Acordo entre governo brasileiro e Ópera Latinoamérica prevê colaboração entre teatros do continente

por Luciana Medeiros 28/05/2019

O secretário especial de Cultura do Ministério da Cidadania Henrique Pires e a diretora administrativa da Ópera Latinoamérica Paulina Ricciardi assinaram em Manaus, no último domingo, um acordo de colaboração que reconhece a ópera como segmento relevante para a cultura brasileira e prevê a “convergência de esforços para o fomento e intercâmbio de montagens de ópera na América Latina".

A assinatura foi feita pouco antes da estreia da ópera Alma, no Teatro Amazonas, dentro da programação do Festival Amazonas de Ópera. O evento termina no próximo dia 30 contabilizando, só nesse ano, a montagem de cinco títulos, além de programação infantil e recitais dentro e fora do Teatro Amazonas – e de Manaus.

Marcos Apolo Muniz, Henrique Pires e Paulina Ricciardi durante assinatura de termo de colaboração em Manaus [Divulgação/Michael Dantas]
Marcos Apolo Muniz, Henrique Pires e Paulina Ricciardi durante assinatura de termo de colaboração em Manaus [Divulgação/Michael Dantas]

O programa do festival também incluiu um encontro na manhã do domingo, dia 26, que partiu da apresentação do impacto dessas duas décadas de festival na economia da cidade e do Estado para estimular o debate sobre a ópera como motor da economia criativa na atualidade, em especial no Brasil. 

Além de Flávia Furtado, diretora executiva do Festival, do diretor artístico Luiz Fernando Malheiro e do Secretário de Cultura do Estado, Marcos Apolo Muniz de Araújo, compunham o painel de discussão o secretário Henrique Pires; integrantes da OLA – Ópera Latinoamerica; o presidente da Academia Brasileira de Música, o compositor João Guilherme Ripper; e a chefe do Departamento de Economia Criativa do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, Trinidad Zaldivar.

Ao longo de toda a manhã, as apresentações e os debates giraram em torno de gastos, investimentos, retorno, estrutura, possíveis estratégias de fomento e pertinência da ópera no seu potencial tanto criativo quanto econômico, respaldados por gráficos, vídeos e números. Uma das estatísticas mais impactantes dentre as apresentadas é a do número de teatros brasileiros com fosso, ou seja, com possibilidade de montar óperas: são 91, mas apenas seis deles produzem espetáculos, o que sugere uma possibilidade enorme de crescimento para o gênero.

Já na abertura, Malheiro apontou que a ópera sempre foi presente e ativa no Brasil. Apesar disso, ressaltou que da estimativa dos 140 títulos de óperas brasileiras compostas desde 1860 ao menos cem permanecem inéditas. O Secretário Marcos Apolo, por sua vez, fez um retrospecto do crescimento do festival desde sua primeira edição – com abordagem por vezes intensamente pessoal, já que foi técnico e diretor de palco no Teatro Amazonas desde o início do evento. O projeto de autonomia da central técnica e do desenvolvimento de mão de obra local especializada pavimentaram, segundo Apolo, a criação de um mercado estável, apesar da sazonalidade do festival. 

“Desenvolvemos nossa capacidade de produção, a principio com intercâmbios de profissionais de outros estados, buscando soluções para as peculiaridades locais, e criamos postos de trabalho e capacitação permanente. Podemos hoje falar de um parque industrial da cultura, com atividades que geram por sua vez demanda artística local, num círculo virtuoso”, detalhou o secretário. As informações seriam corroboradas por Flávia Furtado, que apresentou números comparativos da produção cultural da ópera com os de outras indústrias da Zona Franca, além de mostrar que, só nos EUA e Canadá, o gênero movimenta US$ 1,9 bilhão por ano. 

“Vemos um renascimento global da ópera, exemplificado pelo investimento robusto da China no gênero”, relatou Furtado. “A ópera funciona como motor de uma cadeia de produção diversificadíssima, de músicos, técnicos, artesãos, impulsionando todo o mercado conjugado de turismo, do comércio e de outras formas artísticas. Na criação de postos de trabalho, o Festival ficou à frente de oito setores industriais da Zona Franca, em números de 2018 oficialmente divulgados pela Suframa.”

Henrique Pires fez uma apresentação curta, enfatizando que, nas novas diretrizes da Lei de Incentivo Cultural a ópera está listada como exceção ao teto de captação de R$ 1 milhão. A diretora administrativa da OLA, Paulina Riccardi, apresentou os novos projetos da instituição nas áreas de formação e circulação, incluindo o site Escena Digital, plataforma de informações sobre teatros e produções operísticas disponíveis para intercâmbio e aluguel. Já a chefe do departamento de Economia Criativa do BID, Trinidad Zaldivar, detalhou a “economia laranja”, termo adotado pelo Banco, usando a metáfora de um ecossistema cultural, cujos benefícios são também econômicos e sociais. “A ópera é um campo enorme para a inovação.”

Finalmente, João Guilherme Ripper apresentou um quadro administrativo preciso, com projeção de gastos em produções e a possibilidade concreta de amortização das despesas pela reedição e troca de títulos entre teatros. “Uma produção operística não dá lucro de bilheteria, nunca, mas o ativo artístico e financeiro reverte, sim, em lucro. Ópera é cara quando é mal administrada”, diz. O presidente da ABM concluiu repisando a necessidade de formulação de políticas públicas para o setor na Secretaria Especial de Cultura, inclusive em nome da democratização do acesso: “Precisamos de editais e verbas. E as trocas de produções deveriam ser subvencionadas.”

[A jornalista Luciana Medeiros viajou a Manaus a convite do Festival Amazonas de Ópera]