Livros: a seleção do mês

por Redação CONCERTO 01/04/2019

Confira os principais lançamentos de livros do mês, selecionados pela Revista CONCERTO, que cobrem um arco temático amplo, da música de Bach à criação dos quartetos de cordas de Villa-Lobos.

 

[Reprodução capa]
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A formação de um compositor sinfônico
Camargo Guarnieri entre o modernismo, o americanismo a boa vizinhança
André Egg
Alameda Casa Editorial. 244 páginas. R$ 60,00. Desconto de 10% para assinantes.

Durante bom tempo, a leitura que se fez da música brasileira ao longo do século XX foi pautada pela oposição entre nacionalistas e vanguardistas (ou cosmopolitas). De um lado, estaria a necessidade de defender uma música de caráter nacional, que levasse em conta a riqueza da cultura regional; de outro, o olhar atento às inovações técnicas e estilísticas da Europa. Ainda que o embate entre autores tenha de fato existido, nos últimos anos se iniciou um processo de reavaliação dessa dualidade como determinante na música brasileira, o que tem resultado em um retrato mais complexo e nuançado do período. Retrato para o qual contribui o trabalho de André Egg a respeito de Camargo Guarnieri. Como escreve Marcos Napolitano, do Departamento de História da USP, Egg vai além do “clichê do nacionalismo musical brasileiro” para mostrar um artista que dialogou com a multiplicidade de experiências históricas e culturais do país. “[Egg] utiliza obras e correspondências do compositor para elucidar quanto seu processo de formação foi descontínuo, indeterminado e múltiplo”, diz. Além disso, Egg se preocupa em pensar a música em diálogo com outras disciplinas das ciências humanas e, como resultado, diz Napolitano, “o trabalho tece os fios que unem a obra do compositor às tensões e às diretrizes do tempo histórico”.


[Reprodução capa]
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Tudo tem que ser possível
O livro de Johann Sebastian Bach
Organização, tradução, comentário e notas de Mário Alves Coutinho
Tipografia Musical. 300 páginas. R$ 64

Psicólogo de formação, com pós-doutorado em literatura comparada, Mário Alves Coutinho já lançou estudos e traduções do poeta William Blake e de David Herbert Lawrence, além de ter publicado publicou ensaios sobre Godard. Em seus múltiplos interesses cabe, também, a música. Em 2016, ele lançou Aforismos musicais, extraídos da correspondência de Mozart. E agora ele se volta a Bach, em uma tentativa de compreender a genialidade de sua obra – e o modo como ela tocou as pessoas ao longo dos séculos; afinal, “perdurar aos olhos do tempo é parte da essência da arte, aquela que faz estudiosos se debruçarem sobre ela durante décadas e séculos, que nos faz sentir, a qualquer momento, como se estivéssemos perto de algum deus”. O livro, assim, reúne alguns textos autorais e comentários de intérpretes, especialistas e ouvintes dos mais diversos da música de Bach, formando um “quebra-cabeça de vozes” que permite ao leitor vislumbrar o percurso musical e biográfico do compositor, “em que ele nos mostra, mais uma vez, como gênio e engenho parecem se pertencer etimologicamente e caminhar sempre juntos na vida humana, demasiadamente humana, de um artista”.


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Os quartetos de cordas de Villa-lobos: forma e função
De Paulo de Tarso Salles
Edusp. 375 páginas. R$ 58

O compositor Gilberto Mendes costumava referir-se aos quartetos de cordas de Heitor Villa-Lobos como um dos mais importantes conjuntos de peças do século XX, a ser comparado em sua relevância aos quartetos de Béla Bartók, por exemplo. E definitivamente não estava sozinho em seu diagnóstico. Nos últimos anos, o lançamento de novas gravações e o interesse renovado de intérpretes tem ajudado a estabelecer as obras como marcantes dentro da compreensão do legado de Villa Lobos para a música moderna. Processo para o qual o novo livro de Paulo de Tarso Salles, Os quartetos de cordas de Villa-Lobos: forma e função, contribui de maneira decisiva. Professor da Universidade de São Paulo, ele já havia se dedicado ao compositor em Processos composicionais, de 2009, no qual estudava os procedimentos de Villa-Lobos. Desta vez, volta-se aos dezessete quartetos de cordas, escritos durante um longo período, entre 1915 e 1957. Como escreve Leopoldo Waizbort, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Usp, ele aborda as obras a partir de dois olhares: de um lado, seus aspectos formais e, de outro, seus aspectos ideológicos. Com isso, ele anota, cria uma “visada inédita e inovadora” sobre as obras e sobre o processo de criação do compositor, ajudando o leitor a compreender melhor as várias facetas de sua obra e como os quartetos são simbólicos daquilo que o definia como músico e compositor.

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Villa-Lobos reavaliado com profundidade, por Camila Fresca


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Ouvircantar
75 Exercícios para ouvir e criar música
De R. Murray Schafer
Editora da Unesp. 112 páginas. R$ 32

O nome do musicólogo e compositor canadense R. Murray Schafer tem sido fundamental no ensino da música ao longo das últimas décadas por conta de livros como O ouvido pensante e A afinação do mundo (ambos lançados no Brasil pela editora da Unesp), em que propõe uma relação ativa no processo de criação, interpretação e audição da música. E muitos dos conceitos dessas e outras obras estão presentes neste livro, ganhando forma prática por meio de 75 exercícios que têm como objetivo oferecer ferramentas para “limpar os ouvidos” e libertar a imaginação para a criação musical, sem que seja preciso recorrer a uma orquestra ou a instrumentos musicais sofisticados. Como anota a apresentação da obra, “hoje, mais do que nunca, o mundo está repleto de ruídos – buzinas, gritos, sirenes, canteiros de obras, motores: uma incessante avalanche sonora que acaba anestesiando, ou bloqueando, nossos ouvidos”. “É preciso, então, reaprender a ouvir e escutar. E para realizar essa tarefa, podemos contar com uma grande parceira: a criatividade”. Os exercícios foram preparados para a execução em grupo, de maneira simples, e é uma ferramenta tanto para amantes de música como para professores interessados em desenvolver a relação com a criação musical de maneiras novas e fascinantes, envolvendo seus alunos de maneira intensa no processo de escuta.


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