Sob regência de Priscila Bomfim e com a participação do pianista Hercules Gomes, orquestra e coros apresentaram um bom concerto
Neste último fim de semana, de sexta a domingo, o Theatro Municipal de São Paulo abriu a temporada de concertos sinfônicos com o programa “Floresta brasileira”. Com a Sinfônica Municipal, o Coro Lírico e o Coral Paulistano, sob a batuta da maestra adjunta Priscila Bomfim, o repertório abarcou obras de Cibelle Donza (1985), do alagoano Hekel Tavares (1896-1969), do paulista Francisco Mignone (1897-1986) e do carioca Heitor Villa-Lobos (1887-1959).
Assisti ao concerto no sábado dia 24. Logo de sua entrada no palco, a maestra Priscila Bomfim pegou o microfone e fez uma breve, simpática e muito bem-vinda introdução ao programa, contado dos autores e de suas obras.
A compositora Cibellle Donza é natural do Pará e possui mestrado em regência orquestral pelo Ithaca College, em Nova Iorque (EUA). É uma das idealizadoras e regente da Orquestra Filarmônica MultiArte da Amazônia, formada apenas por mulheres, e do projeto Mulheres na Música de Concerto, que em 2024 promoveu, em Belém do Pará, o Concurso Nacional Ligia Amadio para Mulheres Solistas.
Conforme o programa, sua obra Da terra se ancora simbolicamente em sua terra natal, a Amazônia, “não como paisagem exótica, mas como matriz estética, rítmica e espiritual”. A peça está baseada sobre um canto indígena em língua tupi, a partir de um poema da poeta Márcia Kambela, natural de Omágua/Kambeba do povo Tikuna.
Da terra se inicia com efeitos percussivos que evocam a floresta, a partir dos quais se desenvolve uma música de caráter neorromântico e tonal, marcada pela sucessão de inventivos episódios sinfônicos. Mais adiante, o público é incentivado a participar, batendo os pés no chão e estabelecendo o pulso para a entrada do canto coral em tupi. Com os cantores distribuídos em grupos na plateia e nos balcões e o público participando com as batidas, o teatro em comunhão se preencheu de uma atmosfera quase ritualística. A obra tem personalidade e se encerra em fortíssimo com um tutti orquestral de grande intensidade. [Clique aqui para ouvir a obra em gravação de 2024 da Orquestra Filarmônica do Amazonas sob regência da própria autora.]
Seguiu-se o Concerto para piano nº 2, Em formas brasileiras, de Hekel Tavares, com a participação do pianista Hercules Gomes. Escrita em 1938, a obra é vazada no romantismo do século XIX com referências rítmicas e melódicas associadas à música brasileira do início do século XX. E aqui, destacou-se a maestria e extraordinária musicalidade de Hercules Gomes, sem dúvida o grande intérprete da música brasileira para piano de nosso tempo. Apesar da interpretação conduzida pela maestra Priscila Bomfim no geral bastante fluente, senti falta, em algumas passagens, de uma maior sensibilidade e integração da orquestra com o solista. Ovacionado pelo público ao final da apresentação, Hercules convidou a maestra para tocarem juntos, a quatro mãos, um arranjo de Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Como se não bastasse, mais um bis de Hercules, desta vez solo com uma peça de sua autoria, Platônica, que deu provas da veia musical do artista. [Clique aqui para ouvir a gravação ao vivo de Platônica realizada na Sala São Paulo em 2021.]
A segunda metade do concerto ficou reservada a dois dos maiores documentos da música brasileira coral-sinfônica da primeira metade do século XX: o Maracatu do Chico Rei, de Mignone, e os Choros nº 10, Rasga o coração, de Villa-Lobos.
A obra de Mignone, composta em 1933 e uma das mais características de sua criativa e colorida escrita musical, ganhou uma interpretação orgânica e equilibrada, com bonitos solos na orquestra.
Mas o ápice do concerto foi o impactante Choros 10 de Villa-Lobos. Escrito em 1926 para grande orquestra e coro misto, Villa se usa da canção Rasga o coração, de Anacleto de Medeiros, com letra de Catulo da Paixão Cearense, para criar uma peça de uma autenticidade artística que apenas os autores mais geniais alcançam. É incrível o artesanato composicional do mestre que, com densa escrita orquestral, logra criar uma obra de caráter expansivo e de força polirrítmica descomunal. E foi muito bom, mais uma vez, o desempenho da orquestra e dos coros, dirigidos com a atenção e o devido vigor pela maestra Priscila Bomfim.
Mais do que “floresta”, e concerto foi uma verdadeira festa brasileira, com teatro cheio, alto astral e, no palco, um verdadeiro engajamento em fazer boa música. Priscila Bomfim, Hercules Gomes, orquestra e coros, despretensiosamente, mas com alta competência, ofereceram uma bela abertura da temporada.
[Na semana que vem, dias 30 e 31 de janeiro, a Orquestra Sinfônica Municipal volta a se apresentar, desta vez sob regência do titular Roberto Minczuk. Clique aqui para mais informações sobre o Roteiro Musical.]
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