Jocy de Oliveira estreia na Inglaterra ópera feita para o cinema

por Luciana Medeiros 20/02/2019

O cinema sempre namorou a ópera. Muitas adaptações do palco para a tela foram feitas ao longo do século XX e são numerosas as gravações de performances. A compositora Jocy de Oliveira, no entanto, acaba de fazer a estreia mundial de uma ópera para o cinema. E garante que essa, sua nona ópera, será sua última incursão no gênero. Liquid Voices – A história de Mathilda Segalescu foi filmada em 2017 no teatro em ruínas do Cassino da Urca, no Rio de Janeiro. A locação, cedida pelo Istituto Europeo di Design, é impressionante: o teatro que viu dias de glória está no osso, mostrando sua completa destruição; ali foi montada uma piscina, sobre a qual pende um piano que sofreu a ação do tempo e da água. A ópera teve sua estreia mundial nessa quarta-feira, 20 de fevereiro, na mostra competitiva do London International Filmmaker.

A ficção é situada no bojo de um fato verídico – o trágico naufrágio do Struma, precário navio que levava 700 judeus da Europa para a Palestina, em fuga do nazismo, na Segunda Guerra. Mas a história é centrada na personagem ficcional Mathilda Segalescu, cantora que está entre os passageiros com seu único companheiro – o piano –, e num pescador árabe que se apaixona por ela, ou melhor: pelo seu espectro.  

Nos papeis protagonistas, a soprano Gabriela Geluda, constante parceira de Jocy, e o tenor Luciano Botelho, atualmente radicado na Europa – na Inglaterra e em Portugal. O acompanhamento – simultâneo, como acontece numa apresentação ao vivo – é feito pelo Ensemble Jocy de Oliveira. A ópera teve uma versão encenada, em São Paulo, em 2017, mas seu DNA é mesmo cinematográfico. 

Aqui vai a história real do navio. Saindo da Romênia, o já danificado Struma, sem motor, pede um SOS à Turquia para rebocá-lo até o porto de Istambul. Mas os turcos estabelecem uma quarentena de dois meses: ninguém entra, ninguém sai. Os suprimentos rareavam. Novamente rebocado a mando do governo da Turquia, é deixado à deriva em pleno Mar Negro, quando acaba afundando, atingido por um torpedo russo. 

Na história de Jocy, um pescador árabe se depara com a visão de Mathilda e se apaixona por essa figura espectral.  Com esses elementos, a história se liga também a questões que a contemporaneidade está vivendo e revivendo – preconceito étnico e religioso, levas de imigrantes sendo rejeitadas. 

“Liquid Voices”, de Jocy de Oliveira
Cena de “Liquid Voices”, de Jocy de Oliveira [divulgação]

 

Última ópera

Jocy assina não apenas a concepção e a criação de Liquid Voices, mas também a direção musical e cênica do filme assim como toda a produção (pela Spectra, sua companhia).   

“Sempre me envolvi em todas as etapas de produção das minhas óperas e performances”, conta. “Não por desejo de controle total, mas porque é a condição de base para, no Brasil, levar uma obra. Especialmente sendo mulher. Não farei mais óperas, mas continuarei compondo.”

Liquid Voices tem parentesco direto com o vídeo Noturno de um piano, de 2006, em que o instrumento é jogado ao mar e vai afundando enquanto uma pianista toca.

“São vários naufrágios simbólicos ali: de minha vida como intérprete, da própria cultura musical tradicional do Ocidente nos dias de hoje”, explica a compositora. “O piano naufragado volta aqui com toda essa carga de significado e mais as questões dos nossos tempos, com os dramas das minorias e dos refugiados.”

A compositora Jocy de Oliveira [divulgação / Guga Melgar]
A compositora Jocy de Oliveira [divulgação / Guga Melgar]