Com Thomazinho e Titinger, Osesp faz grande concerto

por Nelson Rubens Kunze 02/04/2019

Na semana passada, a programação da Osesp dava ao menos três ótimos motivos para ir à Sala São Paulo: primeiro, a audição ao vivo no Brasil de uma obra de Roxanna Panufnik, compositora britânica que tem chamado atenção pelo mundo; segundo, a estreia com a Osesp do jovem pianista brasileiro Lucas Thomazinho, executando a Totentanz de Liszt; e, terceiro, ouvir a igualmente jovem soprano Camila Titinger na Quarta sinfonia de Gustav Mahler (ouvi Camila fazendo a mesma obra com a Filarmônica de Minas Gerais, ano passado, e foi muito bom – leia aqui). Fora, claro, a espetacular Osesp, Marin Alsop e a Sala São Paulo, que já valem a visita. Acho que o público também reconheceu todos esses motivos, pois no concerto de sexta-feira (dia 29) a sala estava praticamente lotada. E valeu a pena, foi um grande concerto!

Roxanna Panufnik tem 50 anos e nasceu em Londres, de uma família polonesa. Conforme reportagem de Pwyll ap Siôn, da Gramophone, publicada na Revista CONCERTO em setembro passado (página 20), Roxanna utiliza “o poder da música para unir pessoas de diferentes culturas, credos religiosos e práticas políticas”. Nas palavras da própria compositora, “estou na missão de bradar, do topo do telhado, sobre a beleza da música de todas as crenças diferentes. A questão é nos juntarmos. Com muita frequência, não pensamos no que temos em comum, e sim nessa minúscula fração que nos diferencia uns dos outros”. E de fato, a obra apresentada, Cruzando a linha dos sonhos, tem mesmo essas características. Escrita este ano (a peça acaba de estrear em Baltimore, nos EUA), a partitura pede duas orquestras, dois coros e foi dirigida por duas maestrinas, Marin Alsop e Valentina Peleggi. Com texto escrito por Jessica Duchen, Cruzando a linha dos sonhos conta a história de duas mulheres nascidas na década de 1820 – uma escrava negra norte-americana e uma princesa indiana –, que, cada uma a sua maneira, viveram para libertar os seus povos. Cada orquestra, coro e maestrina representa uma das mulheres. Com criativas combinações tímbricas – vozes, sopros, percussão, cordas – e uma bem marcada pulsação rítmica, a obra – também pela disposição dos músicos e maestrinas no palco – tem forte apelo acústico e visual. Com convicção, foi muito boa a performance da Osesp e dos coros, com boa interação entre as maestrinas.

Seguiu-se a Totentanz, Dança dos mortos, de Liszt, uma das grandes páginas do virtuosismo romântico para o piano. E foi espetacular a participação de Thomazinho, que, de diminutivo, além do nome, não tem nada. Com energia, extraindo rica paleta de cores do instrumento, e um ótimo controle técnico sobre a exigente escrita de Liszt – com um toque que ia de uma delicada ourivesaria até escalas e glissandos que lembravam colares de pérolas – , Thomazinho demonstra uma maturidade rara para sua idade – ele tem 23 anos! E a Osesp e Alsop acompanharam em perfeita sintonia, estabelecendo um ponto alto do programa. (No bis, Thomazinho ainda tocou a Toccata de Guarnieri, também com absoluta personalidade.)

A segunda parte do programa teve a Sinfonia nº 4, de Gustav Mahler. Escrita entre os anos de 1899 e 1901, esta é a última das chamadas Sinfonias Wunderhorn, que são as sinfonias inspiradas no caderno de poemas populares chamado Des Knaben Wunderhorn (A trompa mágica do menino). Na Quarta, a orquestra tem uma formação mais reduzida que nas sinfonias anteriores e a estrutura formal também é mais clássica, de quatro movimentos. O movimento final traz a canção “Das himmlische Leben”, A vida celestial, com versos carregados de ironia. Apesar da sinfonia também conter os tons introspectivos e sombrios típicos da escrita mahleriana, no fim é um sentimento de paz e serenidade que se sobrepõe.

E foi excelente a apresentação da Osesp, seguindo uma leitura muito orgânica de Marin Alsop. A maestrina soube equilibrar bem a sobriedade dos motivos mais ritmados com o lirismo das passagens mais emocionais. Alsop também logrou construir o largo arco do discurso musical até alcançar o ponto nevrálgico do último movimento, em uma emocionante trajetória musical (apesar de uma inesperada e lamentável interrupção no terceiro movimento, motivada por um espectador que, aos gritos, atacava a Globo, Gilmar Mendes, Dias Toffoli – ninguém entendeu muito bem por quê ou para quê...).

Igualmente convincente – e emocionante – foi a intervenção solística de Camila Titinger, que, com bonita voz e equilibrada projeção, mostrou por que acaba de ser selecionada para participar do concorrido Concurso BBC Cardiff Singers of the World.

Concerto da Osesp teve o pianista Lucas Thomazinho e a soprano Camila Titinger como solistas [Revista CONCERTO]
Osesp teve o pianista Lucas Thomazinho e a soprano Camila Titinger como solistas [Revista CONCERTO]

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Em tempos sombrios para a cultura no estado de São Paulo, uma breve reflexão. O concerto acima foi o terceiro programa da Osesp na Sala São Paulo neste ano, após o retorno da orquestra de sua turnê para a China. Também assisti ao primeiro, gratuito e igualmente excelente, um concerto inteiramente dedicado a Camargo Guarnieri, com solistas da orquestra, que foi gravado e será lançado pela coleção “Brasil em concerto”, do Ministério das Relações Exteriores e do selo Naxos. O segundo programa, semana retrasada, teve o violinista virtuose Augustin Hadelich interpretando o concerto de Sibelius, além de obras de Villa-Lobos e Dvorák, sob regência de Isaac Karabtchevsky.

Considerando que cada programa tem três apresentações, descobrimos que, no intervalo de 3 semanas, mais de 10 mil pessoas puderam assistir, ao vivo, à música sinfônica da melhor qualidade, com um repertório que vai dos maiores compositores brasileiros aos grandes mestres universais, e com a participação de solistas e maestros brasileiros e estrangeiros, consagrados ou jovens, todos eles brilhantes. Os programas da Osesp foram gravados pela rádio e pela TV Cultura e ali foram ou serão retransmitidos, atingindo mais dezenas de milhares de pessoas. A Osesp é uma injeção de cultura no seio da sociedade!

A Organização Social Fundação Osesp, mantida pelo estado, estabeleceu um paradigma no Brasil para a gestão de equipamentos culturais, e serve de modelo quando se fala em eficiência e eficácia do investimento de recursos públicos. Quem dera outras áreas de responsabilidade da esfera pública – saúde, educação, segurança, habitação – pudessem exibir resultados tão expressivos e positivos...

 

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