O reconhecimento de Nelson Freire ao projeto do Instituto Piano Brasileiro

por Camila Fresca 20/02/2019

Em janeiro, a convite do Instituto Piano Brasileiro (IPB), estive em Brasília para acompanhar uma apresentação de Nelson Freire. Foi o primeiro recital de piano organizado pelo IPB. O artista não tocava na cidade há mais de dez anos e foi recebido de forma calorosa pelo público, que lotou o Auditório da Fundação Habitacional do Exército e veio não só de Brasília como de outros estados para ouvi-lo. Vale mencionar, aliás, a qualidade do teatro, com poucos anos de uso, acabamento impecável, boa acústica e um piano Steinway D. 

Nelson entrou à vontade no palco, abrindo a noite com uma tocante interpretação da Sonata nº 11 (que inclui a “Marcha turca”) de Mozart, e seguiu com a Sonata op. 27 nº 2, “Ao luar” de Beethoven. A segunda parte, impecável, teve as mazurcas op. 17 n nº 4 e op. 33 n nº 4 e a Barcarola op. 60 de Chopin, dois prelúdios de Rachmaninov, A lenda do caboclo, de Villa-Lobos, e Navarra, de Albéniz. Atendendo a pedidos do público, ele deu dois bis: Tango, de Albéniz-Godowsky, e Dia de casamento em Troldhaugen, de Grieg. (Parte do recital já está disponível em vídeo no canal do IPB no Youtube.)

Nelson Freire [Divulgação / IPB]
Nelson Freire [Divulgação / IPB]

Soube depois que foi o próprio Nelson quem se ofereceu para fazer o concerto, como forma de contribuir para o projeto do Instituto Piano Brasileiro. O reconhecimento de Nelson Freire é sem dúvida lisonjeiro, mas não exagerado. O IPB é uma das iniciativas mais sérias de nosso meio musical nos últimos tempos, fruto do trabalho abnegado e persistente de Alexandre Dias. Em 2015, após tentativas frustradas de conseguir apoio, ele resolveu bancar sozinho a empreitada. No portal do Instituto pode ser acessada uma gama de informações sobre o piano brasileiro que até pouco tempo estavam dispersas ou mesmo desaparecidas: o banco de dados conta com catálogos de milhares de partituras, discografias, iconografia, verbetes enciclopédicos etc. No canal do Youtube podem ser acessadas gravações raras e entrevistas, entre outros materiais. Mais recentemente, foi criada a editora do IPB, com a primeira edição Urtext do Tango brasileiro de Alexandre Levy.

Em dezembro de 2017, em entrevista à Revista CONCERTO, Alexandre falou sobre as atividades do IPB: “Trabalhamos no nível das fontes primárias, uma área muito carente na musicologia – há muitas partituras e gravações perdidas. Nós queremos listar a discografia de todos os nossos grandes intérpretes, o catálogo de obras para piano de todos os nossos grandes compositores. Dentro do catálogo de partituras do site, queremos elencar todas as partituras editadas no Brasil desde o século XIX, listando-as por editora e número de chapa, para que possamos compreender em profundidade qual é a produção musicográfica brasileira”.

O coração do trabalho do IPB, no entanto, é a digitalização de acervos de personalidades do piano brasileiro, área na qual já virou referência. Além de atender demandas de pesquisadores de todo o Brasil, Alexandre conta que é procurado espontaneamente por herdeiros ou entidades que possuem acervos – estes são doados ou emprestados ao IPB para digitalização. Quem acompanha o trabalho do Instituto na internet e nas redes sociais frequentemente se depara com pérolas resgatadas por Alexandre e seus colaboradores. 

[Divulgação / IPB]
[Divulgação / IPB]

Uma das formas de manutenção do projeto é uma campanha permanente de crowdfunding com mais de 100 assinantes que colaboram mensalmente. “Essa receita permite que o IPB cresça aos poucos, mas está muito aquém do que precisamos”, explica ele. Recentemente, o IPB inaugurou uma sala em Brasília, que tive oportunidade de visitar no dia seguinte ao concerto. A sede física é um espaço para reuniões em torno do piano: saraus, palestras, audições comentadas, exposições. Alexandre me explicou entusiasmado cada objeto da sala e cada quadro na parede, integrantes de uma exposição de documentos do acervo de Aloysio de Alencar Pinto. Contou ainda, que o Instituto possui uma outra sala alugada, com climatização e segurança, na qual estão acondicionados os arquivos físicos doados permanentemente ao IPB. 

A produção do primeiro concerto foi impecável, refletindo a qualidade geral do trabalho. A passagem de Nelson Freire por Brasília rendeu ainda uma simpática entrevista a Alexandre Dias, na sede do IPB, que está disponível aqui. Nelson está em ótima forma, do alto de seus 75 anos (a serem completados em outubro) e 70 de carreira. Mostra-se bem humorado, conta histórias, ri.

Com pouco mais de 600 lugares, o Auditório da Fundação Habitacional do Exército é perfeito para a música de câmara e pode suprir uma lacuna de espaços para a música de concerto em Brasília. Se usado com regularidade, certamente se tornará referência. Tomara que esse tenha sido o primeiro de muitos recitais organizados pelo IPB. 

[Divulgação / IPB]
[Divulgação / IPB]