto), 11, 13 e 15 de abril, Sala São Paulo