Viver de música

por Camila Fresca 01/05/2019

Atração do mês da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, mezzo soprano Mere Oliveira relembra decisão de se dedicar ao canto

As memórias musicais mais antigas de Mere Oliveira têm a ver com a mãe, que tocava acordeão “de ouvido” na igreja evangélica que a família frequentava em Taubaté, sua cidade natal e onde vive até hoje. “Mãe, faz uma música pra eu cantar com você?”, ela teria dito assim que começou a falar. “Cresci cantando com a mamãe na igreja, e isso foi determinante. Aos 8 anos, eu cantava no grupo das crianças e no das senhoras idosas, que ela dirigia”, relembra.

Dos desafios da vida essa mezzo soprano entende bem. Seu primeiro trabalho foi aos 14, num consultório médico, fazendo de tudo um pouco: secretária, faxineira, office girl  etc. Depois de se formar no magistério, foi trabalhar no comércio. E, então, ingressou na faculdade de marketing. Pouco antes de se formar, a antiga paixão pelo canto a levou à Escola de Artes Fêgo Camargo. “Sem ter a menor noção, preparei uma ária antiga e fiz o teste. Entrei e me apaixonei loucamente pela ópera. Passei a ir a festivais e a São Paulo para master classes e concertos. Eu amava cantar, mas não via condições de me profissionalizar”, revela. 

Ao terminar a faculdade, foi trabalhar como funcionária concursada da prefeitura de Taubaté e, paralelamente, deu seus primeiros passos no universo profissional do canto. “Meus chefes sabiam que eu cantava, e todos me apoiavam. Nunca tive alguém que me impedisse. Quando eu ganhava prêmios, virava uma festa. Carrego uma gratidão gigantesca tanto pelos professores da Fêgo Camargo quanto pelos colegas da prefeitura.” Nesse período, Mere ganhou concursos e superou um problema vocal – foi inicialmente classificada como soprano e passou quase um ano sem cantar (foi Neyde Thomas, com quem passou a ter aulas a partir de 2004, quem a auxiliou a se estabelecer como mezzo). 

Mere Oliveira [Divulgação / Tulio Lopes]
Mere Oliveira [Divulgação / Tulio Lopes]

Até que não foi mais possível conciliar as carreiras de cantora e funcionária pública. Em 2007, deixou o trabalho na prefeitura. “Meu pai quase teve uma coisa”, conta, “mas senti que precisava trabalhar com música o dia inteiro, mesmo que não fosse no nível que eu gostaria, pois era o único jeito de me aperfeiçoar”. Ao mesmo tempo, passou a ter aulas com Joaquim Paulo do Espírito Santo, que a ajudou a pôr em prática sua primeira montagem: uma versão pocket  de Carmen. Era assim que ela debutava nos palcos, já que não conseguia oportunidades por falta de experiência em atuar. 

Esse momento une duas características marcantes da carreira de Mere: sua ligação com a famosa ópera de Bizet e uma veia empreendedora que faz com que ela viabilize vários projetos. Quanto a Carmen, “cada vez que tenho que cantá-la me debruço sobre a partitura e sinto que posso fazer melhor”, afirma. Em 2009, ela e um grupo de oito cantores brasileiros tiveram uma semana de aulas, em São Paulo, com a mezzo Teresa Berganza: “Eu me emociono só de lembrar. A cada dia ela pegava um trecho da Carmen para trabalharmos”. Mere já participou, sempre no papel-título, de mais de vinte montagens completas de Carmen, excluindo versões menores ou adaptadas. “Tenho diversas edições da partitura, anotações. Graciela Araya [mezzo soprano chilena], que me orienta atualmente, já cantou o papel mais de quatrocentas vezes. Ela me ensinou muitas coisas; só maneiras de morrer sei umas oito ou nove [risos].”

Já a veia empreendedora faz com que ela não apenas cante em produções de grandes teatros, como toque projetos como Memória Musical e Ópera no Museu, ambos em Taubaté, e o coral das Meninas Cantoras de Campos do Jordão, projeto que ela reativou em 2016, com apoio do Hotel Toriba. Ao lado de Fabio Fagundes, Mere ministra aulas de técnica vocal, fonética, repertório, teoria e solfejo. O conjunto tem 22 meninas entre 9 e 18 anos e, no ano passado, gravou seu primeiro CD. “Tem gente que me pergunta por que elas aprendem teoria musical. Ora, quero que as meninas cantoras sejam de fato cantoras, que as que quiserem seguir carreira musical contem com as ferramentas para isso”, explica. 

Mere se dedica também à canção e tem se apresentado em montagens líricas pelo Brasil e Argentina. Neste mês, apresenta-se com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre na cantata Alexander Nevsky, de Prokofiev, e na Rapsódia para contralto, de Brahms. E prepara-se para duas montagens de ópera, toca seus projetos e inicia um novo: um coral comunitário na Catedral de Taubaté, que, aliás, está com inscrições abertas a interessados.