A morte da excelência

por Luciana Medeiros 17/05/2019

Não é à toa que o Theatro Municipal ocupa espaço nobre no quadrilátero formado pelos edifícios históricos no centro do Rio de Janeiro – Biblioteca Nacional, Museu de Belas Artes, Câmara Municipal. O edifício, erguido entre 1905 e 1909 na administração Pereira Passos, representa a excelência artística que ninguém deveria se dar ao luxo de ignorar e desprezar. Dispensável até lembrar todos os grandes nomes mundiais da música e da dança no século XX – e muitos do teatro, como Sarah Bernhardt – que pisaram aquele palco. 

Entrar naquele teatro acende a imaginação de todos, do mais assíduo frequentador ao neófito total. Tamanho poder não se despreza. Ou não se deveria desprezar. As mais importantes vivências e transformações tanto no coletivo quanto na vida individual são assentadas no campo do simbólico. 

Hoje, vemos que a troca rasteira de favores políticos imediatos tomou conta dos objetivos da administração pública em geral, com honrosas e raríssimas exceções. Para essa mentalidade, a excelência atrapalha. Para essa gente, navegar guiada por altos valores sociais é perda de tempo e de dinheiro. No campo da chamada alta cultura, valorizar os artistas que precisam investir toda uma vida para alcançar suas metas não combina em nada com o toma-lá-dá-cá. Formar técnicos especializados e administradores competentes para o alto dessa pirâmide de sofisticação, pra quê? 

Uma criança desenvolve sua capacidade de raciocínio ao experimentar a abstração. Neurologicamente, na infância adquirimos pouco a pouco esses músculos necessários para o salto além do concreto, desde entender o tempo (afinal, não existem na prática passado nem futuro) até se programar para as mais complexas associações, lógicas e emocionais. Amor e regras morais se incluem nesse rol. Jean Piaget (1896-1980) sistematizou esse desenvolvimento cognitivo e aponta a faixa dos 11-12 anos como fundamental – a última etapa, em que o indivíduo atinge a verdadeira capacidade de abstração: a de “pensar nas relações entre acontecimentos ou entre coisas sem precisar experimentá-las de fato” (cito esta reportagem da Nova Escola).

Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Divulgação]
Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Divulgação]

E o que isso tem a ver com música, ópera e Theatro Municipal? Voltamos àquela palavrinha, imaginação. Se uma sociedade valoriza o voo da imaginação, do qual as artes eruditas primam pela referência da sofisticação, não pode prescindir desse investimento. É muito difícil argumentar em favor do “desperdício” de dinheiro nas artes no momento em que hospitais não têm gaze e faltam vaga e merenda nas escolas. Mas para o grupo social há um imenso perigo em perder de vista essa importância. A criação artística sinaliza a existência de um pensamento abstrato que é exatamente o mesmo da filosofia, da política e até da álgebra. Esse pensamento é o que define a identidade de todos nós, nossa atuação ao longo do tempo e nossa postura na projeção e na reivindicação de direitos.

Quem trabalha com o ensino de música nas comunidades pobres diz que uma criança ao violino redime toda uma família ao inserir no grupo a “permissão” de alçar voo na arte. Fiorella Solares, à frente da Ação Social pela Música no Brasil, reforça, em sua experiência, que a linguagem musical, como qualquer articulação levada a cabo, organiza internamente as pessoas e os grupos. Na verdade, isso serve para a excelência em qualquer campo, nas artes, no esporte, na matemática, na engenharia, na história. Quando as pessoas e as sociedades se organizam internamente, elas agem com firmeza e consequência, não aceitam imposições e não se deixam desvalorizar. 

Que o Rio de Janeiro entenda o valor desse investimento antes que seja tarde demais. 

Leia mais
Luiz Fernando Malheiro fala sobre sua saída do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Orquestra Petrobras Sinfônica toca a 'Sinfonia nº 9' de Mahler
Leia outros textos de Luciana Medeiros, colunista do Site CONCERTO no Rio de Janeiro