O anúncio com remuneração mensal abaixo do salário-mínimo nacional escancara a ruína um dos maiores símbolos da cultura nacional; sociedade não deve renunciar à reivindicação mínima de 1% do orçamento público para Cultura
No último dia 14 de abril, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro distribuiu um comunicado com o título “Theatro Municipal do Rio de Janeiro anuncia concurso público com 110 vagas”. Parecia uma notícia auspiciosa. Finalmente a maior e mais tradicional casa de óperas do Brasil poderia completar seu quadro de artistas e recompor a sua estrutura administrativa. O contrato foi assinado no dia 26 de março e publicado no Diário Oficial do Estado e prevê um investimento de R$ 1,43 milhões.
O comunicado enviado afirma que as vagas disponibilizadas contemplam quatro níveis de escolaridade, inclusive superior, e abrangem setores como balé, orquestra, coro, além das áreas administrativa e operacional, “reforçando o compromisso do Theatro com a valorização de seus corpos artísticos, equipes técnicas e administrativas”. Do total, 27 vagas são para bailarinos, 24 para músicos e 18 para coralistas.
Mas aí tropecei na seguinte frase: “A remuneração varia entre R$ 1.077,73 e R$ 3.790,43, de acordo com o cargo”. Por um momento achei que tivesse me confundido, mas não: o concurso público oferece vagas por um valor menor do que salário-mínimo nacional, hoje R$ 1.621,00. Desculpem, isso não é valorização dos corpos artísticos e nem das equipes técnicas e administrativos do teatro. Isso é prova da ruína em que se encontra um dos maiores símbolos da cultura nacional!
Isso não é valorização dos corpos artísticos e nem das equipes técnicas e administrativos do teatro. Isso é prova da ruína em que se encontra um dos maiores símbolos da cultura nacional
Surpreso com esse dado – e com a indiferença do comunicado –, escrevi para a assessoria de imprensa do teatro para que confirmasse a informação. Recebi então a seguinte resposta do departamento de recursos humanos:
“Em atendimento ao solicitado, informamos que os valores abaixo do salário mínimo dos cargos de Auxiliar de Serviços Gerais, Assistente de Montagem Teatral, Auxiliar Administrativo, Auxiliar de Prevenção e Assistente de Manutenção Teatral serão corrigidos pelo Complemento Remuneratório e ajustado ao salário mínimo vigente do ano”.
No meu pedido de esclarecimentos, solicitei também informações em relação aos valores que serão pagos às diferentes categorias, em especial aos artistas. O departamento de recursos humanos detalhou assim:
“Auxiliar de Serviços Gerais - R$ 1077,73
Assistente de Montagem Teatral, Auxiliar Administrativo, Auxiliar de Prevenção, Assistente de Manutenção Teatral - R$ 1421,48
Assistente Administrativo, Técnico de Produção Teatral - R$ 1895,16
Bailarino, Músico Corista, Músico Instrumentista, Técnico de Nível Superior - R$ 3790,43”.
Considerando que, em novembro passado, a maestra Ligia Amadio, na audiência pública da assembleia legislativa do estado de Minas Gerais, afirmou que o salário de músico de fila da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais era de R$ 1.618,72 (clique aqui para ler), poderíamos até comemorar que, no Rio de Janeiro, os músicos receberão mais do que o dobro!
Mas não! O concurso do Theatro Municipal do Rio de Janeiro é mais uma evidência da crise do financiamento público à cultura. Como podemos aceitar, de modo indiferente e impassível, um concurso público com essas regras e condições? Um concurso como este é mais um sinal incontestável de um estado que naturaliza a precariedade e esvazia o próprio sentido da política cultural.
Tenho alertado seguidamente sobre a importância da subvenção estatal para as atividades da música clássica e da ópera. Não há no mundo, nem nunca houve, maneira de desenvolver essas atividades dentro de uma ideia de “mercado”. Isso vale tanto para as orquestras e teatros europeus, com o investimento público direto, como para os EUA e outros países, onde há importantes mecanismos de incentivo fiscal para promover doações e patrocínios.
Isso não significa, contudo, que atividades culturais sejam financiadas a “fundo perdido”. Há incontáveis estudos e pesquisas que demonstram que esses investimentos, quando vistos integrados no ecossistema econômico, retornam em valores multiplicados.
Por exemplo: estudo da Fundação Getúlio Vargas sobre o impacto da Lei Paulo Gustavo no estado e na capital do Rio de Janeiro demonstrou que o investimento cultural de R$ 139 milhões gerou impacto de R$ 852,2 milhões (cada R$ 1 investido movimentou mais de R$ 6,10), além de R$ 132 milhões em tributos – ou seja, quase a mesma quantia que o Estado investiu acabou retornando aos cofres públicos (clique aqui para ler a matéria do jornal O Globo)
Por outro lado, a Firjan – Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro demonstrou em um estudo (Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil), que o PIB Criativo alcançou 3,59% do PIB nacional (clique aqui para ler no site da Firjan). O índice está em linha com uma análise do Observatório Itaú Cultural, que indicou 3,11% (clique aqui para ler matéria do Site CONCERTO).
Reivindicar 1% do orçamento para a Cultura não é um capricho, mas uma exigência mínima de coerência com o papel que ela efetivamente desempenha na economia, na formação e na identidade do país
Se a Cultura responde por ao menos 3% do PIB nacional, não é aceitável que o poder público estrangule as suas instituições, como se fossem periféricas ou dispensáveis. Assim, reivindicar 1% do orçamento para a Cultura não é um capricho, mas uma exigência mínima de coerência com o papel que ela efetivamente desempenha na economia, na formação e na identidade do país.
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Comentários
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1% é muito pouco! Se é…
1% é muito pouco! Se é responsável por 3% do PIB, deveria ser no mínimo 3%. Mas a questão no Rio de Janeiro é outra: a elite continua sendo escravagista, acham que quem faz musica clássica é de família rica e por isso não precisam de dinheiro. Além da velha tendência da direita de achar que tudo que tem a ver com artes e cultura é automaticamente „comunista“. 😳 Arte faz pensar, eles não querem um povo pensante.
Obrigado pelo comentário, …
Obrigado pelo comentário, @Katia Guedes. Você tem razão, a reivindicação seria 2% em nível federal, 1,5% em nível estadual e 1% em nível municipal (PEC da Cultura 421/2014, defendida pelo Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais). Mas como nos estados a gente não chega nem perto de 0,5%, achei que daria pra gente reclamar por 1%...
Obrigada pelo artigo…
Obrigada pelo artigo contundente, Nelson.
Esse concurso é uma vergonha…
Esse concurso é uma vergonha,a vaga de auxiliar de prevenção, abrange a categoria de bombeiro civil, a categoria tem um piso, e recebe adicional de periculosidade, e oferecem um salário de 1.077. 00 ridículo, tomara que ninguém participe, Eu mesmo uma vez fui sacaneado pelo pessoal do Teatro Municipal, foram publicados vagas temporárias, Eu liguei para o Teatro e recebi a informação que bastaria enviar o currículo que eu estaria participando do processo seletivo, Quando saiu o resultado, simplesmente meu nome não constava nem como reprovado,a informação que a atendente do Teatro me deu estava errada. Sou bombeiro civil a 20 anos, formado pelo corpo de bombeiros militar do Estado do Rio de Janeiro,tenho vários cursos na área,como segurança do trabalho,aph.socorrista
Projeto de incêndio. Enfim. Fui rifado por que uma funcionária incompetente do Teatro me deu a informação errada. Uma vergonha.