Fernando Portari: 30 anos de carreira e amor à arte

por Luciana Medeiros 11/04/2019

A carioquice transborda na fala do tenor Fernando Portari – o sotaque tem os calorosos chiados, o vocabulário é crivado de originalidades e gíria malandra, a simpatia domina a conversa. E é no Rio de Janeiro que ele celebra, no próximo domingo, dia 14, seus 30 anos de carreira – no Theatro Municipal, palco onde cantou seu primeiro papel como solista ao lado de Carlo Bergonzi, protagonista de Um baile de máscaras, de Verdi.

“Nasci em Vila Isabel [bairro operário e boêmio da Zona Norte carioca], de família de imigrantes portugueses e italianos. Minha mãe tocava piano divinamente, estudou com Heitor Alimonda; já meu pai, de família italiana do interior de São Paulo, teve formação artística pela influência do padrinho, pintor, escultor e adorador de ópera”, conta Portari. 

O recital desse domingo, ao lado da pianista Priscila Bomfim, desfia um programa com peças que enfatizam a versatilidade da formação e do gosto de Portari – de Chiquinha Gonzaga a Verdi, de Carlos Gomes a Gluck, de Mozart a Gershwin. O leque amplo denuncia uma formação eclética, pautada pela paixão do pai e do irmão, ambos chamados Pedro, e da mãe Fernanda.

“Lá em casa a gente cantava todo dia. Tinha sarau noturno com meu pai ao piano, meu irmão e eu. E nós ouvíamos de tudo, samba, jazz, tive uma fase roqueira violenta; preconceito zero”, lembra. Mas a faculdade de Direito ia pela metade, apareceu um estágio muito bem remunerado e a música foi ficando para trás. Nem sarau caseiro Fernando fazia mais. “Um dia, travei. Abandonei tudo, vagava pela cidade, angustiado para descobrir meu desejo, que era o de ser artista. E a ferramenta artística mais próxima era a música. Comecei a ter aulas de canto com meu pai.”

Pedro Portari sênior, mesmo se mantendo como amador na música, já tinha uma formação sólida dos anos de estudo com Pasquale Gambardella, herdeiro da escola napolitana do bel canto que deu ao mundo Enrico Caruso. Fernando se engajou em corais e voltou à academia – um tempo na Unirio, onde estudou com Eliane Sampaio. E tomou o rumo definitivo. Era 1990.

“Um dia, na Unirio, apareceu a chance de estudar com Aldo Baldin em Karlsruhe, na Alemanha”, lembra o tenor. “Mas, ao mesmo tempo, veio um convite quase irrecusável: o de alternar o papel de D. José em Carmen com ninguém menos do que Plácido Domingo, num projeto de Fernando Bicudo, o Ópera Brasil. Surtei! Fiquei transtornado. Aos 20 anos, a gente fica louco mesmo com o ídolo.”  Mas o projeto, que previa apresentações no Rio e na reabertura do Teatro Amazonas, em Manaus, foi atropelado pelo Plano Collor e cancelado no meio. “Só não entrei em depressão profunda porque sou de Vila Isabel e fui jogar bola no campinho ao lado de casa”, ri Portari. “Voltei me arrastando, pedindo perdão ao Baldin, que acabou me aceitando. Ganhei um concurso na faculdade e fui.”

Dois anos na Alemanha valeram por uma formação profunda – como espectador e como artista. Ao retornar de vez em 1994 – já tinha vindo em 1992 fazer os primeiros protagonistas no Brasil, em Don Giovanni (Rio) e O barbeiro de Sevilha (SP) –, se envolveu em projetos com Isaac Karabtchevsky e Luiz Fernando Malheiro.  A ideia de um crescimento lento mas constante da performance vocal e cênica se instalou, e de modo consciente.

“Recusei muita coisa que não era para mim. Eu era um tenor lírico ligeiro, mas sempre com uma mobilidade cênica grande, uma versatilidade, a facilidade para o agudo que são interessantes para o teatro lírico. O fundamental é saber dosar as vivências, as exigências, os desafios vocais, ir observando e testando a voz.”

Portari saca o exemplo da Tosca – “música lírica, bela, mas que precisa de punch”, avalia. “Eu ouvi de Pavarotti: só canto Cavaradossi depois dos 40 anos. É fisiológico, o cantor precisa compensar as exigências da melodia e da interpretação forçando a musculatura.” Ele cita o exemplo do tenor americano Gregory Kunde. “Ele começou, como eu, lírico ligeiro; hoje canta Otelo, Aida, repertório muito denso. Hoje abordo os papeis lírico spinto, como Manon Lescaut, Andrea Chénier...”

Ganhar densidade, corpo, maturidade orgânica, sem perder a leveza e o colorido – o mundo ideal de Portari. “Acho que consigo transitar nesses universos diferentes, e a carreira fica interessante. E agora em 2019 canto pela primeira vez a Tosca completa em Manaus, não aos 40, mas aos 51. Sou uma metralhadora giratória, que abrange um repertório vasto”, repete ele.

Os palcos estrangeiros foram vários – de 1999 a 2001, performances na Alemanha e na Itália; em 2006, nova investida na Península Ibérica, Itália e Japão, e novamente Itália em 2009, com a estreia no La Scala, cantando Fausto e Romeu e Julieta. “Com o nascimento do meu filho, a disponibilidade para viagens reduziu-se, e a verdade é que isso vira uma bola de neve no mercado. Mas vamos ver.”

A conversa fluente só dá uma meia-trava quando surge a pergunta – o que fundamenta Fernando Portari como cantor e como pessoa? “Difícil definir. Sou um tenor brasileiro, sou um nacionalista sem ser ufanista. Descendo de gente que se apaixonou pelo país, pela imensa diversidade e musicalidade do Brasil. Fui formado nesse caldo. Mas acho que antes de ser tenor, de ser cantor, de ser músico, eu sou artista”, repete. “Meu grande patrimônio é esse amor.”

Clique aqui e veja mais detalhes no Roteiro do Site CONCERTO

Fernando Portari [Divulgação/Sergio Spina]
Fernando Portari [Divulgação/Sergio Spina]

 

Leia mais

Festival Amazonas lança programação para 2019
Leia outros textos de Luciana Medeiros
Ópera sobre migração estreia no Rio de Janeiro