Programação idealizada pelo diretor musical Thierry Fischer está dividida em nove "festivais", que dialogam com passagens do livro Assim falou Zaratustra
Uma das obras seminais da história da filosofia, Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, será o eixo da temporada 2027 da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. A orquestra fará 102 apresentações de 47 programas ao longo do ano – 27 sinfônicos, 6 corais, 7 de câmara e 7 recitais – em uma agenda que foi dividida em nove festivais de três semanas cada. Entre os artistas convidados estão os pianistas Jan Lisiecki, Kirill Gerstein, Bertrand Chamayou e Nikolay Lugansky, os maestros Heinz Holliger, Alexander Liebreich, Pierre Bleuse, Vasily Petrenko e Oksana Lyniv, os violoncelistas Jean-Guihen Queyras e Alisa Weilerstein e o harpista Xavier de Maistre.
"A questão que atravessa esta temporada é simples: o que pode se transformar em nós quando realmente escutamos? Os nove festivais foram concebidos como diferentes portas de entrada para essa experiência, conectando obras, artistas e públicos ao longo de todo o ano", diz Thierry Fischer, diretor musical e regente titular da Osesp.
Assim falou Zaratustra acompanha a trajetória de Zaratustra, que, após dez anos de isolamento contemplativo em uma montanha, decide descer à humanidade para compartilhar a sabedoria que acumulou. Por meio de sermões, parábolas e encontros simbólicos, o livro desenvolve os conceitos fundamentais do pensamento de Nietzsche, como a declaração da “morte de Deus” e a crise dos valores morais tradicionais, a afirmação da vida através da “vontade de poder”, a ideia do Übermensch (o Super-homem) como o indivíduo capaz de superar a decadência niilista e criar seus próprios valores, e o mito do “eterno retorno”, que nos desafia a viver de modo a desejar que cada instante de nossa existência se repita infinitamente.
“Zaratustra está presente ao longo de toda a temporada, como uma voz recorrente e um ponto de referência. Retomamos suas questões em diferentes momentos, permitindo que a música em cada programa ilumine um aspecto diferente de sua jornada: descida e ascensão, solidão e encontro, ruptura e transformação, morte e renovação”, afirma Thierry Fischer.
“Ele se torna, assim, quase um companheiro do ouvinte. Em vez de explicar a música, Zaratustra nos oferece um conjunto de perguntas que nos aproximam dela. O que deixamos para trás? Em que nos transformamos? Podemos afirmar a vida mesmo quando ela contém sofrimento e perda? E o que significa encontrar a mesma coisa novamente, mas a partir de uma perspectiva transformada?”, prossegue o maestro.
Em bom português e se desculpando por eventuais erros – “infelizmente tenho pouco tempo para estudar mais o idioma” – Thierry Fischer apresentou a nova temporada à imprensa na segunda-feira, dia 26. “Gostei muito da ideia de dividir a temporada em 9 festivais, 9 períodos de 3 semanas. A partir daí eu escolhi os nove discursos de Zaratustra, que serviram de base para montarmos os programas”. Fischer destacou que, contrariamente ao que normalmente é feito, desta vez os repertórios foram pensados antes da escolha dos artistas – “e os artistas adoraram”.
O primeiro festival tem como tema Nascido do caos, e acontece em março. A abertura da temporada será com A criação, de Haydn, “uma célebre representação musical do caos antes do surgimento da luz”. No programa seguinte, a orquestra apresenta a Sinfonia nº 7 de Mahler e faz a estreia de Mithra, obra encomendada a Juliana Ripke. O terceiro programa terá Roberto Minczuk e Sonia Rubinsky interpretando o Concerto para piano nº 3 de Villa-Lobos, celebrando os 140 anos do compositor, além de Brasília: Sinfonia da alvorada, de Tom Jobim.
Em abril, o tema é Ressurreições, “não no sentido religioso, mas da capacidade humana de se reerguer depois de perdas, traumas e certezas que se desfazem”. Heinz Holliger comanda a Osesp em programa dedicado a obras suas, a Haydn e ao Concerto para violino de Schumann, com solos de Ilya Gringolts – o maestro e oboísta também faz recital de câmara com músicos da orquestra.
Na semana seguinte, Kirill Gerstein atua como regente e solista na integral dos concertos para piano e orquestra de Beethoven, além de fazer a estreia de Alma, de Michelle Agnes. O maestro Christoph Koncz e o pianista Cristian Budu são as atrações seguintes, com obras de Neuwirth, Strauss, Liszt e Mahler.
Em maio, é a vez do festival Dançar com o mundo. “Contraponto mais leve da Temporada, o festival trata a dança como celebração, mas também como uma forma de se mover, com consciência, em um mundo cheio de dificuldade”, diz a apresentação da programação. No primeiro programa, Fischer rege o Maracatu de Chico Rei, de Mignone e Veronika Eberle é a solista no Concerto para violino de Brahms; no segundo, a Osesp se une à companhia Cisne Negro para Jeux, de Debussy, e Bolero, de Ravel – o programa tem ainda o Concerto nº 9 de Mozart, com o pianista Jan Lisiecki, artista em residência da temporada. Lisiecki está também no terceiro programa do mês, quando toca o Concerto nº 22 de Mozart, agora sob regência de Olha Dondyk.
Triunfo é o tema do festival de junho. Oksana Lyniv e Pacho Flores interpretam um programa com obras de Eduardo Resatsch, Paquito D’Rivera, Richard Strauss e Franz Liszt; Stanislav Kochanovsky e Nikolai Lugansky fazem programa russo, com a Rapsódia sobre um tema de Paganini, de Rachmaninov, e a Sinfonia nº 7 – Leningrado, de Shostakovich (o pianista também faz recital solo); e, por fim, Emilia Hoving comanda a Osesp em concertos que têm como destaque os Pinheiros de Roma, de Respighi, e a Ode triunfal, de Augusta Holmès.
Em julho, se dá o que Fischer considera “o coração conceitual” da temporada – Torna-te quem és “parte da ideia de que a vida é um caminho de volta ao que somos em essência, apesar de tudo o que se acumula pelo caminho”.
Vasily Petrenko comanda a Osesp em Laroyê, obra de Marcos Balter encomendada pelo grupo, e em Uma vida de herói, de Strauss. Na semana seguinte, Aziz Shokhakimov rege a Sinfonia de Missy Mazzoli e Carmina burana, de Carl Orff. Na sequência, Xavier de Maistre sola no Concerto para harpa de Peter Eötvös, em programa que tem ainda a Sinfonia nº 3 de Beethoven, com regência de Marta Gardolinska.
O festival seguinte, em agosto, é Paz, “pensado como um oásis” e propondo uma “pausa para contemplação”. Alexander Liebreich volta a São Paulo para um programa com In Terra pax, de Frank Martin, e Noite transfigurada, de Schoenberg. Outro velho conhecido do grupo, Stéphane Denève se junta à violoncelista Alisa Weilerstein para a estreia de Dzono, de Gabriela Ortiz, coencomenda da Osesp com a Filarmônica de Los Angeles, a Philharmonia Orchestra e a Orquesta Sinfónica de Castilla y León. E, na semana seguinte, Marie Jacquot faz sua estreia com a Osesp regendo o Concerto para piano nº 21 de Mozart, com Markus Schirmer, e a Sinfonia nº 3 de Brahms.
O festival de setembro, Sim à vida, fala da importância de “afirmar a vida, inclusive diante dos pequenos e grandes conflitos de todos os dias”. O balé completo Daphnis et Chloé, de Ravel, será regido por Fischer em programa que tem ainda o Concerto para violino de Beethoven, com James Ehnes. Outro importante solista se apresenta em seguida, o violoncelista Jean-Guihen Queyras, que toca o Concerto para violoncelo de Elgar, em programa que se completa com a Sinfonia nº 2 de Guarnieri. E Leonardo García-Alarcón comanda a interpretação da Paixão segundo São Mateus, de Bach.
Em outubro, o tema do festival é Memória, “sobre a relação entre lembrança e identidade, e a ideia de que nunca nos desligamos totalmente de nossa origem”. O maestro Kevin John Edusei rege a Trenodia para as vítimas de Hiroshima, de Penderecki, e A sereia, poema sinfônico de Zemlinsky, e a pianista romena Alexandra Dariescu é a solista da Fantaisie variée, de Nadia Boulanger. Pierre Bleuse retorna a São Paulo para reger a Sinfonia alpina, de Strauss, e o Concerto para piano nº 3 de Bartók, com solo do pianista francês Betrand Chamayou, que também faz recital solo. Tianyi Lu comanda a Osesp em programa com obras de Cassandra Miller, Elgar e Villa-Lobos – a Fantasia para saxofone e orquestra, com o saxofonista Steven Banks.
O encerramento do ano, em dezembro, se dá com o festival O eterno retorno, partindo da ideia de que “a humanidade volta sempre às mesmas perguntas essenciais, e de que todo fim contém um novo começo”. Fischer vai reger Assim falou Zaratustra, de Richard Strauss, e a Sinfonia nº 47, de Haydn. E, em seguida, duas obras corais-sinfônicas essenciais do repertório: O festival inclui ainda a Sinfonia nº 8, de Mahler, e o Messias, de Händel.
Coro da Osesp
A temporada do Coro da Osesp começa em março, com o Réquiem de Duruflé regido por Thomas Blunt. Em abril, Kaique Stumpf rege Bruckner, Widmer, Holst, Lili Boulanger e Veljo Tormis. Thomas Blunt retorna em maio, com obras de Errollyn Wallen, Aylton Escobar, e a Missa em sol maior de Poulenc; e, em setembro, rege obras de Ko Matsushita, Jekabs Jancevskis, Alberto Grau e Soumik Datta. Em outubro, o regente será Stephen Layton, com obras de Thomas Tallis como eixo do programa. E Blunt fecha a série em novembro, com o Concerto para coro de Schnittke.
Confira aqui a programação completa da Temporada 2027 da Osesp, programa a programa.
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