ELSA BARRAINE
Sinfonias nº 1 e nº 2 – Le fleuve rouge – Les tziganes
Orchestre National de France
Cristian Macelaru – regente
Lançamento Warner Classics. Importado. R$ 175
Elsa Barraine é uma personalidade fascinante. Em 1929, aos 19 anos, foi a primeira mulher a receber o famoso Prix de Roma, com uma cantata em homenagem a Joana d’Arc. Filiada ao Partido Comunista Francês, participou da Resistência durante a invasão alemã de Paris na Segunda Guerra Mundial. Como autora, desenvolveu um estilo próprio que absorvia a linguagem pós-romântica e a herança do impressionismo. E todos esses elementos estão presentes nas obras que a Orchestre National de France acaba de gravar, em um disco que já é referência para quem quer conhecer a criação da autora. De 1938, sua Sinfonia nº 2 é chamada de Voïna, transliteração francesa para a palavra “guerra” em russo. Le fleuve rouge evoca as águas do rio Vermelho que cruza o Vietnã e foi escrita em 1945, ano em que o país tornou-se independente da França. E Les tziganes, de 1959, é uma homenagem à cultura cigana. Há uma riqueza expressiva nas peças de Barraine, e o maestro Cristian Macelaru está sempre atento a elas – em especial à combinação de uma altivez humanista com as sombras de quem reconhece no mundo à volta desafios importantes. Uma autora que precisa urgentemente ser conhecida.
JAVIER CONTRERAS
Works for Two Guitars
Dúo Sudamericano
Lançamento Naxos. Importado. R$ 158
A obra do compositor chileno Javier Contreras se apropria de uma dualidade que tem marcado há décadas a música latino-americana: a relação entre o erudito e o popular. Em seu trabalho, no entanto, evidencia-se a liberdade com que se aproxima do tema. Não há oposição nem diálogo – antes, são elementos constituintes de uma personalidade musical que os incorpora, mas não se limita a eles. Isso fica particularmente claro no repertório que compõe este álbum com obras do autor de 43 anos, interpretadas pelo Dúo Sudamericano, formado por ele e José Antonio Escobar. A Sonata para dois violões, por exemplo, se apoia na sirilla, dança tradicional chilena típica da Ilha de Chiloé, herdeira da seguidilla espanhola e do fandango. Já a Suíte Latinoamericana oferece, a cada movimento, olhares para a cultura de outros locais e regiões. Tres nacimientos, por sua vez, cria um tríptico formado por peças que expressam agitação, serenidade e exuberância. Atemporia flerta com o universo do jazz. A cada peça, assim, um arcabouço de referências se revela – tudo à altura do desafio de buscar uma voz original. Contreras articula essas influências com fluidez, valorizando as possibilidades do violão e a riqueza de suas tradições.
BEDRICH SMETANA
Piano Works
Bogang Hwang – piano
Lançamento Naxos. Importado. R$ 158
Símbolo do nacionalismo musical tcheco, Bedrich Smetana (1824-84) aparece neste disco da jovem e talentosa pianista sul-coreana Bogang Hwang sob luzes distintas. A gravação abre com a Sonata para piano, obra da juventude que impressiona e surpreende ainda hoje. Se há, de um lado, clara influência de Beethoven, Schubert e Schumann, de outro é notável como o compositor rompe com as estruturas clássicas, levando a uma peça de tom dramático, apaixonado e, por vezes, melancólico – uma riqueza expressiva que Hwang sabe recriar de modo comovente, sem recorrer a exageros. Em seguida, ela interpreta os dois livros das Danças tchecas. São obras do fim da carreira de Semtana e reúnem toda a sua pesquisa com a música folclórica . No livro I, destacam-se polcas estilizadas, enquanto, no livro II, as danças são baseadas em ritmos e festas camponesas. Há aqui também alguma melancolia, o que propõe o diálogo entre as peças e outros momentos da carreira de Smetana, que emerge da audição como uma personalidade musical multifacetada. A pianista evidencia, assim, tanto o vigor rítmico dessas páginas quanto suas sutilezas poéticas, revelando a riqueza de uma escrita que une identidade nacional e expressão pessoal.
DEBUSSY
Piano Duets, Volume 2
Hélène Mercier e Louis Lortie – pianos
Lançamento Chandos. Importado. R$ 225
A música francesa da passagem do século XIX para o século XX se revela de maneira fascinante neste álbum. Há, claro, a obra de um compositor-chave para esse período – e para toda a história da música: Claude Debussy. Além disso, as transcrições de algumas de suas peças para duo de piano foram feitas por personagens também centrais. É de Henri Dutilleux, por exemplo, a versão de Claire de lune. Maurice Ravel assina os Noturnos. Pelas mãos de León Roques renascem La soirée dans Grenade e La plus que lente. E Henri Woollett transcreve Rêverie. Transcrições são interessantes, pois oferecem novas possibilidades de audição – e, aqui, carregam a marca de grandes artistas. Mas o álbum traz, ainda, o Prelúdio à tarde de um fauno em arranjo do próprio Debussy, responsável também pela versão de Deux danses. O repertório se completa com duas obras originais para dois pianos, Lindajara e En blanc et noir. Dando vida a essas viagens sonoras estão Hélène Mercier e Louis Lortie, dois grandes pianistas, solistas requisitados que, aqui, se entregam ao prazer da música de câmara. O diálogo entre os instrumentos ressalta as cores, os timbres e a delicadeza dessas partituras, revelando novas nuances.
AMERICAN TUNES #1
Obras de André Previn e Sebastian Currier
Anne-Sophie Mutter – violino
Mutter’s Virtuosi
Lançamento Alpha Classics. Importado. R$ 198
A Tucca acaba de anunciar, para sua temporada de concertos internacionais de 2027, a volta ao Brasil da violinista alemã Anne-Sophie Mutter, artista superlativa, referência do violino nas últimas décadas. E, enquanto as apresentações não acontecem, chega o novo disco da artista ao lado do conjunto por ela criado, os Mutter’s Virtuosi. American Tunes #1 tem obras de André Previn, com quem Mutter foi casada, e de Sebastian Currier. De Previn, são interpretados o Trio com piano, de 2009, e o Concerto para violino nº 2 (2010), escrito para orquestra de cordas e cravo, em uma conexão com o universo da música barroca – ainda que diferentes no escopo, ambos são símbolo da clareza da escrita de Previn e do diálogo intimista que ele estabelece entre as diferentes vozes. Já de Sebastian Currier, é uma obra encomendada por Mutter, as Ringtone Variations, que, como o nome diz, utiliza o toque de telefones celulares. “Eu queria trabalhar com um material simples que fosse familiar para as pessoas”, explicou o compositor, brincando que essa é a única peça que, caso um telefone tocasse durante o concerto, ganharia uma variação.
CÉSAR GUERRA-PEIXE
Complete Solo Guitar Music
Flavio Nati – violão
Lançamento Brilliant Classics. Importado. R$ 198
César Guerra-Peixe (1914-93) foi um dos nomes centrais da música brasileira no século XX. Entre 1944 e 1948, teve aulas com Koellreutter e a fase inicial de suas composições foi marcada pelo dodecafonismo. No fim da década de 1940, no entanto, abandonou a técnica do mestre e se dedicou à pesquisa folclórica e à música do Nordeste, para onde se mudou. Visitou também o interior paulista, onde coletou jongos, sambas, cateretês, cururus, folias de reis, congadas e modas. Nessa segunda fase, entre os diferentes instrumentos para os quais escreveu, o violão merece lugar de destaque pela forma como propõe o casamento entre o folclore e as técnicas da música de concerto. Neste álbum, Flavio Nati registra toda a sua produção para o instrumento. Nati nasceu e se formou na Itália, na Academia de Santa Cecília, em Roma, e recebeu diferentes prêmios em sua trajetória, na qual o trabalho com integrais se destaca: seu disco anterior, por exemplo, foi dedicado à obra completa de Toru Takemitsu. Aqui ele toca composições como a Sonata, os Cinco prelúdios, as cinco séries de Peças fáceis e as Dez lúdicas. Um trabalho de fôlego e de excelência.
CD DIGITAL
JOÃO MARCONDES
Brazilian Suíte nº 5
Duo Música Viva São Paulo
Darrin C. Milling – baixo-trombone
Marialbi Trisolio – violoncelo
Lançamento Azul Music.
Disponível em streaming
Sete faces da música brasileira estão representadas neste novo álbum e criam, em conjunto, a Suíte brasileira nº 5, nova obra de João Marcondes: canção, choro, xote, marcha-rancho, coral, choroso e lamento. Cada momento, explica o compositor João Marcondes, “apresenta uma perspectiva diferente da brasilidade”. “O choro explora a mobilidade rítmica; o xote incorpora a pulsação nordestina; a marcha-rancho evoca uma das formas mais marcantes da música brasileira; enquanto canção, coral, choroso e lamento ampliam o percurso por diversas atmosferas melódicas e expressivas”, afirma. “Em uma formação pouco usual no repertório de câmara, os dois instrumentos estabelecem um diálogo entre densidade sonora, lirismo e ritmo. Marcondes parte de gêneros e formas profundamente ligados à tradição musical brasileira para construir uma obra autoral, em que referências populares encontram a linguagem da música de concerto”, afirma a apresentação do disco, que é interpretado por dois mestres de seus instrumentos: o trombonista-baixo Darrin C. Milling e a violoncelista Marialbi Trisolio, que formam o Duo Música Viva São Paulo.
CD DIGITAL
VENTOS NORDESTINOS
Quinteto Parambuco
Lançamento Edison Gramophone.
Disponível em streaming
O Quinteto Parambuco é composto por Mirna Hipólito (flauta), Junielson Nascimento (oboé), Eduardo Lima (clarinete), Isaac Soares (fagote) e Robson Gomes (trompa). O grupo nasceu há dez anos com o objetivo de pesquisar, desenvolver e divulgar a música de câmara brasileira, com forte ênfase na música erudita e popular do Nordeste – vocação que atinge resultado artístico marcante neste disco Ventos nordestinos. O repertório foi escolhido, explicam os músicos, “de modo a representar a diversidade de estilos musicais da região, incluindo clássicos para a formação, como Brincadeira a cinco e Cantiga sentimental, do paraibano José Siqueira, um dos mais importantes nomes da música de concerto do país, e a Suíte Opara, da baiana Ilza Nogueira, atual presidente da Academia Brasileira de Música”. Mas há também no álbum duas estreias mundiais de obras dedicadas ao conjunto. A primeira é Comadre Fulozinha, de Eli-Eri Moura; e a segunda, Suíte Parambuco, do jovem compositor paraibano Gilvandro Neto. É um dos discos à música brasileira mais interessantes dos últimos tempos dedicado – o que, em meio a tanta variedade
e riqueza, não é pouco.
CD DIGITAL
TWO HORIZONS
Obras de Pedro Eleftheriou
Emmanuele Baldini – violino
Mariana Virgilli – piano
Lançamento Azul Music.
Disponível em streaming
O compositor Pedro Eleftheriou desenvolveu o álbum Two Horizons sob o conceito estético de tangible feelings (sentimentos tangíveis). São onze movimentos que nascem de poesias do próprio compositor, reunidas no livro Dois horizontes. São trabalhos, ele explica, complementares e simbólicos de seu interesse multidisciplinar. A poesia, como ele diz, serve de gênese para cada peça: a escrita íntima privilegia os contrastes melódicos entre os instrumentos, que se revezam em vozes complementares. É o que ouvimos em obras como Time Will Not Wait for You (O tempo não vai esperar por você), A Faceless Destiny (Um destino sem face) e I Need You (Preciso de você), que, diz Eleftheriou, “traduzem em texturas sonoras líricas e delicadas as nuances emocionais que habitam o espaço entre dois seres, abordando temas como o amor maduro, o tempo e o mistério do destino”. Como intérpretes, dois grandes músicos em atividade hoje no Brasil. Spalla da Osesp e maestro, com uma paixão inconteste pela música brasileira, Emmanuele Baldini se une na gravação à pianista Mariana Virgilli, professora do prestigiado Conservatório Dramático e Musical de Tatuí.
CD DIGITAL
ZWISCHEN LIEBE UND LEBEN
Joyce Tripiciano – soprano
Leandro Roverso – piano
Lançamento Azul Music.
Disponível em streaming
Mestre pela Hochschule für Musik de Stuttgart, a soprano Joyce Tripiciano atuou em teatros como os de Darmstadt e Wuppertal antes de voltar ao Brasil, onde integra hoje o Coro Lírico do Theatro Municipal de São Paulo. Leandro Roverso aperfeiçoou-se na Academia Franz Liszt em Budapeste e hoje trabalha com o Coro Lírico e em produções de ópera em outros teatros, como o São Pedro de São Paulo. Os dois agora se unem em um disco que tem como ponto de partida o amor, abordado por compositores que fizeram do sentimento um tema frequente. No centro do álbum está o ciclo Frauenliebe und -leben, de Robert Schumann, em que Tripiciano percorre com sensibilidade as canções que falam de amor, mas também de perda e da muitas vezes implacável passagem do tempo. Já de Brahms são interpretadas as canções Liebestreu, Immer leiser wird mein Schlummer, Serenade, O wüsst ich doch den Weg zurück, Die Mainacht e Von ewiger Liebe. São pequenas joias nas quais Roverso revela um talento especial: fazer o piano respirar juntamente com a voz, permitindo que a delicada relação entre texto e música ganhe vida de maneira orgânica e rica.
O NARIZ
Novela de Nikolai Gógol e libreto de Dmitri Shostakovich para a ópera baseada no livro
Lançamento Editora Zain
Edição especial: box + livro brochura + encarte exclusivo. R$ 124,90
Edição brochura: novela e libreto. 128 páginas. R$ 79,90.
Desconto de 10% para assinantes
Certa manhã, Kovaliov desperta sem o nariz. Para sua surpresa, seu rosto é uma superfície perfeitamente lisa, como “uma panqueca recém-assada”. Assim começa O nariz, livro de Nikolai Gógol (1809-52), um dos mais importantes nomes da literatura russa. O livro acaba de sair pela coleção Libro&Libreto, da Zain, que reúne textos da literatura universal e os libretos neles inspirados. Traz o original de Gógol e a adaptação para libreto usada por Dmitri Shostakovich, ambos na tradução de Irineu Franco Perpetuo – na mesma coleção, já foram lançados Morte em Veneza, de Thomas Mann, e Manhã e noite, de Jon Fosse. Há duas edições disponíveis. Uma delas traz a novela e o libreto; a outra, limitada, é um box no qual, além das traduções, há um material especial sobre a obra: uma entrevista com Irina Shostakovich (viúva do compositor); uma entrevista sobre Nikolai Gógol com Kirill Serebrennikov (encenador e cineasta russo, ex-diretor artístico do Centro Gógol); um texto do encenador brasileiro Caetano Vilela sobre trabalhar Shostakovich; e ilustração exclusiva de Rico Lins.
