Aos 85 anos, em ótimo recital no Teatro Cultura Artística, Caio Pagano reafirma sua posição como um dos grandes artistas brasileiros da atualidade
Quando se fala em Caio Pagano, de imediato vem à mente a sua ligação com a música contemporânea – pelas estreias que realizou e pelos inúmeros compositores que escreveram obras para ele – e o professor com importante atuação nos Estados Unidos, onde trabalha na Universidade de Arizona desde a década de 1980. Mas desde sempre Pagano é um intérprete privilegiado do grande repertório histórico. Lembro-me de ter assistido a um recital dele há mais de 40 anos, no Masp, tocando as Variações Diabelli de Beethoven. E em 2010, quando Pagano comemorou 70 anos, a Revista CONCERTO produziu o lançamento no Brasil de um CD em que ele toca lindamente a Sonata nº 3 de Chopin e as Cenas infantis de Robert Schumann (clique aqui para ouvir no spotify).
Foi ótima a apresentação de Caio Pagano no Teatro Cultura Artística, ontem, 22 de março, dentro da série de Concertos Matinais. Foi a sua primeira apresentação no teatro desde a sua reinauguração, há dois anos – como todos sabem, o antigo Cultura Artística foi destruído por um incêndio em 2008. Para além disso, o recital também marcou os setenta anos da estreia de Pagano no Teatro Cultura Artística, em 1956, no início de sua carreira, como solista da OSB.
Caio Pagano está com 85 anos e diz que este será o seu último recital na cidade. Se for mesmo, é uma pena, pois em nenhum momento a sua performance pareceu limitada por sua idade. Ao contrário, o pianista se desvencilhou das dificuldades com a sua habitual maestria. Pagano voltou a demonstrar que é um intérprete de enormes recursos e um dos grandes artistas brasileiros da atualidade.
O recital iniciou-se com a Sonata nº 7 op. 10 nº 3 de Beethoven. Escrita em 1798, ela pertence ao primeiro período de criação do compositor. A interpretação de Pagano é cuidadosa e atenta, mas nem por isso intelectual – ele alcança o equilíbrio perfeito entre a estrutura formal estilística e a expressão emocional. Quem conhece Pagano e já viu ele analisando uma partitura, sabe que ali cada gesto musical é fruto de uma intenção artística maior. Achei especialmente marcante o segundo movimento, Largo e mesto, que soou muito bonito com toda a sua intensidade poética e dramática. Cada nota ganha o seu peso e acabamento tímbrico exatos, tensões e distensões se alternam em um profundo e tocante diálogo musical.
Após a relativa leveza e descontração do Minueto do terceiro movimento, Pagano recupera com grande brilho toda a energia da escrita beethoviana no Rondó final. Com técnica apurada e atenção aos detalhes, o pianista soube transmitir a riqueza dos diferentes segmentos do rondó até o inesperado final. O resultado foi bastante convincente!
A segunda parte do programa foi dedicada à Sonata nº 3 em si menor de Chopin, a mesma que está no CD distribuído pela Revista CONCERTO. Considerada uma das mais ambiciosas criações do repertório pianístico do século XIX, a obra, composta em 1844, combina virtuosismo e forte expressão lírica.
Novamente aqui, com impressionante concentração, Caio Pagano não apenas demonstra domínio técnico da partitura, mas transmite a sua mensagem musical. A abordagem é transparente, as frases ganham vida em rico diálogo sobre as figurações harmônicas. Bem longe de qualquer afetação, as passagens líricas são criadas com emoção, alternando com momentos de intensidade arrebatadora.
No todo, também este recital de Caio Pagano é para guardar na memória. Para além de seu cuidadoso toque ao piano, da atenção à articulação e à dinâmica e de um uso sempre criterioso do pedal, o que sobressai é a maneira como ele constrói organicamente o discurso musical, em todas as suas dimensões, tanto na frase isolada quanto no arco de um movimento inteiro. Tudo faz sentido e quase que basta por si. Então, imagine a potência que resulta da obra completa. É todo um mundo de Beethoven, é todo um mundo de Chopin.
Muito aplaudido, Caio Pagano voltou para um bis, o Noturno op. 20 póstumo de Chopin, que, emocional e ao mesmo tempo leve em seu virtuosismo, foi um fecho adequado para a apresentação.
Da partitura mais singela aos maiores monumentos da criação musical, Caio Pagano extrai sempre a essência musical.
[Clique aqui para ler a entrevista que Caio Pagano concedeu a Irineu Franco Perpetuo e publicada na edição de março da Revista CONCERTO (acesso exclusivo para assinantes).]
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