Recriando Janácek

Entrevista com

Ira Levin
Diretor musical e regente

André Heller-Lopes
Diretor cênico

 

Embora seja reconhecido como um dos maiores compositores de ópera do século XX, o tcheco Leos Janácek (1854-1928) só chegou ao Brasil no século XXI. Ira Levin regeu, em 2003, no Theatro Municipal de São Paulo, a primeira produção de uma ópera do compositor no país: Jenufa. O mesmo título seria encenado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 2017, com direção cênica de André Heller-Lopes.

Levin esteve à frente de diversas produções de Jenufa na Alemanha, enquanto Heller-Lopes fez O diário de um desaparecido em solo britânico e dirige, em outubro deste ano, A raposinha astuta, em Bogotá. No ano passado, ambos uniram as forças na estreia brasileira de outra ópera do compositor: Kátia Kabanová, encenada no Theatro São Pedro. A química funcionou: sucesso de crítica, a montagem foi finalista do Prêmio CONCERTO Lauro Machado Coelho de Ópera. 

E, agora, a dupla volta ao palco do São Pedro para mais uma primeira audição de Janácek no Brasil: O caso Makropulos, projeto sobre o qual concederam entrevista à Revista CONCERTO. Levin falou de Berlim, onde mora, enquanto Heller-Lopes nos atendeu entre os ensaios do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, casa da qual é o atual diretor artístico.

Ira Levi e André Heller-Lopes [Divulgação]
Ira Levin e André Heller-Lopes [Divulgação]

Como Janácek entrou em sua vida?
Ira Levin – Sempre gostei dele. Sua primeira obra que conheci foi a Sinfonietta, durante minha juventude. Então, em Bremen, em 1993, fiz a primeira de minhas cinco produções de Jenufa. Acabou se tornando uma ópera muito importante para mim, pois fala da morte de uma criança, e eu tive uma filha doente pouco tempo depois. Fiquei honrado por ter feito a estreia brasileira dessa ópera no Theatro Municipal de São Paulo e por estrear, agora, no São Pedro, obras-primas como Kátia Kabanová e O caso Makropulos, da qual fui assistente de uma produção em Frankfurt, em 1995, com Anja Silja. São óperas que caem como uma luva no Theatro São Pedro.
André Heller-Lopes – Kátia Kabanová foi a primeira ópera (gravação e partitura) que comprei ao chegar a Londres, em 2003, e fiquei completamente encantado. Por acaso, tinha assistido a Jenufa no Theatro Municipal de São Paulo antes de ter a chance, no Covent Garden, em Londres, em 2004, de dirigir O diário de um desaparecido. Foi um privilégio trabalhar com um especialista como Charles Mackerras, estudar tcheco, traduzir a ópera com os coaches... Janácek tem uma ligação forte com o idioma tcheco.

O que mais o atrai em Janácek?
AHL – É muito interessante, para mim, a ligação entre palavra, idioma, cadência do idioma e música. Tanto do lado da grafia quanto do da identidade dramática e musical de um povo. De repente, do nada, surgem melodias inacreditáveis. O mais interessante, segundo meu ponto de vista de diretor, é o lado dramático. Primeiro, o lado autobiográfico, a paixão que ele tem por Kamila Stösslová. Ele compõe todas as coisas depois dos 60 anos, depois que fez de tudo na vida: teve filho, perdeu filho, praticamente se aposentou do curso de órgão que dava… Então, ele resolve viver e se apaixona por essa mulher, que ele põe em todas as óperas. São muitas facetas: ela é a cigana misteriosa de O diário de um desaparecido, ela é a mulher gelada de O caso Makropulos, ela é a raposinha astuta. Tem uma coisa muito fascinante: ele decide matar a raposinha, o que não está no texto original e, então, soa como se ele realmente decidisse matá-la. Dramaticamente, ele está nessa época do verismo. Eu gosto desses compositores que têm uma coisa dramática muito pessoal, ainda mais para quem tem uma ligação como eu com o libreto, a música como estado de alma – esse elemento pós-wagneriano de dizer uma coisa com a palavra e a música trair você com o subconsciente. E tem ainda essa diversidade de temas. Qual é o outro compositor que abordou tantos temas completamente distintos? As histórias podiam ser obras de quatro autores diferentes. A única coisa que liga as óperas é a paixão, a maneira de ver essa mulher.

É possível definir um estilo Janácek?
IL – Tem muita emoção, mas sem sentimentalismo. Dentro da produção de Janácek, Jenufa e Kátia são mais populares, românticas e trágicas, um pouco como as óperas do verismo italiano. Não é bel canto – a linha vocal vem da fala co-tidiana. Não existem árias de Janácek, como as de Santuzza em Cavalleria rusticana, de Mascagni. É um estilo de canto declamado, parlando. Mas, como as óperas são muito diferentes entre si, é difícil falar em um “estilo Janácek”. 

Qual é a importância de fazer as óperas de Janácek no original tcheco?
IL – Na Alemanha, fiz produções traduzidas para o alemão e também em tcheco. Janácek concebeu a ópera tendo em mente a língua – como Richard Strauss em O cavaleiro da rosa ou Verdi em Falstaff, óperas que não funcionam se traduzidas. As opções de tradução seriam alemão ou inglês, o que soa absurdo no Brasil. Além disso, Janácek não ficou muito contente com as traduções de Max Brod para o alemão. Internacionalmente, essas óperas são feitas em tcheco, e o Theatro São Pedro está realizando uma declaração artística ao fazê-las no original, como acontece no resto do mundo.

Como você definiria O caso Makropulos em comparação com as outras óperas de Janácek?
AHL – Tive uma grande sorte, que foi fazer as óperas de Janácek na cronologia certa – Jenufa, Kátia e Makropulos – e que é um pouco a ordem da evolução dele como compositor. É curioso como, tanto em Jenufa como em Kátia – dramas muito naturalistas, com um quê de expressionismo –, os personagens são ditados por um destino do qual não escapam. E Emilia Marty é a pessoa que escapou do destino. Ela vai apodrecendo por dentro e se tornando completamente vazia, porque nada é importante para ela. Não é à toa que Karel Tchápek [autor do texto em que a ópera se baseia] é o criador do termo “robô”. De certa maneira, ela é um robô. A genialidade de Janácek foi criar um texto que originalmente tem um quê de comédia e jogá-lo em um âmbito completamente diferente.
IL – É uma ópera com tema profundo, que discute o sentido da vida. Então, é mais difícil: o público tem que ser paciente e saber que haverá algo incrível no fim. O primeiro ato é a exposição da história, com música mais dura. Gradualmente, ela fica mais quente, a temperatura emocional cresce. O púbico deve estar consciente de que é uma ópera em que tudo é construído na direção do fim, do clímax. No terceiro ato, tudo floresce, e o fim é impressionante. É muito difícil para a orquestra. Jenufa ainda tem gestos do romantismo tardio. Em Kátia já aparece um som orquestral  “estranho”, “contra as regras”. Por exemplo: instrumentos tocando nos extremos de seus registros, sem nada no meio. Makropulos é ainda mais difícil que Kátia, com solos muito exigentes. 

Como é sua concepção de O caso Makropulos?
AHL – Eu pedi a Renato Theobaldo que a gente partisse do cenário original de Josef Tchápek [irmão de Karel Tchápek] para criar o primeiro espaço e, a partir dele, entender o espaço da ópera. Ao mesmo tempo, como a ideia é fazer um ciclo, eu queria criar um link com Kátia Kabanová. O original é marcado com escadarias, que remetem a Escher. De Kátia, aparecem as palafitas e a floresta. O segundo ato é dominado por uma cortina gigantesca, referência a outro pintor contemporâneo a Janácek: Edvard Munch. É o céu de O grito, de Munch, aumentado. E o último ato é todo negro, só com uma porta.  

Como é trabalhar com André Heller-Lopes?
IL – Ele é altamente profissional e conhece as óperas muito bem, o que nem sempre é o caso. Na Alemanha, às vezes os diretores fazem cortes nas óperas porque há partes que não casam com seus conceitos. Regi uma produção de Oedipe, de Enescu, que teve um ato inteiro cortado porque não combinava com o conceito do diretor. Com André, isso não acontece. Ele conhece o texto e a música, e eu me sinto seguro com ele.

Como é trabalhar com Ira Levin?
AHL – Nós adoramos trabalhar juntos! A gente briga a respeito de uma só coisa: ele gosta de Haydn, e eu gosto de bel canto. O profissionalismo do Ira, a exigência de qualidade dele, eu entendo muito bem – é uma coisa que também busco. Aqui no Brasil, todo mundo que tem essa seriedade acaba sofrendo um pouco com isso. Leva muito tempo até que as pessoas não achem que você é pedante. Ele tem bastante rigor no trabalho, uma demanda grande dos cantores, mas sinto que os cantores se sentem muito à vontade com ele. A gente tem uma linguagem muito parecida, o senso de humor… A gente cria uma estrutura de rigor no trabalho, para depois ter a liberdade. Eu incluiria ainda nesse trio Eliane Coelho, que é importante. Eles trabalharam juntos muito tempo atrás, em Kassel, e, ao longo dos últimos dez anos, ela vem sendo uma parceira incrível, que muito me honra. Eu acho que decidimos por Janácek porque tínhamos os elencos. Você tem que escolher a ópera pelo elenco que tem, não por um desejo pessoal.

Obrigado pela entrevista. 


AGENDA
Ópera O caso Makropulos, de Leos Janácek
Ira Levin
– direção musical e regente
André Heller-Lopes – direção cênica
Dias 12, 14, 16, 19, 21 e 23, 
Theatro São Pedro (São Paulo)