Aos 24 anos, pianista nascido no Pará está matriculado na classe de Konstantin Sherbakov, em Zurique
A ligação de Jordan Alexander com a música começou como muitas outras histórias de pianistas: vendo – e ouvindo – a irmã mais velha tocar. Nascido em Paraupebas, no Pará, mas criado desde cedo na mineira Ipatinga, tinha seis anos quando viu Jennifer, de oito, se apresentando na festa de fim de ano da escola de música do bairro, chamada Mozart. “O engraçado é que eu estava na aula de bateria e ela queria era tocar guitarra, mas a convenceram de experimentar o piano. E pedi para trocar.”
O jovem pianista acaba de ganhar o importante Prêmio Citi, em São Paulo, mais um dentre muitos que faturou na carreira. Aos 24 anos, está matriculado na classe de Konstantin Sherbakov, em Zurique.
A casa da família era muito musical. O pai, engenheiro mecânico, tocava cornet – um instrumento de sopro bem diferente – e a mãe, saxhorn, ambos na banda sinfônica. “Era o hobby deles. Meu pai sempre sonhou ser músico. E aos nove anos, ganhei meu primeiro concurso.” A partir daí, as aulas se intensificaram, com a professora Júnia Santiago e, mais tarde, com Júnia Canton, em Belo Horizonte. “Mas, olha: até certo ponto, eu queria era ser jogador de futebol.”
O caminho de Jordan só se definiu quando os dois irmãos – sim, Jennifer também seguiu no piano e faz mestrado em Portugal – foram convidados para se apresentar como solistas com a Filarmônica de Minas Gerais. “Eu tinha 17 anos, tocamos O Carnaval dos animais, de Saint-Säens, nos Concertos para a Juventude. Foi a virada de chave.” Seguiu para o bacharelado na USP, na classe de Eduardo Monteiro. E numa master class de um dos alunos de Monteiro, Richard Kogima, logo na primeira semana de aulas, Jordan fez outra virada de chave.
“Richard virou uma inspiração e, quando estava acabando o curso, pedi orientação – e ele me apresentou Konstantin Sherbakov, que foi professor dele, que dizem ter o ‘som dourado’. Mandei tudo, vídeos, currículo e fui aprovado. Vim para Zurique estudar com ele na Universidade das Artes.”
E ganhou uma pequena bolsa – “que quase cobria meu aluguel”, ele conta. “Mas sobrevivi um dia de cada vez, com apoios, bolsas de fundações.” Ganhador de mais de 70 concursos, levou em 2022 o prêmio Nelson Freire no Festival Internacional de Piano do Rio de Janeiro, dirigido por Lilian Barretto. “Lilian me acompanha desde que eu tinha 12 ou 13 anos de idade, me deu aulas e preparação. Fui bolsista desse festival, que tem uma ação forte na descoberta de pianistas jovens. E também teve os primeiros lugares no concurso Guiomar Novais e no concurso do Festival Almeida Prado, em 2020. Em Zurique ganhei o concurso interno em homenagem a Mozart em 2023 E eu toquei as Dozes Variações em si bemol maior, que eu mesmo escrevi as variações, as improvisações.”
A lista dos concursos que Jordan ganhou é longa. Muito longa. Além dos concursos Villa-Lobos e Guiomar Novais, vale listar alguns: Festival Pianale (Alemanha); Semana Internacional de Piano da Cushing Academy (EUA); Festival de Piano Leonel Morales, (Espanha); Festival de Inverno, em Campos do Jordão, o Concurso de Piano Edna Bassetti Habith; Chopin International Piano Competition in Hartford ;e Forte International Music Competition, no Carnegie Hall, em Nova York.
Com toda essa dedicação, o ecletismo de Jordan é extenso – não apenas combinou as teclas com bateria e bola no pé, mas seguiu gostando de um arco amplo de estilos. musicais “Toco de Roberto Carlos a Shostakovich”, ele brinca. “Desde que me mudei para São Paulo, aos 17, sempre trabalhei como pianista, como correpetidor, como camerista, solista também. Gosto do barroco até, digamos, a metade do moderno. E gosto de ter estilos bem contrastantes nos programas.” E mais uma revelação: “Aqui na escola, por exemplo, a minha especialização na matéria de improvisação é bossa nova. Toquei bateria nessa improvisação. Adoro também jazz”.
No prêmio Citi, agora em setembro, “não foi bem assim”. “Toquei um repertório predominantemente romântico, um prelúdio de Rachmaninov e um Liszt, Paraphrase de concert sur Rigoletto S.434.”
“O prêmio do Citi foi providencial, claro.” O desafio agora é apoio financeiro para o segundo ano de mestrado para esse jovem alto, simpático e extremamente talentoso, ex-bolsista do Cultura Artística, para dar sequência ao seu mestrado na Universidade de Zurique, com o mestre Scherbakov. O mecenas que se dispuser a ajudar pode ganhar a alegria de apoiar um grande artista em formação. E, quem sabe?, até aulas de bateria e do bom futebol brasileiro de lambuja.
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