Violinistas Emmanuele Baldini e Guilherme Pimenta registram em disco gemas da música brasileira
Não existe maneira mais arrebatadora do que construir um contraponto a duas vozes com instrumentos melódicos. É algo que músicos-compositores de muitos séculos atrás descobriram ao notar o impacto que este tipo de duo provoca nos ouvidos de quem escuta. Não há artifício, nem luxuosos invólucros, apenas dois sons nus contracenando.
Pois é esta a sensação que tive ao escutar Beatriz, de Edu Lobo e Chico Buarque, com o duo de violinos de Emmanuel Baldini e Guilherme Pimenta. Meses atrás, quando o entrevistei para o Estadão, Baldini me disse que estava, naquele momento (junho), gravando o álbum com Guilherme Pimenta, que é composto de um punhado de gemas da música... popular? erudita? Sim e não. Ou melhor, tudo junto & misturado. Lindamente misturado.
Sim, porque nas dez músicas do novo álbum ora lançado pela Azul Music, intitulado Baião ma non troppo, a sofisticada Beatriz convive com Xote das meninas, de Gonzagão, Conversa de botequim (parceria de Tom Jobim Com Luiz Bonfá) e Desvairada, de Garoto.
A ideia começou a germinar quando Guilherme deu a Baldini um volume de arranjos para violino solo que ele fez dois anos atrás. “Gostei muito”, diz Baldini. “E lhe sugeri que fizesse arranjos para dois violinos. Ele achou o máximo, e começou a escrever. Quando ele me mandou dez arranjos, gostei demais e propus a gravação, na qual investi pessoalmente, paguei a gravação. Aprendi muita coisa, como, por exemplo, improvisar. Eu não sabia improvisar.”
Neste momento da nossa curta conversa por whatsapp, ele citou uma das performances que mais me impressionaram no álbum: Cordestinos, do violinista francês Nicolas Klassik. Klassik tem 56 anos e há 24 está radicado no Brasil. Mergulhou fundo nas músicas brasileiras, atuou com todo mundo, de Henrique Cazes a João Bosco, de Hamilton de Holanda a Yamandu Costa.
“Há algumas improvisações que não estão escritas, me forcei a tentar e acho que deu certo", diz Baldini. Muito certo. Se eu fosse você, começaria a ouvir esta linha aventura de dois violinos com Cordestinos. E sem intervalo embarcar direto em Beatriz. É onde se percebe o refinamento desta empreitada virtuosa e ao mesmo tempo visceral. “É daquelas colaborações que fazem crescer”, diz Baldini. “É uma experiência que está definitivamente ampliando meus horizontes artísticos.”
Outra surpresa que é preciso destacar: Milonga das Missões, do acordeonista Gilberto Monteiro, nascido em Santiago, interior do Rio Grande do Sul. Ídolo de Renato Borghetti. Ele mistura a levada gaúcha com ritmos uruguaios e argentinos. Linda a introdução em pulso regular, com um baixo ostinato sob a melodia arisca; e entusiasmante a pegada da milonga, nesta versão a dois violinos.
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