Por Renata de Andrade e Marcela Benvegnu*
A relação entre dança e saúde mental tem raízes profundas em tradições culturais, terapias corporais e vertentes da psicologia que reconhecem o corpo como campo fundamental da experiência humana. Embora a ciência moderna já tenha demonstrado que o movimento regula emoções, reduz sintomas depressivos e modula neurotransmissores como serotonina, dopamina e cortisol, existe na dança algo que extrapola a lógica biomédica. Trata-se de uma dimensão sensível, simbólica e visceral: uma linguagem anterior à palavra, onde o gesto se transforma em significado.
A psicologia ou a psicanálise, mesmo sustentada pela palavra, nunca negou que o inconsciente também se manifesta pelo corpo. Antes que o sujeito fale, ele move. É justamente nesse território híbrido, onde movimento e simbolização se encontram, que a dança pode operar como um dispositivo terapêutico potente, ainda que não seja, em si, uma terapia. E é nesse cruzamento, entre corpo e simbolização que a dança se torna não apenas arte, mas também território de elaboração psíquica.
Pesquisas e teorias psicanalíticas contemporâneas sustentam essa leitura. A psicanalista France Schott-Billmann é uma das vozes mais significativas nesse campo ao investigar como a dança e as tradições corporais coletivas atuam sobre estados emocionais, vínculos e experiências de cura. Para ela, o corpo que dança toca zonas pré-verbais da subjetividade, permitindo que afetos, traumas e tensões encontrem vias de expressão que antecedem e às vezes ultrapassam a fala. Essa perspectiva se aproxima do trabalho de Joan Chodorow, analista junguiana que explora a dança como forma de imaginação ativa: o movimento espontâneo é visto como gesto simbólico, capaz de traduzir conteúdos inconscientes em forma sensível e consciente.
A dança do inconsciente com France Schott Billmann
Na mesma direção, as pioneiras Mary Whitehouse e Janet Adler, criadoras do Movimento Autêntico – uma prática de terapia somática onde um “movedor” explora o movimento inconsciente com os olhos fechados, guiado por uma “testemunha” que apenas observa e oferece suporte – entendem que o corpo, quando observado sem julgamento, revela camadas emocionais profundas, oferecendo ao indivíduo um espaço seguro para transformar sensações e narrativas internas. Assim, o encontro entre dança e análise não consiste em misturar técnicas, mas em reconhecer que ambas iluminam diferentes faces da experiência humana.
“Há estudos ‘validados’, isto é, revisões sistemáticas, meta-análises, ensaios, que associam a prática de dança ou terapia do movimento a melhora nos sintomas depressivos. Também há evidência de que a dança altera alguns marcadores biológicos periféricos: serotonina parece aumentar e dopamina plasmática pode diminuir ou variar. Tem também o efeito antidepressivo da dança que é robusto e múltiplas análises e ensaios clínicos randomizados já nos mostram a redução de sintomas depressivos após intervenções com dança”, conta Karina Haddad, psicóloga, neuropsicóloga e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e TCC-Insônia. “Enquanto o corpo dança, a alma reaprende a respirar por dentro. Dançar é, no fundo, lembrar ao corpo que ele sabe voltar para casa: o lugar onde a alma sorri”, completa.
Segundo Elisa Padovan, psiquiatra e psicanalista, quando o sujeito perde a escuta do próprio corpo, os afetos tendem a aparecer como sintomas. “Tensão constante, cansaço, dores difusas, inquietação, vazio. O corpo fala quando o simbólico falha. Nesse sentido, a dança não é apenas performance: é via de acesso. Pode se tornar um modo de reinscrever o sujeito no próprio corpo quando este se torna estranho, silenciado ou excessivamente capturado pelo sintoma”, pontua. “Na ansiedade, por exemplo, o corpo acelera enquanto o pensamento se fixa em circuitos repetitivos de preocupação. Na depressão, o corpo pesa, inibe, paralisa, enquanto o pensamento fica lento ou imóvel. Colocar o corpo em movimento e introduzir ritmo permite que algo da desorganização patológica encontre contorno e que a presença ressurja.”
Do ponto de vista psicanalítico, a dança toca o campo do pré-verbal, do pulsional, do gozo ainda sem palavra. “Não substitui a fala, mas prepara o terreno para que ela possa advir. Talvez o futuro da saúde mental passe justamente por isso: escutar o corpo não apenas como sede de sintomas, mas como território vivo da experiência subjetiva”, aponta Elisa, que também faz aulas de dança. “A dança me ensinou a sustentar o esforço, a dor, o tempo do treino e o convívio em grupo”, completa.
Maria (nome fictício), 51, perdeu a mãe há 14 anos e, apesar do tempo transcorrido, o luto permanecia vivo. Ao iniciar o processo analítico ela relatou um sofrimento que não se expressava pela fala: uma tristeza constante e a sensação de estar desconectada de si. Foi nesse período que a dança de salão apareceu em sua vida. “Quando entrei na dança, vivia o luto da minha mãe e foi ali que a minha esperança voltou. A dança para mim vai muito além de passos, tem conexão, entrega, confiança. Quando danço, me sinto viva, feliz. Ela me ajuda a sair da depressão, do mau humor, da ansiedade. Dançar não é terapia, mas é terapêutico”, conta Maria. Seu caso não é isolado. A dança foi o seu campo da experiência e a terapia, o da simbolização. Em muitos processos analíticos, a dança atua como um gesto que antecipa a palavra.
O CORPO COMO INSTRUMENTO – Um estudo chamado “Dance Movement Therapy Improves Emotional Responses and Modulates Neurohormones in Adolescents with Mild Depression”, em tradução livre “Terapia por meio do movimento melhora as respostas emocionais e modula neuro-hormônios em adolescentes com depressão leve”, publicado na Revista Internacional de Neurociências, do departamento de educação física da Universidade Wonkwang, de Iksan, Coreia, e conduzido por Young-Ja Jeong, analisou os efeitos da dança tanto no bem-estar psicológico, quanto em alterações neuroquímicas.
O estudo acompanhou 40 adolescentes, com idade média de 16 anos. Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um participou de sessões de terapia do movimento durante 12 semanas, enquanto o outro funcionou como grupo de controle. Os resultados mostraram que os que participaram da terapia com dança apresentaram uma redução significativa nos níveis de sofrimento psicológico. Além disso, houve mudanças importantes nos neuro-hormônios analisados. A concentração plasmática de serotonina aumentou, enquanto os níveis de dopamina diminuíram no grupo que realizou a terapia de movimento.
Segundo Young-Ja Jeong, esses achados sugerem que a terapia pelo movimento pode contribuir para a estabilização do sistema nervoso simpático. Em conclusão, o estudo indica que a dança pode ser uma intervenção eficaz para melhorar o estado emocional de pessoas com depressão leve, ajudando a regular neurotransmissores como serotonina e dopamina e promovendo maior equilíbrio psicológico.
A dança e a saúde mental, TED Talk por Kevin Turner
DANÇA E TERAPIA – Em um artigo que versa sobre dança e saúde mental, é primordial ressaltar o trabalho criado pela coreógrafa e terapeuta da dança argentina Maria Fux (1922-2023), que em 1968, durante o Congresso Internacional de Musicoterapia realizado em Buenos Aires apresentou o trabalho intitulado “A dança como terapia”. Na ocasião, introduziu pela primeira vez a discussão sobre a relevância da dança como instrumento educativo e expressivo para pessoas surdas. Esse marco foi decisivo para a projeção de seu trabalho, tornando-a uma das principais referências na formação em dança-terapia. Sua abordagem, fundamentada no movimento criativo, é amplamente utilizada em contextos que envolvem diferentes tipos de deficiência, consolidando-se como uma prática inclusiva e transformadora. Seu método parte da ideia de que o corpo guarda memórias, afetos e experiências que nem sempre encontram representação verbal, mas que podem ser elaboradas por meio do gesto, do ritmo e da escuta sensível do movimento. Atualmente, o método é adotado por diversos profissionais da área da saúde, incluindo médicos e psicólogos, que atestam sua eficácia clínica.
A dança e a vida de Maria Fux
No Brasil, vale ressaltar a trajetória da brasileira Angel Vianna (1928-2024), que se dedicou por décadas ao campo da dança terapia e da educação somática, a partir de uma abordagem própria, conhecida como Método Angel Vianna de Conscientização do Movimento. A abordagem entende o corpo como um lugar de percepção, escuta e experiência, e não como um objeto a ser corrigido ou moldado. O trabalho se baseia em uma perspectiva humanista, que valoriza a singularidade do indivíduo, respeita seus limites e reconhece seu potencial criativo e expressivo. O movimento não é imposto, mas surge a partir da vivência corporal do próprio indivíduo.
Há também uma forte influência fenomenológica, pois o processo parte da experiência do corpo no aqui e agora, daquilo que é sentido e vivido no momento, sem interpretações prévias ou modelos externos. Corpo e subjetividade são compreendidas como inseparáveis, e o movimento consciente torna-se um meio de acesso ao autoconhecimento, à autonomia, ao bem-estar e a saúde mental. Seu legado – que hoje é continuado por muitos artistas – ampliou o campo da dança ao utilizá-la como ferramenta de cuidado, inclusão e reabilitação, reafirmando que todo corpo é capaz de sentir, criar e se expressar por meio do movimento. Como dizia Angel: “O que mais gosto é de gente e gente é como nuvem, sempre se transforma”.
Embora a ciência ainda demande mais estudos empíricos que comprovem, de forma sistemática, os efeitos diretos da dança articulada à saúde mental no tratamento de doenças e transtornos mentais, a experiência clínica e as reflexões teóricas apontam para um dado incontornável: o corpo não é apenas biológico, ele é também psíquico e atravessado pelo inconsciente. Na análise, o sujeito fala não apenas pela palavra, mas também por gestos, ritmos, silêncios e repetições e a dança, nesse sentido, pode ser compreendida como uma linguagem possível do inconsciente. Ao mobilizar afetos, memórias e sensações, a dança pode favorecer processos de elaboração subjetiva, funcionando como um espaço de escuta ampliada do sujeito, onde o inconsciente encontra modos singulares de se inscrever. Não se trata de substituir a clínica, tampouco de atribuir à dança um efeito terapêutico universal, mas de reconhecer sua potência como prática complementar no campo da saúde mental.
Assim, a interlocução entre dança e saúde mental abre um horizonte interdisciplinar de investigação. Ao considerar o corpo como território de inscrição do inconsciente, futuras pesquisas poderão contribuir para compreender de que maneira o movimento pode auxiliar processos de cuidado psíquico, respeitando os limites éticos, clínicos e científicos que esse campo exige.
Para conhecer mais sobre o tema
O corpo como um veículo de expressão na saúde mental (clique aqui para acessar)
Maria Fux – Dança terapia: espelho interior (clique aqui para acessar)
Angel Vianna – Figuras da dança, por Inês Bogéa (clique aqui para acessar)
TED: Como podemos dançar para melhorar a saúde mental, por Anna Duberg (clique aqui para acessar)
A diferença entre dança terapêutica e terapia pela dança/movimento, com Susan Imus (clique aqui para acessar)
TED: Psicologia e dança, com Peter Lovatt (clique aqui para acessar)
TED: Dança como terapia, com Natalia Duong (clique aqui para acessar)
TED: Dança, pensamento e hormônios, por Peter Lovatt (clique aqui para acessar)
* Renata de Andrade é psicanalista, especialista em psicanálise clínica, psicologia analítica e transpessoal, neurociência e constelação familiar. Marcela Benvegnu é jornalista, pesquisadora de dança e superintendente de desenvolvimento institucional da São Paulo Companhia de Dança e da São Paulo Escola de Dança. É pós-graduada em Terapia Cognitivo Comportamental e conclui sua formação em psicanálise clínica no primeiro semestre de 2026.
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