Inhotim e a importância da cultura

por Nelson Rubens Kunze 01/07/2019

Encontro do Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais em Minas Gerais debate papel da cultura para o desenvolvimento e bem-estar social 

Desde 2017 a Revista CONCERTO é membro do Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais (FBDC), uma associação de mais de 180 empresas e entidades sem fins lucrativos da área da cultura de todo o Brasil, que reflete sobre o setor, sua situação e desafios, propondo ideias para políticas públicas e manifestando-se em relação a questões da atualidade. Além de várias empresas produtoras das mais diversas manifestações artísticas (teatro, música, circo, fotografia, dança, cinema, artes plásticas, museus etc.), participam do fórum entidades tão diferentes e relevantes como o Instituto Itaú Cultural (São Paulo), o Observatório das Favelas (Rio de Janeiro), a Santa Marcelina Cultura (Emesp e Theatro São Pedro, em São Paulo), a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o Centro Cultural Dragão do Mar (Fortaleza) ou a Filarmônica de Minas Gerais (Belo Horizonte). Que um fórum dessa natureza cresça e se fortaleça em um momento de tão forte polarização da sociedade brasileira dá uma ideia da necessidade e do sucesso da iniciativa.

Para mim, o Fórum tem sido de grande auxílio para a reflexão sobre a realidade e os desafios da cultura contemporânea no Brasil. Sempre volto de nossos encontros inspirado e motivado para seguir com força renovada em nosso trabalho de difusão da música clássica e da ópera (ano passado já escrevi aqui sobre um encontro do FBDC na Comunidade da Maré, no Rio de Janeiro).

Nos últimos dias 25 e 26 de junho, o Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais se reuniu em Minas Gerais – em Belo Horizonte e Inhotim – para sua plenária #FBDC 3 Anos, desta vez acompanhada de um seminário que abordou o papel da cultura para o desenvolvimento da sociedade. E, novamente, foi um encontro altamente inspirador. Houve debates e trocas de ideias enriquecedoras sobre questões como as leis de incentivo, políticas públicas para a área da cultura, problemas de tributação das entidades sem fins lucrativos, bem como alguns exemplos de como a cultura impulsiona a transformação social e gera riqueza.

Tive a satisfação de apresentar dois exemplos de sucesso na área da música clássica: o do Instituto Baccarelli de São Paulo, que após duas décadas de existência atende 1000 crianças e jovens da comunidade de Heliópolis – dando à juventude daquele bairro, por meio do ensino da música clássica, um sentido de pertencimento e a possibilidade de sonhar – e o Festival Amazonas de Ópera, que desencadeou um florescimento inédito da atividade musical em Manaus e em outras cidades da região, e que apresenta índices de fomento econômico a dar inveja a alguns setores da Zona Franca – proporcionalmente aos recursos investidos no Festival, o evento gera mais riqueza e trabalho do que setores como os da indústria de brinquedos, têxtil, madeireira e de vestuário e calçados (conforme dados do relatório “Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus”, publicado pela Suframa em 21 de março de 2019).

O seminário também teve ótimas “falas inspiracionais”, com três personalidades especiais: o escritor português Valter Hugo Mãe; o rapper mineiro Flavio Renegado, que mantém o projeto social Arebeldia na comunidade Alto Vera Cruz, periferia de Belo Horizonte, onde nasceu; e Macaé Evaristo, ex-secretária da Educação do estado de Minas Gerais. Comum aos três relatos, o fato de a Cultura – e aqui especificamente as bibliotecas e os livros – ter sido decisiva para a ascensão social e o desenvolvimento de seus projetos.

Outro ponto alto do encontro do FBDC em Minas Gerais foram as atividades em Inhotim, o incrível museu-parque de arte contemporânea – famoso no mundo por sua excelência artística e ambiental – localizado em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte. 

Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais [Revista CONCERTO]
Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais [Revista CONCERTO]

Como todos sabem, no início do ano Brumadinho viveu a tragédia do rompimento da barragem para extração mineral da empresa Vale, levando a centenas de mortes e a uma extensa devastação ambiental. O museu de Inhotim, que busca fortalecer a sua relação com a cidade, emprega 600 funcionários, a maior parte deles jovens de Brumadinho em seu primeiro trabalho remunerado. Em seu programa para contribuir com o desenvolvimento da região, Inhotim promove visitas ao museu oferecendo entrada franca às quartas-feiras, organiza excursões de escolas públicas e mantém uma escola de música que atende à população. Como resumiu o presidente da instituição Antonio Grassi, “Inhotim não pode ser um oásis ou um óvni que aterrissou em Brumadinho. Inhotim tem que ser Brumadinho!”.

Tendo em vista a sua relação com Brumadinho, o Fórum aprovou em Inhotim um manifesto em que reafirma a importância da cultura como agente de transformação e desenvolvimento social (leia abaixo).

Apresentação dos alunos da Escola de Música de Inhotim [Revista CONCERTO]
Apresentação dos alunos da Escola de Música de Inhotim [Revista CONCERTO]

MANIFESTO

O Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais, reunido nesta data no Instituto Inhotim, celebra o papel da cultura na transformação das pessoas e das cidades e seu poder de agregar, sensibilizar e fazer renascer a relação com o território e o significado de ser parte da vida afetiva de seu entorno e de suas comunidades.

O poder da cultura e da arte é fundamental para garantir a sustentabilidade da região, preservar o ecossistema e impulsionar o turismo brasileiro, na busca do desenvolvimento econômico e social, para combater de maneira real e definitiva a desigualdade no Brasil, que nos assola e se amplia.

Portanto, precisam ser garantidos os investimentos na arte e na cultura, a articulação de esforços para a construção de um projeto sustentável e de longo prazo para o desenvolvimento da região como polo de atração cultural, econômica e turística.

Para tanto, o Instituto Inhotim é estratégico no renascimento de Brumadinho e simbólico na compreensão da sociedade no valor da arte e da cultura para reposicionar o Brasil frente à superação da matriz de desenvolvimento baseado na dependência das commodities, trazendo ao centro a Educação e o conhecimento.

Brumadinho, 26 de junho de 2019
 

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