Sinfônica Nacional abre ano e reforça ênfase na música contemporânea brasileira

por Luciana Medeiros 11/03/2019

Na próxima sexta, dia 15 de março, a Orquestra Sinfônica Nacional abre sua temporada 2019 na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, celebrando dois gigantes da música de concerto no Brasil: Claudio Santoro, nascido há um século, e o lançamento do CD em homenagem a Edino Krieger, que completou 90 anos em 2018. A regência é de Tobias Volkmann, há três anos seu principal regente convidado. É uma ótima pedida para quem gosta de música sinfônica – por razões que vão além do propriamente musical.

Baseada na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, a OSN não escapou das duras contingências impostas à cultura em geral, à música clássica e ao Rio de Janeiro em particular. Mas o grupo niteroiense se estabelece, em muitos pontos, como honrosa exceção nessa curva descendente que reduziu – ou eliminou – temporadas e desgastou músicos e público no Rio. 

Há dez anos, a Nacional – que é a única orquestra profissional ligada a uma universidade federal no país – partiu para uma reestruturação, estabelecendo a autogestão artística e eliminando o cargo de regente titular (a última a ocupar o pódio foi Ligia Amadio). Conseguiu, ainda, reforços em dois concursos de peso, renovando 35 vagas de seu efetivo de 75 figuras, atraindo músicos de nome como a violinista e spalla Ana de Oliveira. No mesmo embalo, redefiniu sua linha de programação, que privilegia a música contemporânea brasileira (“só eu regi cerca de 20 estreias nos últimos anos”, contabiliza Volkmann). E lançou três discos de 2016 para cá. São lutas dos próprios músicos, que determinam e perseguem suas metas.

Orquestra Sinfônica Nacional [Divulgação]
Orquestra Sinfônica Nacional [Divulgação]

“Temos pouquíssimo recursos destinados à programação, cerca de R$ 250 mil por ano, e trabalhar com isso é quase um milagre”, revela Volkmann. “Nossas vantagens são que os salários dos instrumentistas são pagos pelo Governo Federal e temos local de ensaio e apresentação, o Cine Arte UFF, reformado em 2014. E estabelecemos muitas parcerias, como a da Sala [Cecília Meireles]. Claro que ainda há muito a crescer e melhorar, principalmente nas questões de orçamento para a temporada, desenvolvendo mais ainda o potencial artístico. É uma orquestra que melhora a cada ano, sem grandes alardes, mas com razoável consistência, que estabelece uma resistência cultural. Gosto de pensar que a minha parceria com a OSN ajudou nisso.” 

O primeiro semestre já está definido e, nos sete concertos clássicos, da série Alvorada, a OSN toca peças dos brasileiros Guerra-Peixe, Camargo Guarnieri, Almeida Prado, Alberto Nepomuceno, Ricardo Tacuchian e, claro, Villa-Lobos, com destaque para a execução da primeira das suas doze sinfonias, sem deixar de tocar Ravel, Stravinsky, Mendelssohn, Bruckner. A série popular trará as canções de Ary Barroso com arranjos de Rafael Barros Castro. “Popular, mas no idioma da orquestra”, pontua Volkmann. “Teremos mais dois concertos na série Popular ainda não definidos. Silvio Viegas rege a Sinfonia n° 1 de Villa, com a ideia de tocar o ciclo completo nos próximos anos. E a OSN Cine do ano vai mostrar a trilha de Radamés Gnattali para o filme Ganga bruta, de Humberto Mauro.” 

O segundo semestre está esboçado, mas ainda não fechado. Nele, acontece a Mostra da Música Brasileira da Atualidade, iniciativa anual da orquestra há cinco anos, que em 2019 faz chamada pública para escolher quatro peças de novos criadores. As obras são submetidas a um júri de três compositores, que também têm obras tocadas na mostra. Não está prevista gravação em 2019, mas uma nova mobilização para substituir os músicos prestes a se aposentar já começou.

“É um período delicado para a cultura mas não vamos esmorecer”, garante o fagotista Jeferson Souza, presidente da comissão artística para o biênio 2019-2020. “Temos um diferencial importante por estamos no ambiente da universidade: há muitos mestres e doutores na orquestra. Seguimos no propósito de ampliar a inclusão da música de concerto brasileira e oferecer o máximo de cultura musical no nosso trabalho.”

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Leia mais:
“O ano de Claudio Santoro”, por João Luiz Sampaio (Revista CONCERTO, edição março 2019)

“A redescoberta da música brasileira (entrevista com Gustavo de Sá)”, por João Marcos Coelho

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