Leibniz, Orwell, Huxley e o nosso dia-a-dia digital

por João Marcos Coelho 28/08/2018

É tamanho o volume diário de informação que a mídia e as redes sociais despejam em nosso notebook e/ou smartphone, que muitas vezes a gente passa batido por fatos, reflexões e dicas interessantes. Repasso a vocês um pouco do que me chamou a atenção, mesmo misturado na avalanche de informações na última semana:

 

No século 17, o filósofo Leibniz já se sentia bombardeado

Um artigo interessantíssimo da Economist, assinado por Tom Standage, diz que não é nova ou típica de nossa era digital a sensação de que deixamos passar muita coisa importante porque não temos tempo de processar nem 5% do que nos é torpedeado diariamente.

Erasmo, aquele mesmo que no século 16 escreveu o Elogio à loucura, já clamava em 1585: existe algum lugar na Terra livre deste enxame de livros que me mandam? E o filósofo alemão Leibniz constatava horrorizado, em 1680, a “pilha de livros que só aumenta à minha frente”. Informações pinçadas do livro Too Much to Know: Managing Scholarly Information before the Modern Age, de Ann Blair (Ed. da Universidade de Yale, 2010, existe versão digital).

Caramba, são sensações iguaizinhas às nossas. Não foi por acaso, portanto, que no século 17 começaram a surgir publicações especializadas, assinadas por acadêmicos, fazendo resenhas para ajudar intelectuais como Leibniz a escolher suas leituras. A partir disso, Tom Standage sugere que as pessoas tentem ir além dos “dias sabáticos digitais” que andam praticando por lá. O que precisamos é que os algoritmos do Google e da Amazon, entre outros, sejam aperfeiçoados para cada vez mais mostrar-nos apenas mais do mesmo – ou seja, outros títulos que tratem dos mesmos temas que já são nossos preferidos.

Como fica, então, uma das coisas mais gostosas da vida dos que apreciam os livros, que é justamente flanar por uma livraria e ser surpreendido por algum título? Lembrem do “Grande Irmão” e a “Polícia do Pensamento” de 1984, o incrivelmente profético livro escrito por George Orwell em 1948; e do Soma, a pílula da felicidade que a indústria cultural nos oferece 24 horas por dia, como no Admirável mundo novo, outro livro incrível, escrito em 1932 por Aldous Huxley. Não estamos tão longe disso como imaginamos.

Gottfried Leibniz [Reprodução]
Gottfried Leibniz [Reprodução]

 

Infelizmente, parece distante o empoderamento das mulheres compositoras

Num dos bilhões de blogs que “apertam a nossa mente” diariamente, alguém – não me perguntem quem, pois não me lembro – raciocinou que se mais da metade da população é constituída de mulheres, e que elas também são maioria nas salas de concerto no mundo inteiro, os programadores das nossas orquestras e concertos em geral deveriam escalar mais obras de compositoras mulheres.

Está aí uma observação importante. As mulheres compositoras de fato ocupam um lugar ínfimo nas nossas programações de concertos de todo tipo e tamanho. Fanny Hensel, por exemplo, é sempre citada como a irmã de Felix Mendelssohn, que era sua alma gêmea e “também compositora”. Pois o musicólogo Larry Todd, que em 2003 dedicou um livro de 750 páginas a Felix, ficou tão impressionado com a obra diversificada e volumosa de Fanny que lhe dedicou um volume de quase 500 páginas em 2009 – ambos publicados pela Editora da Universidade de Oxford. Nem assim as obras de Fanny começaram a ser mais programadas em concertos mundo afora. Agora, pare e pense: quando foi que você ouviu alguma obra de Fanny em concertos no Brasil?

 

Direitos autorais: Para os compositores, só mudou o algoz

Por conta de um projeto no qual tive o privilégio de conviver um pouco mais com o pianista, arranjador e compositor André Mehmari, fiquei sabendo de um fato nada auspicioso. Se antigamente, diz André, eram as poucas grandes gravadoras – as chamadas “majors” – que ficavam com a parte do leão e deixavam migalhas que raramente chegavam aos compositores, hoje em dia a situação permanece rigorosamente a mesma. Todo mundo fala da democratização do acesso do público à música gravada via Youtube e os serviços de streaming.

O que todo mundo esquece, lamenta André, é que o percentual destinado aos compositores é tão ridículo que – parece – ele ficou constrangido de revelar. E simplesmente não há com quem negociar. Ou você, músico, adere a este sistema perverso, ou está fora do mercado. Décadas ainda vão rolar até que esta relação se modifique na direção de uma remuneração mais justa para quem cria a música que ouvimos.