Uma mulher sem nome vaga por uma floresta densa, iluminada apenas pela luz da lua; busca seu amante, sabendo-se traída, e se depara com um corpo. É ele? Quem o matou? Uma outra mulher? Ela mesma?
É esse o ponto de partida da ópera Erwartung, de Schoenberg, que a série Terça Lírica do Memorial do Judiciário apresenta em Porto Alegre pela primeira vez, com a soprano Eiko Senda, o pianista Patrick Minuzzi e a direção cênica de Carlota Albuquerque. A curadoria da série é de Flávio Leite, presidente da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul.
Theodor Adorno chamou Erwartung, escrito em 1909 a partir do poema da médica vienense Marie Pappenheim, de "o retrato sismográfico de um choque traumático” – o que vemos no palco é a teia difusa de sensações e medos da personagem.
"Essa é uma das obras fundamentais do Expressionismo alemão e um dos grandes monólogos líricos da história da ópera. Em trinta minutos, o espectador adentra a psique humana em fluxos fragmentados e angustiantes de pensamentos, memórias e emoções diante de uma experiência traumática. Para esta apresentação, será utilizada uma versão para canto e piano realizada pelo próprio Schoenberg e gentilmente disponibilizada pelo Schoenberg Archive, de Viena, para a CORS”, diz Minuzzi.
“Em Erwartung, o piano assume um papel que vai muito além do simples acompanhamento da voz: ele traduz musicalmente as oscilações e nuances do monólogo, criando atmosferas, tensões e rupturas que acompanham o estado psicológico da personagem. É um universo sonoro íntimo, perturbador, através de uma sonoridade que não é a habitual, no qual a consciência humana é exposta em seu estado mais profundo", completa.
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