CDs e DVDs: a seleção do mês

por Redação CONCERTO 01/04/2019

Quartetos de Smetana, sinfonias de Florence Price, a música para piano de Debussy e Satie, peças para viola solo, os concertos para piano de Beethoven: conheça a seleção dos principais lançamentos de CDs do mês preparada pela Revista CONCERTO.

 

 

SMETANA
[Reprodução capa]

BEDRICH SMETANA
Quartetos de cordas
Quartetto Energie Nove
Lançamento Dynamic. Importado. R$ 97,40

O nome de Bedrich Smetana está associado ao nacionalismo musical tcheco – e, não por acaso, sua obra mais conhecida é o poema sinfônico Minha pátria, do qual faz parte O Moldava, descrição do principal rio da região em que nasceu o compositor. Sua criação, no entanto, é muito mais vasta do que se imagina. E, nesse universo, merecem destaque seus dois quartetos de cordas. São obras profundamente pessoais. O Quarteto nº 1 trata, segundo o compositor, do chamado do destino, das lutas do cotidiano, do amor à arte e do “desejo por algo impossível de definir e, ao mesmo tempo, quase um pressentimento de infelicidade”. O Quarteto nº 2, por sua vez, carrega, ao lado de danças folclóricas, um mundo sonoro atormentado. São obras intensas, cuja dramaticidade renasce pela interpretação do Quartetto Energie Nove, batizado em homenagem a uma revista literária do começo do século XX, cujo objetivo era explorar facetas escondidas da produção de escritores deixados à margem – preocupação que os quatro jovens músicos incorporam em seu trabalho com a história do quarteto de cordas e da música de câmara.


[Reprodução]
[Reprodução capa]

FLORENCE BEATRICE PRICE
Sinfonias nº 1 e nº 4
Fort Smith Symphony
John Jeter
– regente
Lançamento Naxos. Importado. R$ 66,10

A vida e a música de Florence Beatrice Price (1887-1953) misturam-se com a história dos Estados Unidos. Nascida no estado de Arkansas, no sul do país, no fim do século XIX, ela conviveu com a segregação em relação aos negros. Estudou música primeiro com a mãe e mais tarde em Nova Inglaterra, onde foi aceita na universidade. Depois de se formar, voltou para o sul, mas o preconceito e a falta de oportunidades fizeram com que, no início dos anos 1930, ela se mudasse para Chicago. Foi lá que estreou sua Sinfonia nº 1, primeira obra sinfônica de uma compositora afro-americana interpretada nos Estados Unidos. Quase quinze anos depois, viria a Sinfonia nº 4. Ambas as obras mostram uma sofisticação estilística marcante, além da relação com os negros spirituals e o flerte com o jazz, em um universo sonoro que evoca a Sinfonia nº 9, Do novo mundo, de Dvorák. Price morreu em 1953, e sua música desapareceu dos programas, o que torna este lançamento, em um momento de recuperação de vozes ignoradas, um marco. Comandado com sensibilidade pelo maestro John Jeter, a Fort Smith Symphony, grupo mais antigo do Arkansas, faz, com este álbum, um reparo histórico.


[Reprodução capa]
[Reprodução capa]

COUPERIN L’ALCHIMISTE
Un petit thêatre du monde
Bertrand Cuiller – cravo
Lançamento Harmonia Mundi. Importado. R$ 130,90

O disco do cravista inaugura um projeto ambicioso: a gravação de toda a obra para cravo de François Couperin, autor marcante da passagem do século XVII para o século XVIII que se dedicou ao cravo como poucos. Ele escreveu, por exemplo, o tratado A arte de tocar o cravo, com sugestões de digitação, toque e ornamentação influente durante séculos. E, como compositor, deixou cerca de 230 peças, reunidas em quatro volumes, além de concertos (que também ganharam versões solo), peças vocais e de câmara. Aqui, Bertrand Cuiller registra 26 peças solo, reunidas em Ordens, coletâneas escritas ao longo da vida do compositor. Juntas, formam um panorama bastante fiel da sensibilidade artística da época, mas, individualmente, são simbólicas da capacidade de Couperin reunir em uma só peça emoções e afetos dos mais distintos, criando aproximações e contrastes que, mais de três séculos depois, seguem fascinando o ouvinte, em especial quando um intérprete como Cuiller, que já colaborou com grupos como Les Arts Florissants, mostra-se capaz de dar voz e ampliar as possibilidades de leitura das partituras.


[Reprodução capa]
[Reprodução capa]

MELANCHOLIA
Madrigais e motetos de cerca de 1600
Les Cris de Paris
Geoffroy Jourdain
– direção
Lançamento Harmonia Mundi. Importado. R$ 116,10

Este disco pertence à categoria de trabalhos que, mais que nos apresentar a música de determinado período, são capazes de recriar por meio de sons todo um momento histórico. O excelente texto do encarte ajuda a explicar tal proposta. A segunda metade do século XVI, diz o maestro Geoffroy Jourdain, viu nascer uma vanguarda musical que aliou dois elementos: de um lado, a erudição e o refinamento técnico e, de outro, um gosto pela emoção exacerbada. Autores de então passaram a usar como base textos introspectivos, lamentos que deram vida a um corpo de obras perpassado por um sentido de melancolia que mudaria o cenário da arte da época e levaria a inovações estilísticas e técnicas marcantes. São autores como John Wylbie, William Byrd, Carlo Gesualdo, Orlando Gibbons e Luca Marenzio, cujas obras ganham leitura de referência dos cantores de Les Cris de Paris, atento ao espírito de uma época cujas ideias seguem profundamente influentes – e ao possível diálogo entre elas e nossos dias.


[Reprodução]
[Reprodução capa]

DEBUSSY – SATIE
Prelúdios (livro 1) – Gnossiennes – Gymnopédies
Fazil Say – piano
Lançamento Warner Classics. Importado. R$ 89,70

Em abril de 2012, o pianista turco Fazil Say escreveu no Twitter que era ateu e compartilhou uma mensagem que brincava com o conceito islâmico de Paraíso. Pouco depois, o governo turco resolveu processá-lo por “insultar os valores religiosos adotados por parte da nação”. Condenado, escapou da sentença de um ano de prisão. Mas deixou seu país e tornou-se uma voz a favor da liberdade de pensamento – tanto em entrevistas como em sua música autoral. Essa marca está bastante associada a sua carreira como intérprete, mas neste novo disco ele mostra como merece estar entre os principais pianistas de seu tempo. Ele une dois compositores franceses. De Debussy, toca o Livro 1 dos Prelúdios; de Erik Satie, suas duas principais obras, Gnossiennes e Gymnopédies. Debussy e Satie oferecem dois olhares a respeito da criação musical da passagem do século XIX para o XX. E Fazil Say, em leituras ousadas e repletas de imaginação, nos transporta para o nascimento de uma nova produção artística, de um novo mundo – e nos mostra como estamos ainda próximos das questões que a arte de então colocava.


[Reprodução capa]
[Reprodução capa]

BEETHOVEN: CONCERTOS PARA PIANO
Filarmônica de Berlim
Sir Simon Rattle
– regente
Mitsuko Uchida – piano
Lançamento Berliner Philharmoniker. Importado. Caixa com livro, 3 CDs, 1 blu-ray áudio, 1 blu-ray vídeo. R$ 394,60

Primeiro, a música. Os cinco concertos para piano de Beethoven são obras fundamentais, representantes da evolução do autor e, consequentemente, da própria história da música. Gigantes do piano já se dedicaram a eles. No entanto, a mistura de intimismo e força que Mitsuko Uchida oferece a eles, acompanhada por uma Filarmônica de Berlim versátil, comandada por Sir Simon Rattle, faz deste registro um marco imprescindível para quem se propõe conhecer ou redescobrir as obras. E, em segundo lugar, há o contexto em que o registro é lançado. Parte da coleção criada pelo selo próprio da orquestra, o pacote traz três CDs, um blu-ray áudio, de qualidade sonora impecável, e um blu-ray vídeo, com o registro das gravações (filmadas com 14 câmaras), além de um livro com informações e análises preciosas sobre os concertos. É possível, ainda, baixar o áudio em alta resolução e inscrever-se com um bônus de sete dias no Digital Concert Hall, serviço de streaming da orquestra. Temos disponíveis todos os outros volumes da série, incluindo gravações integrais de sinfonias de Beethoven, Schumann e Sibelius.


[Reprodução capa]
[Reprodução capa]

CONVICÇÕES PROVISÓRIAS
Composições de Celso Mojola
Celso Mojola – piano
César Albino – saxofone
Lançamento Tratore. Nacional. R$ 29,80

Desde a publicação de sua tese de mestrado, em 1994, dedicada ao conceito de forma musical em nosso tempo, o compositor Celso Mojola se dedica a investigar os significados da criação contemporânea e as questões que se colocam a novos compositores. Tanto na academia quanto no palco. E, em certo sentido, este disco leva essas questões a um novo patamar. Ele conta que, em 2001, iniciou com o saxofonista César Albino um duo que “atuasse como laboratório de criação, reflexão e prática interpretativa de um novo repertório para saxofone e piano”. Dezoito anos depois, diversas peças foram escritas por Mojola e estreadas pelo duo, que também recebeu obras de outros autores. E parte desse universo foi gravada por ambos neste CD. São partituras que bebem de diversas influências, da música romântica à contemporânea, da música brasileira ao jazz. Sem fronteiras definidas, diz Mojola. E o resultado é, como sugere o título, um disco em movimento, que explora diversos caminhos e está aberto a outros que ainda virão.


[Reprodução capa]
[Reprodução capa]

A CANTAR UMA CANTIGA
Cantigas e vilancetes portugueses do século XVI do Cancioneiro de Paris
Capela Ultramarina
Lançamento independente. Nacional. R$ 33,20

No ano 2000, um grupo de instrumentistas e cantores se colocou uma pergunta: como celebrar, por meio da música, os 500 anos do descobrimento do Brasil? A resposta surgiu com o grupo Capela Ultramarina, nascido com o objetivo de “buscar nossas raízes a partir da música feita na península Ibérica, especialmente em Portugal, no período das grandes navegações, observando os ecos dessa música em nossas tradições”. Quase vinte anos depois, o conjunto, dirigido por Fábio Vianna Peres, lança o presente álbum, que, de certa forma, é a síntese desse trabalho e exemplo da qualidade musical e artística atingida ao longo dos anos. Nele, estão presentes peças do Cancioneiro de Paris, manuscrito de origem portuguesa do século XVI no qual Peres e o grupo trabalham há alguns anos. A interpretação é fascinante: utiliza técnicas da música historicamente informada, ou seja, que buscam se aproximar das práticas da época em que surgiram as obras, sem abrir mão, nas palavras de Peres, de certa liberdade na abordagem, o que faz do disco mais que um CD de resgate histórico, um exemplo de aproximação entre épocas.


[Reprodução capa]
[Reprodução capa]

WORKS FOR SOLO VIOLA
Rafaell Altino – viola
Lançamento DaCapo. Importado. 2 CDs. R$ 126,60

A trajetória do violista Rafaell Altino, um dos principais músicos brasileiros em atividade no exterior, teve início ainda na infância, com seus estudos de música e de viola com o pai, o maestro Rafael Garcia. Quando deixou o Brasil, mudou-se para os Estados Unidos. Estudou na Juilliard School of Music e, mais tarde, foi para a Alemanha e, então, para a Dinamarca, onde hoje é primeira viola da Orquestra Sinfônica de Odense. Nesse caminho, no entanto, um elemento comum o acompanhou: o interesse pela criação contemporânea. Em 2015, lançou um disco chamado Viola a Rafael, com obras de compositores brasileiros escritas especialmente para ele. Quatro anos depois, a fórmula se repete, agora com uma seleção interessante de compositores dinamarqueses. São obras que dialogam com a história do instrumento, seu uso ao longo do tempo, sem abrir mão de pensar novas sonoridades e ideias musicais à luz do mundo em que vivemos. É o caso, por exemplo, de Sarabande, de Bent Sorensen, ou #ViolaSounds, de Niels Rosing-Schow. Com um músico expressivo como Altino, no entanto, o disco vai além de um panorama da composição do país: mostra as possibilidades sonoras da viola, muitas vezes levadas ao limite, como em Varidrome, de Karsten Fundal, ou na teatral Recitare, de Soren Nils Eichberg. Uma descoberta em todos os sentidos.


Todos os CDs estão disponíveis na Loja CLÁSSICOS (clique aqui)