Villa-Lobos reavaliado com profundidade

por Camila Fresca 29/03/2019

Faz tempo que é ponto pacífico considerar Villa-Lobos o mais importante compositor brasileiro. Ao mesmo tempo, sua produção extraordinária sempre foi vista como algo parecido à erupção de um vulcão ou qualquer fenômeno da natureza potente e de difícil explicação. 

Seu nome, sua figura e algumas (poucas) de suas obras eram conhecidas há tempos. Recentemente, passou-se a discutir mais seriamente as motivações e intenções do compositor, seja na forma de direcionar suas escolhas musicais, seja nas opções de sua carreira, fragilizando a tese habitual do gênio irracional ou puramente instintivo. Pelo contrário, nascia a imagem de um hábil profissional, consciente das consequências de suas escolhas. Também a datação de suas peças, já há algum tempo, é motivo de debates e pesquisas.

Mas faltam ainda análises intrínsecas de sua obra em quantidade, profundidade e regularidade; ou seja, investigações que se debrucem propriamente no material musical e o analisem sob o ponto de vista da análise, teoria e estética musical. Isso tem ocorrido recentemente e, de novo, nos ajuda a reavaliar o homem e sua obra, e a deitar por terra algumas crenças longamente disseminadas. 

Dentre os pesquisadores que têm se dedicado a essa linha de investigação nos dias atuais, talvez nenhum tenha dado contribuições mais importantes do que Paulo de Tarso Salles. Salles é professor de teoria e análise musical na Universidade de São Paulo, além de coordenador do grupo de pesquisa PAMVILLA (Perspectivas Analíticas para a Música de Villa-Lobos). Em 2009, já havia publicado Villa-Lobos: processos composicionais, livro no qual procura elencar elementos estruturais relacionados à harmonia, à simetria e à forma constantes do processo composicional de Villa-Lobos em diferentes obras e períodos criativos.

Heitor Villa-Lobos [Reprodução / Acervo do Museu Villa-Lobos - RJ]
Heitor Villa-Lobos [Reprodução / Acervo do Museu Villa-Lobos - RJ]

Agora, ele lança Os quartetos de cordas de Villa-Lobos: forma e função, que dá continuidade às investigações do livro anterior de forma amadurecida, centrando-se nos quartetos de cordas. Villa-Lobos escreveu quartetos a vida toda, alinhando-se a uma tendência do século XX na qual vários compositores retomaram a escrita de grandes conjuntos de quartetos de cordas. O compositor carioca escreveu nada menos do que 17 deles entre 1915 e 1957. O gênero, portanto, perpassou praticamente todo o seu período criativo.

“Sendo geralmente citado como um dos principais compositores das Américas e o mais importante compositor brasileiro, entre outras façanhas notáveis, é espantoso que ainda saibamos tão pouco sobre seus métodos de composição”, defende Salles já na introdução do trabalho. “Criou-se uma imagem exótica do compositor, interessante pelo lado pitoresco, mas que questiona sua credibilidade artística. Esse processo de desqualificação parece ter começado na década de 1930, a partir de comentários feitos por Mário de Andrade”, completa. 

O autor toma como um dos pontos de partida uma afirmação do próprio Villa-Lobos – a de que seus quartetos foram fortemente inspirados em Haydn – para discutir sua forma e os elementos empregados em sua composição. Seriam os quartetos de Villa obras mais “universalistas” quando comparadas a outras reconhecidas como embebidas de conteúdo nacionalista? Ao analisar em profundidade cada um deles, Salles ora se aproxima, ora refuta essa hipótese.

“[...] o pano de fundo metodológico deste trabalho é o embate entre noções ‘coletivas’ como ‘quarteto de cordas’, ‘nacionalismo’, ‘folclore’, ‘classicismo’, ‘forma’ etc. e a maneira peculiar como Villa-Lobos reage a essas noções, assimila-as e as devolve como música, ou seja, como linguagem musical, elaborada a partir do processamento dessas informações”, explica Salles. Dessa forma, ele finca sua análise em procedimentos técnicos, sem, no entanto, perder de vista a dimensão simbólica atribuída – pelo próprio compositor ou por terceiros – à música sobre a qual se debruça. 

A forma pela qual o pesquisador amalgama as questões mais áridas da análise puramente musical com outras simbólicas e extramusicais – contexto, ideologia, declarações do próprio Villa-Lobos etc. – soa arrojada e original, além de alargar o interesse do livro para além daqueles que dominam teoria e análise musical. 

A ideia de fazer de seu estudo uma ferramenta para uma compreensão mais abrangente da música de Villa-Lobos, aliás, fica clara quando, na conclusão do livro, Salles revela o desejo de que suas análises sirvam também como subsídio para interpretações da obra do compositor: “Esta é talvez a porção mais desafiadora de um trabalho de análise musical: supor que um pensamento ora abstrato venha a obter status de realização sonora com repercussão na performance dessas obras [...] Seria possível supor que algumas das propostas analíticas feitas neste estudo afetarão algum dia nossa maneira de tocar, de cantar, de ouvir esses quartetos?”

É certo que a circulação de informações, e mesmo a utilização de conhecimentos vindos da academia por intérpretes que muitas vezes têm uma visão solidificada da música de Villa-Lobos, não se dá de uma hora para outra. Mas parece difícil que trabalhos como o de Paulo de Tarso Salles e de outros pesquisadores que desenvolvem linhas semelhantes não venham a impactar, pouco a pouco, a forma de tocar, e sobretudo de enxergar, o legado do grande compositor brasileiro – e só temos a ganhar com isso.

O livro Os quartetos de Villa-Lobos está disponível na Loja Clássicos.

 

Leia mais
Leia outras colunas de Camila Fresca