Com “O holandês errante”, Wagner estreia no Palácio das Artes

por Nelson Rubens Kunze 29/10/2018

O holandês voador é considerada a primeira grande obra-prima do compositor alemão Richard Wagner (1813-1883). Ela também é a primeira ópera de Wagner apresentada na história do Palácio das Artes, de Belo Horizonte. A produção tem direção musical e regência do maestro Silvio Viegas, que é o titular da Orquestra Sinfônica do Minas Gerais, e direção cênica do argentino Pablo Maritano (o mesmo que recentemente fez O cavaleiro da rosa, no Theatro Municipal de São Paulo). Fui a Belo Horizonte e assisti à quarta récita, no dia 26 de outubro.

O holandês voador foi estreado em Dresden, em 1843, e já prenuncia a escrita revolucionária que o compositor desenvolveria com seu drama musical ininterrupto. O título, contudo, ainda guarda vínculos com a tradição lírica do passado na divisão da narrativa musical em árias, duetos e coros. O holandês voador conta a história do navegador que, por uma blasfêmia, é condenado a vagar perdido pelos mares. A cada 7 anos ele aporta em terra firma, mas só será absolvido de sua maldição se encontrar a mulher que lhe for fiel para sempre. A ópera também é conhecida como O navio fantasma ou como O holandês errante, como aqui em Belo Horizonte. Em alemão, língua original na qual Wagner concebeu o libretto, “fliegen” é voar e “fliegender” é voador. Não há na palavra a acepção de errante, ainda que o “navio fantasma” do holandês seja mesmo um voador “errante”.

Ópera O Holandes Errante [Divulgação / Paulo Lacerda]
Cena a ópera O holandês errante, produção do Palácio das Artes [Divulgação / Paulo Lacerda]

Original e bem pensada, ainda que simples, a encenação mineira faz uso intenso e muito apropriado de recursos de iluminação (Marina Arthuzzi, Rodrigo Marçal e Jesús Lataliza). A cenografia é de Renato Theobaldo e os figurinos de Sayonara Lopes. No geral, Pablo Maritano foi feliz na utilização da ampla boca de cena do Palácio das Artes, como no segundo ato, quando as fiandeiras na casa de Daland estão trabalhando em mesas dispostas transversalmente ao longo do grande palco. A movimentação cênica, correta, funcionou bem. No sacrifício final, Maritano optou por Senta se autodegolando e, em seguida, subindo aos céus unida em espírito ao holandês voador.

O maestro Silvio Viegas soube imprimir boa dinâmica à narrativa musical, obtendo um resultado satisfatório da orquestra. Senti um pouco de instabilidade no Coral Lírico de Minas Gerais, especialmente em sua importante cena no ato 3 (preparação do coro é de Lara Tanaka). 

O elenco contou com o barítono argentino Hernan Iturralde como o holandês, que, em boa interpretação, exibiu uma bonita voz (e a melhor dicção do alemão). Senta foi feita pela soprano Tati Helene, com voz clara e sonora, especialmente na região dos agudos. O destaque vocal da noite foi o baixo Sávio Sperandio, que fez Daland. Além de cenicamente à vontade, como também seus colegas, Sperandio tem uma voz potente em todo o registro, o que faz diferença nesta ópera e no grande espaço do Palácio das Artes. Completaram o time de solistas a mezzo soprano Denise de Freitas (Mary), o tenor Paulo Mandarino (Eric) e o tenor Gustavo Eda (timoneiro).

Em meio à grave crise que assola o país e o estado de Minas Gerais, é auspicioso ver o Palácio das Artes cumprindo sua agenda e encenando duas óperas por temporada. E, embora não tenha alcançado o mesmo nível da Traviata de Verdi encenada no primeiro semestre, foi bom o resultado geral deste primeiro Wagner encenado no tradicional palco da capital mineira.
 

Veja abaixo outras fotos de O holandês errante, produção do Palácio das Artes de Belo Horizonte.

Ópera O Holandes Errante [Divulgação / Paulo Lacerda]
Cena do primeiro ato da ópera O holandes errante [Divulgação / Paulo Lacerda]

 

Ópera O Holandes Errante [Divulgação / Paulo Lacerda]
Cena do segundo ato da ópera O holandes errante [Divulgação / Paulo Lacerda]

 

Ópera O Holandes Errante [Divulgação / Paulo Lacerda]
Ópera O Holandes Errante [Divulgação / Paulo Lacerda]