Orquestra de Mulheres do Rio de Janeiro faz sua estreia

por Luciana Medeiros 25/03/2019

Em 2017, uma pesquisa realizada pela Sinfônica de Baltimore com 85 orquestras norte-americanas – levantando dados de 3 mil concertos – dava conta de que apenas 1,3% dos programas traziam obras compostas por mulheres. Mais: somente 8,8% dos regentes eram mulheres (e nas chamadas majors, as grandonas, apenas 5,5%). A proporção bate com a de CEOs mulheres na lista da Forbes de 2018: são menos de 5% dentre os 500 mais poderosos. A questão parece ser mesmo a do lugar de poder. Na tal pesquisa feita em Baltimore, as instrumentistas ocupam quase metade dos grupos sinfônicos: 47%.

Nesta última semana de março, dois eventos sinfônicos colocam em discussão a presença feminina no pódio e na composição de música de concerto. Em ambos, o comando é da jovem maestrina e pianista Priscila Bomfim. Nesta terça, dia 26, ela rege a Orquestra Sinfônica Brasileira no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em um programa de peças de compositoras dos séculos XVIII e XIX. E, na quinta, dia 28, comanda a estreia da Orquestra de Mulheres do Rio de Janeiro, projeto da trompetista Luciene Portella, em concerto no Centro Cultural da Justiça Federal.

Priscila Bomfim [Divulgação]
Priscila Bomfim [Divulgação]

Priscila é, ao lado da veterana Ligia Amadio – que já promoveu importantes encontros internacionais de mulheres regentes –, o nome feminino de destaque na regência do Rio de Janeiro. Foi, em 2017, a primeira mulher – e ainda a única – a reger uma ópera em 108 anos do Theatro Municipal da cidade, onde ocupa o lugar de assistente do diretor musical Luiz Fernando Malheiro. Ela assinala esses três últimos anos como o período do salto definitivo na carreira.

“Foram anos em que tive a oportunidade de estudar com grandes maestros dentro e fora do país”, afirma Bomfim. “Regi concertos com orquestras estrangeiras e pude vivenciar o modo de pensar a música em diferentes culturas. Cada master class com grandes maestros, como Neeme e Paavo Järvi, Leonid Grin e, no Brasil, Isaac Karabtchevsky, Abel Rocha, Tobias Volkmann e Fabio Mechetti foram essenciais para ir construindo a minha própria maneira de ser e pensar.” 

Em novembro passado, Priscila foi uma das seis participantes do encontro The Linda and Mitch Hart Institute for Women Conductors, em Dallas, “experiência pela qual toda a regente mulher deveria passar”, afirma. O programa que rege à frente da OSB, escolhido pela direção artística da orquestra, tem obras nunca tocadas no Brasil, como a Sinfonia nº 3, de Louise Farrenc; a abertura da ópera The Boatswain’s mate, de Ethel Smyth; e a Sinfonia em dó maior, de Marianna Martines.

“A obra que vamos tocar de Ethel Smyth, por exemplo, apesar de ser a abertura de uma das suas óperas, traz o tema do Hino das Mulheres, ou Marcha das Mulheres, composta por ela em 1910, com letra de Cicely Hamilton. Tornou-se o hino oficial da União Social e Política da Mulher e do movimento sufragista feminino no Reino Unido e em outros países. As ativistas a cantaram não apenas em comícios, mas também na prisão, quando faziam greve de fome. A própria compositora esteve presa por três meses por causa do movimento. Enfim, são muitas histórias envolvidas neste concerto”.

Dois dias depois, Priscila rege a Orquestra de Mulheres do Rio de Janeiro em sua estreia, dentro do II Seminário Mulher, Poder e Democracia, promovido pelo Centro Cultural Justiça Federal, no centro da capital fluminense. O programa tem árias de ópera de forte apelo feminino, além de peças de Chiquinha Gonzaga e Villa-Lobos, e uma homenagem a Bibi Ferreira. Com participação de três cantoras – Ludmilla Bauerfeldt (soprano), Carla Rizzi e Júlia Anjos (mezzo-sopranos) – o grupo sinfônico, de 42 integrantes, representa uma aposta na esperança: apesar de se propor a manter uma continuidade de programação, o grupo ainda não tem suporte financeiro nem local de ensaios.

“A Orquestra Sinfônica de Mulheres espera despertar o interesse de patrocinadores”, diz Luciene Portella. “Por enquanto é uma ação voluntária de todas, não remunerada, mas o projeto tem sido bem recebido e estamos negociando um espaço de ensaios já em vista”.

Todas as instrumentistas são atuantes em outras orquestras profissionais do Rio. “Nós abraçamos esta causa para marcar e valorizar a presença feminina no meio musical, artístico e nos demais setores da sociedade”, encerra Priscila. 

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Orquestra de Mulheres do Rio de Janeiro [Divulgação / Daniele Bendinger]
Orquestra de Mulheres do Rio de Janeiro [Divulgação / Daniele Bendinger]

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