
Claudio Santoro (1919–1989)
1-3 – Viola Concerto (1988)
4-7 – Symphony No. 13 (1988)
8-10 – Concerto for Chamber Orchestra (1988)
11-13 – Symphony No. 14 (1989)
Gabriel Marin – viola
As últimas obras de Claudio Santoro são marcadas por grande concisão e considerável densidade emocional e a música registrada neste álbum foi composta nos últimos meses de sua vida. O "Concerto para Viola" e o "Concerto para Orquestra de Câmara" justapõem uma energia inquieta e um lirismo expansivo – ainda que por vezes desolador. A poderosa "Sinfonia nº 13" demonstra o domínio de Santoro sobre a orquestração e a forma em seu ápice, e a concisa "Sinfonia nº 14" seria a última de um ciclo amplamente aclamado como o mais significativo do gênero já composto no Brasil e que vem recebendo destaque no projeto Música do Brasil da Naxos em parceria com o Instituto Guimarães Rosa com a gravação de todas suas sinfonias com a Orquestra Filarmônica de Goiás e o maestro Neil Thomson.
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Texto do encarte
Claudio Santoro (1919–1989)
Sinfonia nº 13 • Sinfonia nº 14 • Concerto para viola e orquestra • Concerto para orquestra de câmara
No começo de 1988, Claudio Santoro tentava equilibrar as posições de professor da Universidade de Brasília e de regente titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília, à qual retornara três anos antes, com a atividade de compositor. Aproximava-se o seu aniversário de 70 anos, no ano seguinte, e, com ele, comemorações previstas em várias partes do mundo. O ano, porém, começara sob o signo das polêmicas geradas pela recém-empossada nova direção da Fundação Cultural de Brasília, à qual era subordinada a orquestra sinfônica. A crise atingiu todo o meio cultural da cidade, mas o Teatro Nacional, sua orquestra e Santoro, em particular, estiveram entre os principais centros do conflito ao longo do ano.
Em meio às disputas com a direção da Fundação, em meados de maio de 1988, Santoro concluía o concerto para viola e orquestra, um dos poucos do gênero compostos no Brasil. As circunstâncias de sua composição não estão bem documentadas, não se sabendo se foi uma obra de encomenda ou de iniciativa do compositor; o manuscrito também não tem dedicatória. Como todas as obras da última fase de Santoro, o concerto prima pela concisão do seu discurso e pela alta densidade emocional.
O primeiro movimento se abre de forma vigorosa, com um tema de caráter rítmico, que logo dá lugar a um segundo tema mais expressivo. Após um episódio intermediário puramente orquestral, o retorno do primeiro tema dá impulso rítmico ao movimento, até a coda abrupta. O segundo movimento é uma meditação lírica, conduzida por um longo canto da viola sobre um acompanhamento discreto de harpa, celesta e cordas. Apenas um momento de inquietação do solista (quasi cadenza) interrompe esse ambiente, mas o movimento se encerra tranquilamente. O terceiro movimento começa em contraste total com o anterior, num tutti orquestral angustiado que apresenta o tema principal, retomado pela viola solista em sua primeira intervenção. O movimento é o mais essencialmente sinfônico dos três, o que não retira do solista a possibilidade de exibição técnica. O concerto se encerra com uma alusão ao gesto do fim do primeiro movimento. A obra foi estreada em São Paulo, em 20 de abril de 1989, por Marie-Christine Springuel como solista da Orquestra Sinfônica Municipal, regida por Silvio Barbato.
O concerto parece ter despertado um sentido de urgência para Santoro, que começa a produzir quase ininterruptamente a partir de então. Seguem-se a Suíte para violoncelo solo, composta a partir de uma peça de confronto composta em 1984 para um concurso, e o ciclo de canções O Soldado, sobre textos do poeta Alexis Zakythinos, então embaixador da Grécia em Brasília - as nove canções do ciclo foram compostas num espaço de apenas dez dias.
Logo a seguir, em julho de 1988, Santoro compõe o Concerto para orquestra de câmara por encomenda do pianista Miguel Proença, então Secretário de Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro, e estreada pouco depois, em 13 de agosto, pelo próprio Santoro regendo a Orquestra de Câmara da Cidade do Rio de Janeiro. É uma obra curta para orquestra de cordas, escrita originalmente para 16 instrumentos solistas, provavelmente atendendo ao efetivo da composição da orquestra à época. O primeiro movimento (Andante) é meditativo, com frases amplas e grandes contrastes dinâmicos. O segundo movimento (Moderato) é construído sobre um gesto principal de notas fortemente marcadas em saltos de grandes intervalos e com partes muito divididas, o que o faz dialogar fortemente com o Concerto Grosso, de 1980. A obra se encerra com um breve epílogo (Lento), numa atmosfera lírica, mas de enorme desolação, que o suave acorde final de fá maior não consegue disfarçar.
Santoro fazia planos para a sua Sinfonia nº 13 desde 1987, mas só conseguiu escrevê-la de fato em agosto de 1988, ao tirar licença de suas atividades na universidade para dedicar-se à composição por um ano. A obra é um dos principais documentos dessa fase final, sobretudo por não ter sido fruto de encomenda, mas uma expressão livre do compositor. É uma obra ainda mais dramática do que a Sinfonia nº 11, também obra de um período de crise pessoal, e surpreende pela veemência dos gestos e afirmações.
A sinfonia tem os quatro movimentos convencionais; no entanto, Santoro constrói a obra como um grande arco do começo ao fim, o que dá a esta sinfonia características únicas no ciclo. O primeiro movimento funciona como uma espécie de prólogo para a sinfonia inteira: relativamente breve, abre-se com uma introdução misteriosa, que conduz a um primeiro clímax em que se apresenta a célula rítmica motriz do movimento. O discurso é furioso, numa atmosfera violenta que não encontra paralelo no restante do ciclo. A orquestra mantém-se durante praticamente todo o movimento nas dinâmicas fortes, com uma escrita muito exigente para as cordas. O desfecho é surpreendente: quando se parece ter atingido o ponto culminante, os violinos são deixados sós na região aguda, decrescendo até desaparecer, como se fossem reticências de uma frase.
O segundo movimento não é formalmente encadeado ao primeiro, mas o desfecho em suspenso do anterior acaba conduzindo a uma percepção de continuidade. No entanto, o movimento não oferece o repouso esperado em contraste ao anterior. Os solos iniciais, num ritmo moderado e invariável de 6/8, parecem indicar uma espécie de barcarola: no entanto, a orquestra rapidamente retoma as dinâmicas extremas do primeiro movimento, sem jamais abandonar o balanço. O que parece repouso gera ainda mais desconforto e tensão.
O scherzo é mais um exemplo da habilidade exímia de Santoro na composição desses movimentos: brilhantemente orquestrado e vigoroso, é certamente o momento mais luminoso da sinfonia, apesar das nuvens negras que surgem ocasionalmente ao longo da peça. O final, por sua vez, é predominantemente sombrio, e retoma ideias anteriores, sobretudo do primeiro movimento: a introdução com os metais remete aos pontos culminantes daquele movimento, cuja célula motriz dá origem ao primeiro tema do Allegro intermediário é retomada literalmente ao longo do desenvolvimento. Após um momento mais reflexivo, a orquestra retoma o final do primeiro movimento e dá a ele finalmente a resolução tão aguardada, solucionando o mistério do prólogo. Santoro não ouviu a execução da sinfonia, que foi estreada apenas em 16 de julho de 2025, em Goiânia, pelos mesmos intérpretes desta gravação, produzida antes da estreia em concerto.
A Sinfonia nº 14 foi encomendada pela Funarte em 1988 para a VIII Bienal de Música Brasileira Contemporânea, a ser realizada no ano seguinte, coincidindo com os 70 anos do compositor. Em janeiro de 1989, Santoro voltou à Casa de Brahms para mais uma curta temporada. Nessa última passagem pela casa, fez a revisão da Sinfonia nº 12 e da ópera Alma, e escreveu a Sinfonia nº 14 em apenas duas semanas. O manuscrito indica na primeira página “Começada na Brahms-Haus, janeiro de 1989” e, na última, a data de 19 de janeiro para a conclusão. É uma das mais curtas do ciclo; em comparação com a sua antecessora, a 14ª é mais convencional na forma, mas surpreende pela eficiência da concisão do discurso. São três movimentos equilibrados em dimensões.
Este é o começo mais vigoroso de todas as sinfonias do ciclo: notas fortemente articuladas nos violinos, com ataques pontuados pela percussão e pelos sopros, síncopes, intervalos de segunda menor, rajadas de semicolcheias. Um segundo tema expressivo é apresentado pelas cordas logo a seguir. Os dois temas se alternam algumas vezes ao longo do movimento, até a conclusão algo surpreendente, com um inesperado e original contraste dinâmico. Após um lírico segundo movimento, segue-se o final, totalmente construído a partir do motivo apresentado logo no primeiro compasso pelos graves da orquestra, que passa por sucessivas transformações (inversões, variações rítmicas) e aparições nos diversos naipes ao longo da peça. O desfecho algo repentino e abrupto da sinfonia tem um contexto anedótico: segundo relatos da família, Santoro chegava ao fim do seu período na Alemanha e também… do papel pautado. Não encontrando mais papel disponível para compra, optou por condensar o final para terminar a obra ali, antes de voltar ao Brasil. Na última página livre do manuscrito, Santoro escreveu ainda um recado para sua esposa Gisèle, a quem dedicou a sinfonia: “Espero que você goste desta 14ª. Já é demais… Não devo escrever mais sinfonias.”.
Em 27 de março de 1989, Santoro saiu de casa para o ensaio do concerto de abertura da temporada da orquestra do Teatro Nacional, que seria no dia seguinte, e não voltou. Durante o ensaio, enquanto regia a orquestra, sofreu um enfarte fulminante no pódio e morreu pouco depois de chegar ao hospital. A morte do compositor foi amplamente noticiada pela imprensa à época, com depoimentos de várias personalidades do meio musical apresentando cartas e relatando telefonemas de um Santoro exasperado e pressionado pelo embate com a Fundação, e publicamente atribuindo a sua morte à perseguição imposta pela direção. O Teatro Nacional de Brasília foi batizado com seu nome no fim do mesmo ano, e a Sinfonia nº 14 foi finalmente estreada no Rio de Janeiro, pela Orquestra Sinfônica Brasileira, regida por Ricardo Prado, no concerto originalmente previsto para ser a comemoração do aniversário de 70 anos do compositor, em 23 de novembro de 1989.
A sinfonia, porém, não foi sua última obra. Amigos e familiares relatam que, nas últimas semanas de vida, Santoro já dizia ter concebido o material para mais duas sinfonias, mas queixava-se de não ter tempo para as escrever. Em vez delas, Santoro ainda deixou uma última e breve canção, datada de 8 de fevereiro, sobre o segundo Wandrers Nachtlied, de Goethe, numa escolha de texto que parece mesmo premonitória:
Über allen Gipfeln
Ist Ruh,
In allen Wipfeln
Spürest du
Kaum einen Hauch;
Die Vögelein schweigen im Walde.
Warte nur, balde
Ruhest du auch.
Johann Wolfgang von Goethe (1749–1832)
Sobre todos os picos
A paz,
Em todas as copas
Não mais
Que um sopro manso;
Silêncio das aves na floresta.
Espera, que pouco resta
Para o teu descanso.
Gustavo de Sá
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