Dudamel, Berlim e a “cara” da nova música clássica

por Leonardo Martinelli 07/11/2018

Ao longo dos próximos dias, a Orquestra Filarmônica de Berlim pega suas malas e contêineres para realizar mais uma Asia Tour [link], que iniciando-se em Nakhonpathom, na Tailândia, passará também por salas de concertos em Taiwan e na China. Apesar do austro-russo Kirill Petrenko ter assumido há poucas semanas o comando artístico do grupo, caberá a Gustavo Dudamel, hoje com 37 anos, conduzir a orquestra em suas apresentações pelo oriente.

Detentores de estilos musicais diferentes entre si, ambos os maestros são superlativos em seus talentos e atividades, e desta forma qualquer tipo de comparação entre eles deve se limitar às peculiaridades do estilo de cada um, sem demérito a nenhuma das partes. Entretanto, ao escalar Dudamel para essa empreitada, a mais icônica e influente orquestra do planeta passa um recado...

Uma vez que essa turnê ocorrerá em países onde a tradição musical clássica é relativamente “recente”, delinea-se uma ação que visa angariar território tanto do ponto de vista simbólico como comercial. Trata-se de arregimentar novos públicos, e esses públicos desejam uma música clássica de excelência, porém de caráter expansivo, espetacular e carismático, predicados associados de forma recorrente à figura de Dudamel. Esse, inclusive, foi o tom de um extenso perfil recentemente publicado pelo prestigiado jornal The New York Times (clique aqui para ler): “O que faz o superstar Gustavo Dudamel tão bom?” é a pergunta-título do artigo. Parte dessa resposta a Revista CONCERTO teve a oportunidade de conferir ao vivo, ainda em Berlim, em um dos concertos preparatórios da Asia Tour.

Gustavo Dudamel [Divulgação]
Gustavo Dudamel [Divulgação]

Na ocasião, Dudamel regeu a Sinfonia nº 1, Jeremias, de Leonard Bernstein, e a Sinfonia nº 5 de Shostakóvitch. Para além do “repertório fiesta” – isto é, de obras sinfônicas de compositores latino-americanos neoclásssicos do século XX – Dudamel se destaca também na interpretação de compositores fora de seu nicho geográfico-cultural, e as sinfonias do russo Shostakóvitch, de fato, tornaram-se uma de suas especialidades.

Regendo de cor, Dudamel explorou como poucos as nuances de sonoridades presentes na partitura da Sinfonia nº 5. Mas também foi além, sabendo o momento certo de extrapolar as convenções já estabelecidas na interpretação dessa obra, ora conferindo cores mais sombrias às passagens de caráter mais introspectivo, ora quase a “latinizar” seus tutti. Generoso, não hesitou em dar plena liberdade expressiva aos solos de flauta (Emmanuel Pahud), oboé (Albrecht Mayer) e de trompa (Stefan Dohr), evidenciando o aspecto concertante dessa obra.

Isso em vista, foi curioso notar como na obra de abertura desse concerto, a primeira sinfonia de Bernstein (com solos da mezzo soprano Tamara Mumford), apesar de sempre competentíssimo, o regente não se mostrou plenamente à vontade em conferir uma interpretação mais natural e fluída. Ok, convenhamos, a própria escritura dessa peça é bastante ambígua estilisticamente, uma espécie de pré-Bernstein ainda carregado de influências pós-românticas, pontuado por curtos episódios de “latinidade apropriada”, que posteriormente se tornaria característica marcante de sua escritura.

Apesar da interpretação dessa sinfonia de Bernstein parecer um ponto negativo, na verdade ela revelou a força expressiva de Dudamel, que sabe lidar com partituras problemáticas, e no final das contas, sempre oferece a sua audiência uma experiência musical diferenciada, marcada por um tipo de energia toda própria, cada vez mais bem quista nas salas de concertos, e que talvez venha ser a cara da “nova” música clássica.