Razão e sensibilidade

por Nelson Rubens Kunze 12/10/2022

Com maestria, conjunto austríaco Eggner Trio apresentou joias do repertório de câmara na Sala São Paulo

Para além da beleza da música – e essa é criação de inspiração transcendental –, a apresentação do Eggner Trio na Sala São Paulo ontem, dia 11 de outubro, dentro da temporada do Mozarteum Brasileiro, foi uma viagem por três dos principais períodos da música clássica ocidental: o apogeu do Classiscimo com Haydn, a transição revolucionária de Beethoven e o exuberante Romantismo de Brahms. E a execução do trio austríaco – três irmãos (o violinista Georg, o violoncelista Florian e o pianista Christoph Eggner) que parecem ser a própria tradução do termo “conjunto” – foi excelente.

A noite começou com uma interpretação transparente e absolutamente equilibrada do Trio em dó maior nº 39 de Joseph Haydn (1732-1809), intitulado Cigano. Haydn entrou para a história como o compositor que consolidou a linguagem e as grandes formas da música clássica. Antes de Haydn, havia o barroco ornamentado de Bach. Com ele veio a escrita limpa e despojada do Classicismo, as sinfonias, os concertos, os quartetos de cordas.

O Trio Cigano foi composto em Londres em 1795 e, com sua estrutura clara, temas melódicos e encadeamentos harmônicos, é exemplo da elegância da escrita de Haydn. A obra faz parte da criação de sua maturidade (o compositor viveu 77 anos e deixou um legado impressionante, que abarca justamente o percurso do fim do Barroco, atravessando o Classicismo até os princípios do Romantismo). Em três movimentos, o trio se encerra com um rondó que remete a uma dança cigana húngara, daí o nome. Também aqui chamou a atenção a precisão da interpretação, com articulações muito bem cuidadas.

Seguiu-se o Trio op. 70 nº 1 de Ludwig van Beethoven (1770-1827), o Trio Fantasma. E Beethoven, com sua inventividade, é um novo mundo que se revela a cada nova escuta. O trio ganhou o apelido de Fantasma pela atmosfera meio soturna, sombria e misteriosa do movimento central, o Largo assai ed expressivo. O título Fantasma teria sido dado por Czerny, aluno de Beethoven, que dizia que o movimento o lembrava da cena da aparição do fantasma em Hamlet, de Shakespeare (consta que na época, Beethoven estava trabalhando em uma ópera baseada em Macbeth, e originalmente a caráter deste movimento teria sido criado para a cena das bruxas). E é a partir deste largo central que se tem a perspectiva total da obra, já que ele estabelece o equilíbrio entre o Allegro vivace com brio do primeiro movimento e o Presto final. 

A obra pertence à fase intermediária de criação do mestre alemão, em que a sua linguagem musical está plenamente estabelecida (o trio, composto em 1808, é da mesma época da Sinfonia nº 6, a Pastoral). A integridade da peça – que com toda a sua criatividade jamais perde a coerência –, justifica o fato de ser uma de suas criações de câmara mais conhecidas. É, no todo, uma obra de grande beleza, que com o Eggner Trio ganhou uma emocionante interpretação.

O concerto se encerrou com o Trio em si maior op. 8 nº 1 de Johannes Brahms (1833-1897). Originalmente escrito em 1854 – quando Brahms tinha apenas 20 anos – o trio foi revisto e praticamente reescrito 35 anos depois, em 1889. E é esta revisão que entrou no repertório e que o Eggner Trio apresentou na Sala São Paulo.

Ouvido na sequência de Haydn e Beethoven, é interessante notar a estrutura “sinfônica” de quatro movimentos, a ampliação do tempo (a obra completa dura mais de 35 minutos), o desenvolvimento da escrita dos três instrumentos – em que já não há mais hierarquias tão definidas –, a crescente densidade harmônica e as inflexões agógicas próprias do estilo romântico. E, com tudo isso, o artesanato da escrita, em que nenhuma nota parece supérflua.

No geral, o Trio Eggner ofereceu uma interpretação de alto nível, com concentração e grande interação. Em sua apresentação, o conjunto se destacou pela consciência de estilo e pelo cuidado interpretativo. 

No fim do concerto, aplaudido entusiasticamente pelo público, os músicos voltaram ao palco para o bis: uma peça para trio com piano do compositor brasileiro Edmundo Villani-Côrtes. “Amamos a obra, que conhecemos hoje durante as master classes organizadas pelo Mozarteum Brasileiro”, falou o pianista Christoph Eggner.

E foi mesmo um ótimo encerramento para a apresentação deste recorte histórico com obras de três grandes mestres da música ocidental. 

Banner críticas Site CONCERTO

Leia também
Notícias
 Theatro São Pedro abre edital para o segundo Atelier de Composição Lírica​​​​​​​
Notícias Guido Sant’Anna será solista da Filarmônica Alemã de Bremen no Brasil
Notícias Obra de Marcos Balter inspirada na cultura iorubá reinaugura sede da Filarmônica de Nova York
Revista CONCERTO Música em família: o Eggner Trio, por Irineu Franco Perpetuo

Eggner Trio ao final de sua apresentação na Sala São Paulo (Revista CONCERTO)
O Eggner Trio ao final de sua apresentação na Sala São Paulo (Revista CONCERTO)

 

Curtir

Comentários

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.

É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.