Dimensões e coloridos

por João Luiz Sampaio 01/05/2019

O  violinista e maestro Thomas Zehetmair fala sobre seus concertos com a Osesp

Thomas Zehetmair está sempre em busca de novas possibilidades de expressão. E elas, na música, são muitas, quase infinitas. Violinista celebrado como solista, ele quis experimentar a experiência de um quarteto de cordas. Fez maravilhas. E, então, descobriu a regência. Foram todos, ele diz, passos naturais. A diversidade, acredita, o define como músico. E é com ela que ele desembarca neste mês em São Paulo para duas semanas de trabalho com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. 

Nos dias 9, 10 e 11, Zehetmair rege a Sinfonia nº 40 de Mozart; Fratres, de Arvo Pärt; e o Concerto fúnebre, de Karl Amadeus Hartmann, no qual também atua como solista – a peça, de 1939, foi escrita sob o impacto do início da Segunda Guerra Mundial. Na semana seguinte, o músico toca com a violista Ruth Killius o Concerto duplo, peça da juventude de Britten, escrita quando o compositor era ainda estudante, em um programa que se completa com a Sinfonia nº 6, de Anton Bruckner.

Thomas Zehetmair [Divugação]
Thomas Zehetmair [Divugação]

“A música de Hartmann é extremamente autêntica durante toda a peça e tocante de uma forma bastante direta”, diz Zehetmair em entrevista à Revista CONCERTO. “Apesar de terem sido escritos com apenas dez anos de diferença, os dois concertos de meus programas em São Paulo, Hartmann e Britten, não poderiam ser mais diferentes no que diz respeito ao caráter. O Concerto duplo de Britten é música para cima e nos dá um insight interessante sobre a fantasia generosa e a maestria de um homem jovem, prestes a deixar de ser um prodígio para se tornar um grande compositor. A obra de Hartmann, por sua vez, é uma das mais intensas e apaixonadas acusações musicais sobre a crueldade, uma expressão profunda do desespero.”

Sobre a Sexta de Bruckner, por sua vez, Zehetmair diz que é a textura o que mais o fascina. “Bruckner referia-se a sua sexta como sua sinfonia mais audaciosa, insolente. O fato é que, dentro da obra dele até aquele momento, a textura é a mais polirrítmica, interessante e moderna, também na exploração das harmonias e das variações. Muitos momentos são intrigantes, como o começo do trio do scherzo, que tem modulações reveladoras, incrivelmente surpreendentes e, ao mesmo tempo, simples e inspiradas pelo folclore”, acredita.

Zehetmair tem sido fundamental na defesa da obra de Hartmann, em especial a música de câmara, com seu quarteto. Como regente, Bruckner é uma de suas especialidades. Mas estamos nos adiantando. Tudo começou, afinal, com o violino. Nascido em Salzburg, em 1961, estudou com o pai a partir dos 5 anos e, com 16, fez sua estreia no prestigiado festival da cidade. Mais tarde, seria orientado por Nathan Milstein e Max Rostal. E logo uma carreira de exceção se desenvolveria.

“Depois de explorar a mais pura das formas, o quarteto de cordas, ainda muito caro para mim, este me pareceu um passo lógico: explorar a riqueza de coloridos e  texturas desse sons fascinantes e dessa variedade de instrumentos”

Nos anos 1980 e 1990, escolha um repertório, uma época, um estilo, e lá estava Zehetmair, disputado por salas de todo o mundo e gravando discos de referência. Não por acaso. Na música antiga, tinha como grande parceiro Nikolaus Harnoncourt; no repertório romântico, além dos concertos, havia a música de câmara, com colegas do quilate do pianista Alfred Brendel; entre os contemporâneos, um guia marcante: o oboísta e maestro e compositor Heinz Holliger. “Eu sempre, desde o começo na música, fui, e acho que ainda sou, extremamente curioso. Fico feliz em aprender peças novas. E há tantas obras-primas que ainda posso descobrir”, diz.

O passo seguinte foi formar seu quarteto de cordas, que em seu repertório também abarcava uma ampla gama. Em meados dos anos 1990, então, começou a reger. “É claro que há quantidades imensas de páginas na literatura para violino, mas preciso reconhecer que o repertório sinfônico abriu novas dimensões para mim. Na verdade, depois de explorar a mais pura das formas, o quarteto de cordas, ainda muito caro para mim, este me pareceu um passo lógico: descobrir a riqueza de coloridos e texturas desse sons tão fascinantes e dessa variedade de instrumentos.” 


AGENDA
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Thomas Zehetmair
– violino e regente
Dias 9, 10, 11, 16, 17 e 18, Sala São Paulo