Novas realidades

por Camila Fresca 01/04/2019

Criador da Orquestra Camerata Sesi-ES, maestro Leonardo David conta sobre sua carreira e seus planos

Como conseguir um lugar ao sol numa carreira cobiçada, com concorrência acirrada e na qual há mais candidatos que postos fixos? “O maestro hoje tem que ser também o gestor. Esse modelo baseado na orquestra tradicional, em que o maestro só vai do camarim ao palco, não funciona mais. É preciso ter planos, bons resultados musicais, visibilidade, projetos de formação cultural. Isso é importante e cabe ao maestro, pelo menos no início.” É essa convicção que norteia o trabalho do maestro capixaba Leonardo David, 40 anos. E foi assim que ele deu o pontapé inicial na carreira de regente.

Em 2001, passou a dar aulas de violino na Faculdade de Música do Espírito Santo; na época, sentia que o aprendizado dos alunos deveria contemplar também a prática de música de câmara e orquestra. “Não havia orquestra na escola, e decidi montar um grupo com meus oito melhores alunos de violino. Pedi três alunos para o professor de viola, dois para o professor de cello e um para o contrabaixo.” A orquestra cresceu até se tornar a Camerata Jovem da Faculdade do Espírito Santo e acabou convidada pelo Sesi pra fazer parte do Sistema S. Nascia, assim, em 2007, a Camerata Sesi-ES. 

No entanto, o fato de dirigir uma orquestra não significava que ele empunhasse a batuta. “Apesar de ter tido aulas de regência e reger coros desde a adolescência, na Camerata eu tocava com os alunos. E também era músico da Sinfônica do Espírito Santo”, conta Leonardo David. A mudança viria logo em seguida: “O Sistema S tinha um programa de capacitação, exigindo que os funcionários fizessem um curso por ano. Pensei em procurar um curso de gestão, mas acabei encontrando um curso que Isaac Karabtchevsky daria em Olinda, no Festival Mimo. Eu me inscrevi como ouvinte, não ousei enviar um vídeo meu regendo. Mas, no fim do curso, pedi para que ele avaliasse meu trabalho e consegui, nos últimos minutos, subir no palco e reger a Sinfônica de Recife no último movimento da Nona de Dvorák. Foi um momento lindo em minha vida: a orquestra reagiu superbem, e a partir dali virei aluno de Isaac. Tenho uma ligação intensa com ele, é um porto seguro para mim. Foi assim que acabei enveredando pela regência”, resume. 

Leonardo David [Divulgação]
Leonardo David [Divulgação]

Entre as orquestras que ele já teve a oportunidade de reger estão as sinfônicas nacionais do Paraguai, da Bolívia e de El Salvador e, no Brasil, as sinfônicas do Recife, da Paraíba, de Sergipe, da Bahia e de Porto Alegre, entre outras. Atualmente, além de maestro titular e diretor artístico da Camerata Sesi e maestro adjunto da Sinfônica do Estado do Espírito Santo (cujo titular, Helder Trefzger, ele considera outra figura importante em sua formação), Leonardo David é regente do Coro da Aliança Francesa de Vitória e está terminando o mestrado em regência com André Cardoso na Escola de Música da UFRJ. “Minha dissertação é sobre as obras para cordas de Ernani Aguiar. A camerata deve gravar as peças no meio do ano, e em julho faremos um concerto com esse repertório na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro”, conta. 

Neste mês, Leonardo David comanda a Camerata Sesi em A criação, de Haydn, com participação do Coral Brasil Ensemble da UFRJ sob regência de Maria José Chevitarese e dos solistas Paulo Mandarino, Licio Bruno e Rosiane Queiroz. Ao longo do ano, além de compromissos fora do país, ele rege, como convidado, a Orquestra da Cesgranrio, a Sinfônica da UFRJ e a Petrobras Sinfônica, com quem faz seis concertos no fim da temporada.

Segundo o maestro, o público que frequenta os concertos clássicos é eclético e de diversas camadas sociais. “Os últimos concertos, tanto da camerata quanto da Sinfônica do Espírito Santo, estavam lotados. Existe uma grande rotatividade: a cada apresentação, quase metade dos presentes está ali pela primeira vez.” A Camerata Sesi faz uma série de concertos clássica, mensal, e outra, denominada Camerata Pop, que acontece a cada dois meses e propõe parcerias com grupos locais de diversos estilos musicais – “gravamos um DVD com Danilo Caymmi e no fim do ano vamos trabalhar com um rapper”, exemplifica. “Com as duas séries, procuramos nos aproximar dos diversos públicos sem nunca abandonar nossa essência, a música clássica.” 


AGENDA
Camerata Sesi-ES
, em Vitória
Dias 6, 7: A criação, de Haydn
Dia 16: Caymmi canta Jobim
Leonardo David, regente