“Lo Schiavo” chega à Itália pelas mãos de John Neschling

130 anos depois de ser criada, a ópera de Carlos Gomes mais enaltecida pelos especialistas finalmente vai estrear na Itália. Lo Schiavo terá nove récitas no Teatro Lirico di Cagliari, na Sardenha, entre sexta-feira, dia 22, e dia 3 de março – e deve ainda ser gravada pelo selo italiano Dynamic.

Como se sabe, o campineiro Carlos Gomes (1836-1896) desenvolveu sua exitosa carreira operística sobretudo em solo italiano. Suas óperas foram majoritariamente escritas no idioma de Dante e estrearam e foram encenadas nos principais teatros da Península Itálica.

Com temática abolicionista (na qual o escravo do título, contudo, em vez de negro, é um índio), Lo Schiavo também é cantada em italiano. Na época, aventaram-se estreias em Bolonha, Nápoles e no Scala, de Milão; no fim, a ópera acabou tendo sua primeira audição mundial no Rio de Janeiro, em 27 de setembro de 1889 – para nunca chegar a solo italiano. Marcus Góes, em Carlos Gomes – A força indômita, conta que o regente e compositor siciliano Gino Marinuzzi (1882-1945) tentou levar o título ao palco do Scala no centenário de nascimento de Gomes, em 1936 – sem êxito. A estreia europeia, ao que tudo indica, ocorreu em Giessen, na Alemanha, em 2011, com direção cênica de Joachim Rathke, regência de Carlos Spierer, e a soprano gaúcha Carla Maffioletti (conhecida por suas aparições com André Rieu) como a Condessa de Boissy (há uma crítica em alemão aqui).

A montagem sarda do Schiavo nasceu em 2017, no âmbito do Concurso Maria Callas, no Teatro São Pedro, em São Paulo, quando, sob os auspícios do diretor do certame, Paulo Ésper, dois membros do júri, Claudio Orazi, superintendente do Teatro Lirico di Cagliari, e o maestro Luiz Fernando Malheiro, assinaram um termo de intenção de uma coprodução, que incluiria a casa italiana e as duas entidades então dirigidas pelo regente brasileiro, o São Pedro e o Festival Amazonas de Ópera.

Logo em seguida, Malheiro saiu do São Pedro, o que excluiu o teatro paulistano da história. Em dezembro do ano passado, ele foi anunciado como o regente da montagem italiana. Contudo, ao assumir, no começo de janeiro, a direção musical do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, renunciou à sua participação na empreitada. Malheiro deve reger Lo Schiavo no Festival Amazonas de Ópera, em 2020, mas a questão da coprodução ainda está em aberto.

No lugar dele assumiu outro brasileiro: John Neschling, cuja carreira na Itália incluiu a direção musical, na década de 1990, do Teatro Massimo de Palermo, na Sicília. Neschling tem uma relação antiga com Carlos Gomes, tendo gravado Il Guarany para a Sony, com ninguém menos que Plácido Domingo no papel-título (é possível ver aqui um trecho da produção encenada em Bonn, com direção cênica de Werner Herzog).

John Neschling [Divulgação / Priamo Tolu]
John Neschling rege ópera na Itália [Reprodução Facebook / Teatro Lirico de Cagliari – Priamo Tolu]

“Nunca houve uma produção tão importante, num teatro de primeira qualidade, nem tão comentada na imprensa italiana e europeia. Um evento à altura desta magnífica obra, geralmente subvalorizada pelo público melômano que nela enxerga um ópera de temas inspirados, da melhor lavra de Carlos Gomes”, afirma o regente. 

“Trata-se, no entanto, de uma ópera extremamente bem elaborada nos seus detalhes: wagneriana no sentido do uso consciente e abundante dos Leitmotiven, e magistral no trabalho formal. Temas que, aparentemente fruto de inspiração momentânea, são, na verdade, intrincadas construções melódicas, dignas de um formalista alemão”, continua Neschling. “A inclusão de um prelúdio orquestral de peso no quarto ato, de brilhante orquestração – que já lembra o Uirapuru, de Villa-Lobos, de décadas mais tarde –, e a orquestração, em geral pesada, fazem de Lo Schiavo uma ópera quase tão germânica quanto italiana” (veja aqui o vídeo em que Neschling fala, em italiano, da estreia de Lo Schiavo em Cagliari).

A elevada opinião do regente é compartilhada pelos especialistas no compositor. Marcello Conati, em seu muito citado estudo das obras de Carlos Gomes, destaca “a organicidade estilística, que faz com que Lo Schiavo seja considerado pela maioria dos estudiosos como a ópera mais bem-sucedida de Gomes”. João Itiberê da Cunha, na também célebre análise da partitura, festeja a “riqueza perdulária de melodia, cada qual mais bela, e um equilíbrio harmonioso perfeito entre o texto poético e a música”. Para Itiberê, trata-se da “ópera mais igual em inspiração e fartura” de Carlos Gomes, e “a que lhe revela melhor a magnífica qualidade do talento”. Hoje pouco incluída em programas de concerto, a ária Quando nascesti tu foi popular entre tenores da primeira metade do século XX, tendo sido gravada por nomes do calibre de Enrico Caruso, Beniamino Gigli e Giacomo Lauri-Volpi, enquanto a Alvorada – o prelúdio orquestral do quarto ato a que Neschling alude – virou o sinal de chamada do público da Sala São Paulo.

A produção terá direção cênica de Davide Garattini Raimondi, que, em São Paulo, assinou, no Theatro São Pedro, em 2013, La Cenerentola, de Rossini e, em 2017, Gianni Schicchi, de Puccini, e Il Noce di Benevento, de Giuseppe Balducci (1796-1845). No papel-título, destaque para o barítono paulista Rodolfo Giugliani, que cantou a parte com brilho na produção de 2016 de Lo Schiavo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. No mesmo elenco, Ilara é a búlgara Svetla Vassileva, que assisti em uma Tosca, de Puccini, em Israel, em 2015, enquanto Amerigo é o tenor Massimiliano Pisapia, que ouvi substituir Piotr Beczala em uma produção de La Bohéme, de Puccini, em Salzburgo, em 2012. A ficha técnica completa da produção pode ser conferida aqui.  Essas são as vozes que devem ser captadas pela Dynamic, em uma gravação que torcemos que ajude a recolocar no mapa lírico internacional a música do maior compositor das Américas no século XIX.