Isto é um país ou uma orquestra felliniana?

por Leonardo Martinelli 22/10/2018

Há 40 anos o diretor italiano Federico Fellini lançava o filme Ensaio de orquestra: seremos hoje a materialização de uma macabra metáfora social?

 

Em um dia qualquer numa orquestra sinfônica, uma equipe de televisão já se encontra pronta e filmando um documentário logo que o primeiro membro da instituição chega ao local de ensaios. Não se trata do regente, do spalla ou de um de seus músicos, mas sim do velho copista do grupo, que arruma com esmero as partituras de cada estante. De constituição frágil e aparência plácida, ele conta sobre o local de ensaios (não é uma sala de concertos, mas uma antiga capela), sobre sua acústica e um pouco do que era a vida musical em sua juventude. Bons tempos aqueles...

Conforme os demais integrantes vão chegando, a câmera segue registrando os depoimentos de cada músico, cada um com sua visão sobre a música, sempre a partir da perspectiva de seu instrumento e de sua função na orquestra. Ainda que ninguém negue que em grupo o essencial é o todo funcionar em harmonia, cada um acaba por defender que bom mesmo é seu instrumento. Logo eles não apenas passam a defender o seu naipe, mas também a reclamar e a fazer pouco da atuação de seus vizinhos. Risos francos de um lado, sorrisos amarelos do outro.

O regente chega, visivelmente desinteressado pelo documentário, pela orquestra, pela música, por tudo. Mas ainda assim o ensaio começa, e logo a câmera flagra o comportamento de músicos indisciplinados (quarenta anos atrás a “pausa para o WhatsApp” em pleno ensaio era um radinho de pilha transmitindo uma partida de futebol), de produtores e sindicalistas mancomunados, discutindo ao telefone favores e valores escusos. Ríspido e estúpido, o maestro reclama da falta de capricho de um, da nota errada do outro e é prontamente confrontado com um deboche ou um olhar cheio de ódio. É um impasse com os sindicalistas que determina a necessidade de um intervalo, recebido com alívio pelos músicos.

O velho copista volta a falar para a televisão. Consciente do estado de degradação moral e artística que a orquestra se encontra, a um dado momento, ele lembra com saudosismo dos “bons tempos” do antigo maestro, quando o terror, o medo e a violência física (os músicos recebiam com “alegria” os castigos físicos dados pelo regente quando erravam uma nota) andavam de mãos dadas com a excelência musical.

[Reprodução]
Cena do filme “Ensaio de orquestra” [Reprodução]

No camarim, longe dos músicos da orquestra, depois de dar a sua visão dos “velhos e bons tempos”, o maestro sintetiza a situação:

“Entre mim e meus músicos existe somente desconfiança, a dúvida que corrói a crença. Daí a falta de estima, o desprezo, o rancor: a raiva por algo que se perdeu e não será mais encontrado. E assim tocamos, unidos somente por um ódio em comum. Como numa família destruída.”

Assim que a frase é concluída, o maestro é chamado com urgência, e ao entrar na sala de ensaios, o caos está implantado: paredes pichadas, retratos de compositores maculados com fezes e um ruidoso coro que grita “Diretor, diretor! Não te queremos mais!” dominam o lugar. O maestro não se espanta, apenas senta-se placidamente, como que resignado, num canto à parte.

O caos se intensifica, e logo as palavras de ordem vão se transformando: ouve-se um “Orquestra, terror! Morte ao diretor”, e na sequência, “Orquestra, terror! Quem toca é um traidor!”. Enquanto alguns músicos se engajam, outros cinicamente riem da situação. O pódio do maestro é derrubado, e no lugar colocam um surreal metrônomo gigante. “Metrônomo, metrônomo, músico autônomo!” grita em coro a orquestra. Mas logo há quem nem o metrônomo defenda. Generaliza-se uma briga: mulheres são espancadas, colegas agora se agridem fisicamente com requintes de crueldade, não mais por “autodefesa”. A um dado momento, um velho violinista, assustado, surpreende a todos e dá tiros para o alto. Logo ele é dominado pelo sindicalista, que toma a arma de suas mãos.

Mas isso nem de perto é o fim ainda inconcluso dessa situação sem saída: orquestra e maestro estão irremediavelmente irreconciliáveis, e os próprios membros da orquestra agora nutrem entre si um ódio mortal. Para botar um ponto final a essa parábola, Fellini lança mão de um Deus ex machina, isto é, um recurso narrativo no qual a improvável aparição de um personagem ou de um evento resolve de forma quase instantânea e “milagrosa” todos os conflitos e tensões do enredo.

No filme, o “deus surgido da máquina” (tradução literal do termo em latim) é uma imensa esfera de ferro – daquelas de desenho animado, utilizadas em demolições – que se choca violentamente contra a parede do local de ensaio, cujos destroços e poeira encobrem a todos com uma espessa camada de trevas e desolação. Desesperados, os músicos se reúnem em torno do maestro, e com o rabo entre as pernas, pedem para que o volte a regê-los, literalmente entre os escombros.

Após algumas palavras consoladoras e reconfortantes do maestro, o ensaio é retomado. Mas após poucos compassos, ele interrompe a música para fazer algumas sugestões aos músicos. Logo o tom de cordial torna-se imperativo, e em instantes o maestro brada com uma ira até então não ouvida. A imagem gradualmente desaparece. Ficamos apenas a ouvir o colérico maestro a xingar os músicos. Os urros em italiano logo passam a ser feitos em alemão, e em segundos ganham a assustadora a semelhança com o timbre de voz um conhecido personagem da história recente: “Seid ihr Musiker oder nicht?”. “Vocês são músicos ou não?”, cobra o maestro.

A última frase do filme é proferida em italiano: “Signori, da capo!”. Ou seja, uma instrução musical para recomeçar o ensaio desde o primeiro compasso da partitura. Ou seja, tudo vai ser retocado, reouvido, revivido outra vez. É o que acontece numa luta na qual ninguém cede, onde todos derivam à espera da esfera de ferro felliniana, um Deus ex machina. Lutemos para que ele não venha. Que se ponha um fim aos ensaios desta nefasta partitura e que ela jamais seja tocada e ouvida novamente.

Minutos finais do filme: