Debate no MicBR apontou oportunidades e desafios para a ópera

por João Luiz Sampaio 13/11/2018

A ópera foi tema de um debate dentro da programação da MicBR – Mercado das Indústrias Criativas do Brasil, que movimentou o setor cultural ao longo da última semana. Na manhã de sexta-feira, dia 9/11, participaram do encontro a diretora-executiva do Festival Amazonas de Ópera, Flavia Furtado, o compositor, gestor e presidente da Academia Brasileira de Música João Guilherme Ripper, a diretora-executiva do Theatro Municipal de São Paulo, Tatyana Rubim, e Paulina Ricciardi, coordenadora de administração do Ópera Latinoamérica. O tema do debate, que teve mediação do diretor e editor da Revista CONCERTO Nelson Rubens Kunze, foi “O mercado da ópera no Brasil e as conexões com a América Latina: oportunidades e desafios”.

Nelson Kunze abriu o debate chamando atenção para alguns números que atestam como a ópera é um investimento capaz de gerar riqueza. Usando relatório divulgado pelo Festival de Salzburg, na Áustria, ele ressaltou o fato de que o evento, que tem orçamento de 59,6 milhões de euros, injeta na economia da região 215 milhões de euros, ou seja, para cada euro investido, há um retorno de 3,6 euros. Além disso, gera 3.400 empregos, além de contratar 3.500 artistas. Outro exemplo dado por Kunze foi o da Festa Literária Internacional de Paraty: o evento tem orçamento de R$ 3,5 milhões e despeja na economia local R$ 47 milhões.

Em seguida, e na mesma linha, Flavia Furtado apresentou alguns números relacionados ao Festival Amazonas de Ópera. Ela mostrou como a ópera gera mais empregos que outros setores da Zona Franca, que recebem investimentos ainda maiores: com R$ 5 milhões de orçamento, o Festival Amazonas emprega 578 pessoas; já a indústria de brinquedos, com incentivo de R$ 35 milhões, gera cerca de 300 empregos.

A ideia é exemplificar como a ópera tem um enorme potencial de geração de riqueza – e que isso só vai se amplificar se o país acordar para esse mercado. Segundo ela, há 26 teatros com fosso no Brasil, dos quais apenas seis produzem ópera com regularidade, ou seja, há um potencial de crescimento enorme, que pode também abrir espaço para gerações de artistas talentosos que têm se formado nos últimos anos, no âmbito de grandes projetos de educação musical criados no país.

Tatyana Rubim falou em seguida. Diretora-executiva do Municipal de São Paulo e do Instituto Odeon, organização social responsável pela gestão do equipamento, ela mostrou números de engajamento das plateias para afirmar que o interesse pelo gênero existe e que, da parte dos gestores, deve haver uma tentativa de otimização de recursos para que se possa apresentar mais títulos por temporada. Nesse sentido, são estratégias o reaproveitamento do acervo e as parcerias com outros teatros. Segundo Tatyana, no entanto, há desafios jurídicos, em especial no que diz respeito às coproduções, que têm a ver, por exemplo, com o destino e a posse de uma produção realizada em conjunto. Ela acredita que o Ministério da Cultura poderia agir no sentido de ajudar na desburocratizacão. “Não se trata de dar dinheiro, mas de chancelar algumas iniciativas e de facilitar, por exemplo, a importação de cenários e figurinos, com menos impostos e assim por diante”, disse.

Debatedores no encontro da MicBR [Divulgação / fonte Ópera Latinoamérica - http://www.operala.org/]
Debatedores no encontro da MicBR [Divulgação / fonte Ópera Latinoamérica - www.operala.org]

João Guilherme Ripper perguntou-se, de início, “quanto vale o repertório?”. Ele salientou a falta de pesquisas que “realmente mensurem o universo da ópera”. “Quanto de público ela tem? Qual o investimento total? Quanto foi captado?”. Distinguiu o custo fixo (equipamento, corpos estáveis, pessoal) dos custos variáveis (produção e espetáculos). Para ele, o cenário ideal é aquele em que receitas próprias, como bilheteria, paguem pelos custos variáveis. Isso, no entanto, exige planejamento de longo prazo e continuidade de gestão, para que uma mesma produção possa, ao longo dos anos, pagar seu custo e gerar lucro. Em outras palavras, diz Ripper, uma produção de ópera pode ser vista como um ativo financeiro, sendo os custos de determinada montagem amortizados durante sua vida útil no repertório. E essa dinâmica pode se tornar realidade se houver maior reposição e circulação de produções, uma maior regularidade de programação e ações de formação de plateia e políticas públicas de apoio à melhoria das condições de armazenamento, cadastramento e circulação de produções.

Paulina Ricciardi, da OLA, explicou como funciona a entidade. Seu objetivo é pensar a ópera no continente de maneira macro, ou seja, sem interferir diretamente em teatros, mas estabelecendo e facilitando parcerias com outras instituições artísticas mundo afora e também com instituições financeiras, representando o interesse dos teatros junto a governos locais e seus ministérios da cultura. Outro projeto de que Paulina citou foi o site escena.digital, uma espécie de banco de dados de produções de óperas que pode ser acessado livremente por qualquer teatro que queira contratar uma produção – o projeto recebeu verbas do governo do Chile dedicadas a startups.

Terminadas as apresentações, alguns comentários ainda foram colocados após Nelson Kunze pedir dos participantes sugestões práticas para o crescimento do mercado da ópera no Brasil. Flavia Furtado afirmou que os teatros precisam se conhecer: segundo ela, nenhum diretor de teatro brasileiro atualmente já foi a Manaus. Ela também sugeriu a criação de editais específicos para que os 20 teatros com fosso hoje fechados possam ser reabertos para a ópera. E voltou, assim como Tatyana Rubim, a tratar das dificuldades jurídicas que precisam ser contornadas.

Ripper reforçou a importância de projetos plurianuais, com previsão de captação e orçamento: Clodoaldo Medina, ex-diretor do Theatro São Pedro, na plateia, deu como exemplo uma produção de Yerma, de Villa-Lobos, que seria feita em parceria com diversos teatros no Brasil e no mundo, mas que precisou ser cancelada por não se saber o orçamento disponível para o ano seguinte. O maestro Abel Rocha, assistindo ao debate, também tocou nesse tema, ao falar que, mesmo no modelo de OSs, ainda é possível ao poder estatal reduzir repasses, deixando as instituições reféns. Rocha, que foi diretor do Theatro Municipal de São Paulo em 2011, também ressaltou o fato de que cargos artísticos ainda são vistos no Brasil como cargos políticos – o que torna quase impossível o desenvolvimento de projetos de médio e longo prazo.