Sob direção de Ricardo Bologna, Osusp realiza ótimo concerto, que foi também homenagem ao centenário de Olivier Toni
A britânica Anna Clyne, de 46 anos, é uma das mais destacadas compositoras da atualidade. Com uma linguagem musical muito pessoal, contemporânea, mas tonal e acessível, foi com sua obra Sound and Fury que a Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo, dirigida pelo maestro Ricardo Bologna, abriu o concerto do sábado, 18 de abril, na Sala São Paulo. A apresentação foi também uma homenagem ao centenário do maestro Olivier Toni (1926-2017), figura central da música brasileira e um dos criadores do Departamento de Música da USP.
Intitulado Caleidoscópio sonoro, o repertório escolhido – Clyne, o próprio Toni, Camargo Guarnieri e Stravinsky – resultou em uma apresentação muito especial.
Como contou o maestro Bologna logo ao subir ao pódio, a obra de Anna Clyne é inspirada no solilóquio de Macbeth, de Shakespeare, conhecido por “Som e fúria”. Ao saber da morte de Lady Macbeth e se ver encurralado, Macbeth expressa um sentimento de vazio e o absurdo da existência.
A peça, de pouco mais de 15 minutos, inicia-se com um motivo acelerado e nervoso, de grande intensidade. Ao longo do percurso musical – que é uma aventura qual uma montanha-russa –, Clyne alterna uma pressão de urgência e momentos de suspensão, pausas quase interrogativas, construindo uma narrativa rapsódica de grande organicidade. Mesclado ao discurso moderno, ouve-se, aqui e ali, cadências clássicas e ecos de temas folclóricos.
Mais para o fim, com a orquestra em um acompanhamento reticente, entra uma gravação narrando o poema “Som e fúria” de Shakespeare, com toda a sua carga de angústia existencial. A coda retoma a narrativa musical, sempre com muita energia, até os acordes finais. É uma obra de vibrante humanidade, que nos lança meio indefesos na vastidão dos mistérios de nossa existência.
Foi empolgante a interpretação da Osusp, que soube apresentar o discurso polimotívico em toda a sua complexidade. Se o concerto terminasse aqui, eu já iria para casa satisfeito. Mas não, esse foi apenas o começo de uma apresentação que ainda reservava muitas outras emoções.
A segunda peça do programa foi a obra de Olivier Toni, o seu Estudo para orquestra, de 1993. O título, um tanto abstrato e frio, não condiz com a musicalidade que a obra exprime. Com cerca de 10 minutos de duração, é uma peça vazada na modernidade, que explora timbres e diversas combinação e articulações orquestrais. Uma das curiosidades, é que Toni abre e encerra a obra com um inusitado solo de... berimbau! Creio que é uma ideia que marca também, com humor, o seu espírito inventivo.
Seguiu-se uma seleção de movimentos da Suíte Vila Rica, de Camargo Guarnieri. Escrita originalmente em 1957 como trilha sonora para o filme “Rebelião em Vila Rica”, a obra foi revista e transformada em uma suíte orquestral no ano seguinte. Bem ao gosto do nacionalismo musical, a peça ecoa modinhas, toadas e valsas populares. Também aqui, a Osusp expôs suas qualidades, com bonitos solos das madeiras e do spalla Claudio Micheletti.
Mas o ponto culminante do concerto ainda estava por vir: a Suíte de O pássaro de fogo de Igor Stravinsky. A obra é a primeira dos três balés compostos pelo mestre para os Balés Russos – os outros são Petrouchka e A sagração da primavera –, que no início do século passado puseram a música ocidental de ponta-cabeça.
Sob a direção competente do maestro Ricardo Bologna, que regeu de cor, a Osusp realizou uma excelente performance. Do início meio soturno e sombrio nos contrabaixos ao esplendor orquestral final, foi uma viagem sonora que narrou, com todas as cores e emoções, a história fantástica do pássaro de fogo. Com virtuosismo orquestral, a Osusp respondeu bem à exigente partitura, e Bologna logrou construir um consistente e bem-acabado arcabouço dramático.
Acredito que o maestro Olivier Toni também teria aprovado o concerto. Consigo imaginá-lo, com aquele seu jeito assertivo de falar, pronunciando bem as silabas e olhando fundo nos olhos: “Muito interessante este programa, a orquestra tocou muito bem. O maestro Ricardo Bologna faz um bom trabalho”. Para em seguida já disparar uma alfinetada provocadora: “Não como esses outros maestros que andam por aí, e que só sabem posar de fraque empunhando a batuta!”...
Sim, Toni, foi mesmo um ótimo concerto.
É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.

Comentários
Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.