Prêmio CONCERTO 2018

por Redação CONCERTO 01/01/2019

Júri formado por seis atuantes jornalistas musicais do país elegeu os grandes momentos do ano; edição também teve votação do público

Nas páginas a seguir, você conhecerá os indicados e os vencedores da sétima edição do Prêmio CONCERTO de Música Clássica e Ópera, conferido anualmente aos destaques da temporada, com o objetivo de valorizar e fomentar a atividade musical clássica no Brasil. Concorrem os mais destacados concertos, óperas, recitais e discos, DVDs e livros, assim como os protagonistas da cena clássica ou os grandes acontecimentos que impactaram a temporada.

O prêmio é debatido e escolhido por alguns dos principais críticos musicais do país, de forma independente e imparcial. São conferidas premiações nas categorias Grande Prêmio, Ópera, Música Orquestral, Música de Câmara / Recital / Coral, Jovem Talento e CD / DVD / Livro. A partir deste ano, o prêmio de ópera passa a se chamar Prêmio Lauro Machado Coelho de Ópera, em homenagem ao jornalista e crítico musical que ao longo de sua trajetória profissional fez do gênero seu tema principal, fosse nas páginas diárias da imprensa, fosse em livros como os da coleção História da Ópera.

Cada jurado indicou três destaques para cada categoria, o que resultou em uma lista apresentada na reunião do júri, realizada no dia 26 de novembro. A partir dela, foram selecionados três indicados para cada categoria. Em seguida, aconteceu a votação, secreta, da qual saíram os vencedores. O público também foi convidado a votar em seus preferidos no Site CONCERTO.

Camila Fresca é jornalista e doutora em musicologia pela ECA-USP; colaboradora da Revista CONCERTO e colunista do Site CONCERTO

Irineu Franco Perpetuo é jornalista e tradutor, colaborador da Revista CONCERTO, colunista do Site CONCERTO e jurado do concurso Prelúdio, da TV Cultura

João Luiz Sampaio é jornalista e crítico musical; editor-executivo da Revista CONCERTO e colunista do Site CONCERTO; colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e do Portal Estadão

João Marcos Coelho é jornalista e crítico musical; colunista do Site e da Revista CONCERTO; colaborador dos jornais O Estado de S. Paulo e Valor Econômico; apresentador da Rádio Cultura FM

Nelson Rubens Kunze é gestor cultural e jornalista; diretor-editor da Revista CONCERTO e colunista do Site CONCERTO

Sidney Molina é violonista e crítico musical do jornal Folha de S. Paulo; professor da UniFiam-Faam, em São Paulo, e da Fundação Carlos Gomes/UEPA em Belém; membro do quarteto de violões Quaternaglia

 

Grande Prêmio CONCERTO 2018

Finalistas:

- Edino Krieger 90 anos
- Integral das sinfonias de Heitor Villa-Lobos (Osesp / Karabtchevsky) [Fundação Osesp]
- Selo Sesc

VENCEDORIntegral das sinfonias de Heitor Villa-Lobos

Em 2018, o compositor brasileiro Edino Kriger chegou aos 90 anos celebrado como uma das mais importantes figuras do cenário musical não apenas pelo trabalho como autor, mas também pelo reconhecimento por uma atividade como gestor que colocou sempre a música brasileira em primeiro lugar. Autores e intérpretes nacionais também têm encontrado, no Selo Sesc, um parceiro decisivo para projetos que nos ajudam a compreender a riqueza deste repertório. Da mesma forma, é inestimável a contribuição dada pela Osesp à percepção da obra de Heitor Villa-Lobos ao gravar e editar suas onze sinfonias, em ambicioso projeto que teve duração de sete anos e cujos CDs são distribuídos mundialmente pelo selo Naxos.

É uma boa notícia: a música brasileira dominou as indicações do júri ao Grande Prêmio CONCERTO 2018, retratando um mercado em que fica cada vez mais evidente a importância que a defesa do repertório e dos artistas nacionais tem na construção de uma vida musical saudável e culturalmente relevante.

No entanto, era preciso escolher um vencedor. E, após as deliberações do júri, a votação elegeu como destaque em 2018 a integral das sinfonias de Villa-Lobos, projeto da Fundação Osesp finalizado em janeiro de 2018 com o lançamento do sexto disco da empreitada e de uma caixa com todos os volumes da série.

Concebido por Arthur Nestrovski, o projeto envolveu diversos profissionais da Osesp, sob a liderança do maestro Isaac Karabtchevsky e dos musicólogos Maria Elisa Pasqualini e Antonio Carlos Neves Pinto, do Centro de Documentação Musical. Afinal, não se tratava apenas de gravar as peças, mas também de preparar edições de referência das partituras, enfrentando o mundo caótico dos manuscritos de Villa-Lobos. 

“As sinfonias apresentaram o desafio de reestabelecer a coerência entre os manuscritos e as partituras, que colocamos agora à disposição da classe musical. Foi um trabalho sem pausa, só possível por causa da Osesp, de seu departamento de musicologia, da determinação do diretor artístico Arthur Nestrovski e da totalidade de seus músicos, que se esmeraram na árdua tarefa de redescobrir e completar os originais”, diz o maestro Isaac Karabtchevsky, que regeu o grupo nas gravações.

Em entrevista à Revista CONCERTO no ano passado, Neves Pinto contou como foi a rotina do trabalho. “O trabalho de Maria Elisa, que era coordenadora do CDM no início do projeto, foi fundamental para lançar o ciclo. Na primeira fase, com as sinfonias nº 6, nº 7, nº 3, nº 4 e nº 10, utilizava-se na gravação o manuscrito, que era corrigido, revisado e, no fim, editava-se a partitura. Cheguei ao projeto no meio da gravação da Décima sinfonia e lembro que eles levantaram mais de quatrocentos erros e correções, número que aumentava à medida que o maestro ensaiava. A partir das sinfonias nº 8, nº 9, nº 11, o processo se inverteu. A edição era preparada e depois entregue aos músicos, eventualmente passando por correções”, contou ele. 

O trabalho com os músicos, explicou Neves Pinto, também foi importante. “É um privilégio poder discutir uma questão de equilíbrio ou dinâmica tendo uma orquestra como a Osesp para testar e ajudar a chegar ao ponto correto. E Isaac Karabtchevsky, ao mesmo tempo que ouvia os artistas, apresentava sua própria visão, conquistada ao longo da carreira, que lhe permitia tomar decisões com clareza.”

Pela qualidade das gravações, que receberam ao longo dos anos diversos prêmios, além de elogios da crítica brasileira e internacional, a integral já mereceria reconhecimento. Mas a edição das partituras vai permitir que as sinfonias, a partir de agora, sejam tocadas por outros conjuntos mundo afora, em uma combinação de excelência artística e visão institucional reconhecida pelo Prêmio CONCERTO. 

Integral das sinfonias de Heitor Villa-Lobos
Gravação de CDs e edição de partituras
[Fundação Osesp]

[Divulgação / Isabela Guasco]
[Divulgação / Isabela Guasco]

Prêmio Lauro Machado Coelho de Ópera

Finalistas:

-“Kátia Kabanová”, de Janácek (Ira Levin/André Heller-Lopes) [Theatro São Pedro, São Paulo]
-“La traviata”, de Verdi (Viegas, Minczuk/Jorge Takla) [Palácio das Artes, Belo Horizonte/Theatro Municipal de São Paulo]
-“Sonho de uma noite de verão”, de Britten (Cláudio Cruz/Jorge Takla) [Theatro São Pedro, São Paulo]

VENCEDORSonho de uma noite de verão, de Britten

Os indicados entre as produções de ópera de 2018 mostraram uma diversidade interessante. De um lado, um dos principais clássicos do repertório, La traviata, de Verdi, em uma montagem de referência criada por Jorge Takla para o Palácio das Artes de Belo Horizonte e para o Theatro Municipal de São Paulo, que foi regida respectivamente por Silvio Viegas e Roberto Minczuk. De outro, duas obras fundamentais do século XX receberam releituras no palco do Theatro São Pedro de São Paulo: Kátia Kabanová, de Janácek, com direção de Ira Levin e André Heller-Lopes, e Sonho de uma noite de verão, de Britten, novamente com Takla e o maestro Cláudio Cruz.

Não foi uma escolha fácil. Pelo contrário. A riqueza das concepções, as leituras musicais sensíveis e os elencos bem selecionados – características comuns a todas as produções – levaram a votação a um empate e, consequentemente, a um segundo turno, quando Sonho de uma noite de verão acabou escolhido como vencedor.

A montagem se insere na busca do Theatro São Pedro por um novo e mais diversificado repertório, com o objetivo de firmar uma identidade própria ao espaço. Takla, por sua vez, imaginou uma encenação que, entre a fantasia e o real, investiga de maneira fluente a condição humana, suas motivações e suas contradições, com uma direção de atores que, acompanhada da leitura musical sólida de Cláudio Cruz, rendeu alguns dos momentos mais belos e emocionantes da temporada. Uma grande conquista.

Sonho de uma noite de verão, de Britten (Cláudio Cruz / Jorge Takla) [Theatro São Pedro, SP]

[Divulgação / Heloisa Bortz]
[Divulgação / Heloisa Bortz]

Música Orquestral

Finalistas:

- Filarmônica de Dresden, Herbert Schuch (piano) e Michael Sanderling (regente) [Cultura Artística/Dell’Arte]
- “Missa”, de Leonard Bernstein, com Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, corais e solistas, Roberto Minczuk (regente) [Theatro Municipal de São Paulo]
- Osesp, Emmanuel Pahud (flauta) e Thierry Fischer (regente), com obra “Saccades”, de Philippe Manoury [Fundação Osesp]

VENCEDORMissa, de Leonard Bernstein

Cada indicado na categoria Música Orquestral levou o ouvinte a um universo musical específico, revelando o vigor de uma atividade musical composta não apenas pela presença de grandes conjuntos internacionais, como também por grupos capazes de apresentar repertórios dos mais variados e audaciosos, com grandes solistas. 

A Filarmônica de Dresden, fundada em 1870, levou a São Paulo e ao Rio de Janeiro um elevado senso de tradição em leituras de obras de Mozart, Beethoven, Bruckner e Shostakovich com o regente Michael Sanderling. No Theatro Municipal de São Paulo, a Orquestra Sinfônica Municipal e o maestro Roberto Minczuk, em homenagem aos 100 anos de Leonard Bernstein, convidaram o público a uma viagem à cultura norte-americana dos anos 1970. E, na Sala São Paulo, a Osesp realizou a estreia latino-americana de Saccades, de Philippe Manoury, com o maestro Thierry Fischer e com a presença do compositor, tendo como solista o flautista Emmanuel Pahud, que meses antes havia realizado, na Alemanha, a estreia mundial da peça.

Como escolher entre três indicados tão diversos e importantes? Foi essa a tarefa do júri, que selecionou como vencedora a interpretação de uma das obras mais emblemáticas de Bernstein. E que levou ao palco do Theatro Municipal não apenas a Sinfônica Municipal, mas o Coro Lírico, o Coral Paulistano e jovens cantores do Opera Studio da Escola Municipal de Música, além de um time de solistas liderado pelo barítono Michel de Souza. Um esforço conjunto capaz de revelar as potencialidades do Theatro Municipal como instituição musical.

Missa, de Leonard Bernstein, com Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, coros, solistas e Roberto Minczuk (regente) [Theatro Municipal de São Paulo]

[Divulgação / Rodrigo Fonseca]
[Divulgação / Rodrigo Fonseca]

Música de Câmara / Recital / Coral

Finalistas:

- “A paixão segundo São João”, de Bach, com Os músicos de capella, solistas e Luis Otavio Santos (regente) [Cultura Artística]
- Jan Lisiecki, piano [Cultura Artística]
- The Tallis Scholars [Festival Sesc de Música de Câmara]

VENCEDORA paixão segundo São João, de Bach

Jan Lisiecki, exímio pianista, especializado em Chopin; um coro sinônimo de excelência em todo o mundo, o Tallis Scholars, em evento inovador, o Festival Sesc de Música de Câmara; e a apresentação de uma das obras mais importantes da história, A paixão segundo São João, de Johann Sebastian Bach, por músicos brasileiros.

A heterogênea e marcante lista de indicados ajuda a explicar por que, nesta categoria, a votação foi particularmente apertada, decidida voto a voto, até o fim. E os números elegeram o conjunto Os Músicos de Capella e o maestro e violinista Luis Otavio Santos pela leitura apresentada na Sala São Paulo da obra de Bach, em uma iniciativa da Cultura Artística em sua série extra-assinaturas.

O movimento da música historicamente informada, dedicado a pesquisar as práticas do momento em que as obras foram criadas, revolucionou nossa maneira de ouvir a música antiga. No Brasil, esse aprendizado tem se tornado ainda mais presente nos últimos anos por causa da formação de cursos especializados e de conjuntos com proposta artística antenada com a pesquisa histórica, atraindo estudantes e desenvolvendo um contato próximo com o público. Sem dúvida, Luis Otavio Santos e Os Músicos de Capella são protagonistas nesse processo, o que faz desse prêmio uma distinção não apenas à apresentação em si, mas também o reconhecimento a um movimento recente e bastante importante na cena musical brasileira. 

A paixão segundo São João, de Bach, com Os Músicos de Capella, solistas e Luis Otavio Santos (regente)[Cultura Artística]

[Divulgação / Heloisa Bortz]
[Divulgação / Heloisa Bortz]

Jovem Talento

Finalistas:

- Guido Sant’Anna(violinista)
- Lucas Thomazinho (pianista)
- William Coelho (maestro)

VENCEDORGuido Sant’Anna, violino

Em abril de 2018, uma notícia começou a inundar as redes sociais, dando conta de um feito inédito: um violinista brasileiro de 12 anos de idade havia chegado às finais da Menuhin Competition, na Suíça. Transmitidas pela internet, suas provas tornaram-se recorde de audiência, garantindo a ele o primeiro lugar na votação on-line da categoria júnior da competição e a escolha do júri do Prêmio CONCERTO 2018 como Jovem Talento, categoria na qual concorreu ao lado de dois promissores artistas: o pianista Lucas Thomazinho e o maestro William Coelho. 

Aluno de Elisa Fukuda e com suporte da Cultura Artística, Guido começou no violino aos 5 anos, sempre com o apoio da família. Com 7 anos, fez sua estreia com orquestra sinfônica. Em 2014, foi finalista do programa Prelúdio, apresentado pelo maestro Júlio Medaglia. E passou a se apresentar regularmente com o maestro João Carlos Martins e a Bachiana Filarmônica Sesi-SP.

Em entrevista à Revista CONCERTO após o concurso, Guido disse que ainda não tem compositores preferidos e falou a respeito de como entende o papel do músico: “Estou contando uma história de sentimentos. Todas as pessoas sentem minha melodia, mas cada uma delas imagina e cria, a partir da minha música, uma história diferente”. Ele falou também sobre o futuro: “Quero seguir carreira, fazer boa música, ser solista de grandes orquestras e superar as expectativas de qualquer audiência”. Algo que ele já começou a fazer.

Guido Sant’Anna, violino

[Divulgação]
[Divulgação]

CD / DVD / Livro

Finalistas:

- Aleyson Scopel, piano – Cartas celestes, de Almeida Prado [Grand Piano]
- Edelton Gloeden, violão – 12 Valsas brasileiras de Francisco Mignone [Independente]
- Trio Puelli – Radamés Gnattali: integral da obra para piano, violino e violoncelo [Selo Sesc]

VENCEDORCartas celestes, de Almeida Prado

Não foi apenas no Grande Prêmio CONCERTO que a música brasileira dominou as indicações. Também aqui, nesta categoria que premia lançamentos marcantes, o trabalho de intérpretes que têm se dedicado a pesquisar e registrar compositores nacionais acabou se imponto entre os finalistas, todos eles projetos de CD. 

O Trio Puelli, por exemplo, lançou a integral da obra para piano, violino e violoncelo de Radamés Gnattali, consolidando-se como um dos mais importantes grupos de câmara em atividade no país. Já o pianista Aleyson Scopel, representante da nova geração do piano brasileiro, encerrou seu projeto de gravação das Cartas celestes, conjunto de peças de Almeida Prado. E o violonista Edelton Gloeden lançou o primeiro registro das 12 valsas brasileiras, de Francisco Mignone.

No fim, o trabalho de Scopel foi escolhido pelo júri, coroando um trabalho em que Scopel faz justiça às Cartas celestes como um dos pilares do repertório do piano brasileiro. Em entrevista no início do projeto, o pianista falou à Revista CONCERTO sobre as peças. “O que elas revelam, do ponto de vista pianístico, é a busca pela exploração dos timbres do instrumento, sugerindo um piano orquestral, que é brasileiro e universal. Está em jogo também a identidade dele como criador.” E – por que não? – a do próprio Scopel como intérprete inspirado, sensível, cuja curiosidade na escolha do repertório reserva com certeza surpresas para o futuro. 

Cartas celestes, de Almeida Prado. Aleyson Scopel, piano [Grand Piano]

[Divulgação / Daryan Dornelles]
[Divulgação / Daryan Dornelles]

[Clique aqui para conhecer os escolhidos na votação do público.]