Os sonhos que sonhamos

por Nelson Rubens Kunze 25/02/2019

Camerata Sesi Espírito Santo é exemplo de investimento que aposta no futuro

A semana passada terminou com a péssima notícia da extinção da orquestra e dos coros da Unisinos (leia aqui). A que ponto chegamos, para que uma universidade não se dê conta de que o fim de sua orquestra já significa a falência de parte de sua missão, que é, sim, a de extensão cultural e a do atendimento à comunidade. Uma orquestra simboliza de forma mais cabal o próprio conceito de “universidade”, pelas diversas competências que exige, pelo patrimônio histórico e artístico que carrega e pela comunicação que estabelece com a sociedade, para fora de si. A orquestra materializa a própria razão de existência da universidade. 

Parece que a Unisinos tomou essa decisão equivocada ofuscada pela crise financeira. Fui ao site da instituição e descobri que,“aos 49 anos, a Unisinos está entre as maiores universidades privadas do Brasil, com cerca de 31 mil alunos em cursos de graduação e pós-graduação”. A universidade, sediada em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, é mantida pela Associação Antônio Vieira, uma entidade sem fins lucrativos vinculada à Companhia de Jesus, que é a ordem religiosa dos jesuítas. 

A Unisinos não vai deixar de existir pelo investimento em uma orquestra e dois coros – que, diga-se de passagem, sempre foi muito modesto –, ainda mais considerando que 70% dos custos da orquestra eram cobertos por patrocínios angariados pela Lei Rouanet, ou seja, recursos de terceiros, no caso, públicos. Já a missão do conhecimento universalista e humanista da Unisinos sofre um arranhão nada desprezível. Não se fecha orquestras, muito menos em um país em que não há orquestras, em um país preso ao atraso. 

Também no site da instituição conheci o padre Marcelo Fernandes de Aquino, reitor da Unisinos, que no ano passado foi homenageado pela câmara municipal de São Leopoldo com o título de cidadão leopoldense. A sessão se encerrou com a apresentação do Quarteto de Cordas da Orquestra Unisinos Anchieta, essa mesma agora extinta. A notícia termina citando os “Destaques da Unisinos na gestão do Pe. Marcelo”, uma longa lista de todas as meritórias conquistas de seu trabalho. 

Não consta lá, ainda, a última decisão de sua gestão, sem dúvida um destaque, ainda que não tão meritório assim: “Extinção da Orquestra Unisinos Anchieta e de seus coros (fevereiro de 2019)”!

 

O sonho da Camerata Sesi-ES

Mas se há quem extinga orquestras (ou “descontinue”, no linguajar eufemístico da Unisinos), há outros que as fomentam – e até mesmo em tempos de crise. É o caso do Sesi Espírito Santo, entidade pertencente ao Sistema S, que há 11 anos mantém uma orquestra de cordas na cidade de Vitória, a Orquestra Camerata Sesi-ES. Criada e comandada pelo maestro Leonardo David, a Camerata Sesi-ES é um conjunto de 16 instrumentistas de cordas que realiza uma rica e diversificada temporada ao longo do ano, em Vitória e outras cidades do estado. Em 2019, a Camerata levará ao Espírito Santo artistas como Cristian Budu, Fábio Martino, Aleyson Scopel, Ernani Aguiar, André Cardoso, Licio Bruno, Paulo Mandarino, Luis Otavio Santos e Fabio Zanon, entre outros, e até promoverá, em parceria com a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo, um festival de ópera com Tosca, de Puccini, e O elixir do amor, de Donizetti (clique aqui para conhecer a temporada 2019 da Orquestra Camerata Sesi-ES).  

Fui conferir a abertura da temporada da Camerata Sesi-ES, no último fim-de-semana, no Teatro do Sesi em Vitória, que teve um concerto no sábado à tarde, repetido em formato “traga seus filhos” no domingo de manhã. Com o título “a era romântica”, a Camerata – ampliada com sopros, metais e percussão – apresentou a Sinfonia inacabada, de Schubert, e o Concerto nº 1 para violino e orquestra, de Paganini, tendo como solista o prodigioso garoto Guido Sant’Anna, de 13 anos (Guido foi vencedor do Prêmio CONCERTO 2018 na categoria Jovem Talento, leia aqui). 

Camerata Sesi-ES sob direção do maestro Leonardo David [Revista CONCERTO]
Camerata Sesi-ES, com Guido Sant’Anna e direção do maestro Leonardo David [Revista CONCERTO]

Apesar de compostas em um intervalo de menos de 5 anos, no início do século 19, as obras são bastante diferentes entre si. De um lado, o vienense Schubert, herdeiro direto da tradição de Mozart, Haydn e Beethoven, com sua sinfonia carregada de melancolia. De outro, o italiano Paganini, instrumentista diabólico que revolucionou a técnica do violino, com uma escrita que lembra Rossini e o belcanto. 

Ainda que equilibrada e buscando construir um discurso sinfônico coeso como pede a partitura da Inacabada, faltou à Camerata algo de densidade romântica no resultado sonoro, certamente também em consequência da “versão camerística” empregada (apenas 16 cordas). Já a escrita mais temática e narrativa do Concerto para violino de Paganini se prestou melhor à formação, e teve uma boa interpretação. Concorreu para isso o extraordinário talento de Guido Sant’Anna. À vontade no palco, Guido extrai um grande som do violino com uma agilidade impressionante. Muito aplaudido após as milhares de semicolcheias e fuzas de Paganini, Guido ainda teve disposição de encarar a igualmente virtuosística Balada de Eugene Ysaye. Sem dúvida, com mais maturidade e uma compreensão artística mais ampla, Guido será um instrumentista de expressão internacional.

No domingo, dentro da série Concertos Didáticos, a Camerata Sesi-ES repetiu trechos do programa em uma sessão familiar, em um contexto informal e de grande aproximação com o público – aproximação mesmo, já que a apresentação terminou com dezenas de crianças no palco e até uma pequena menina regendo a orquestra no colo do maestro...

Oxalá iniciativas como a do Sesi Espírito Santo prosperem, sejam apoiadas, reforçadas e se multipliquem pelo Brasil. Se desejamos um país justo e desenvolvido, é esse o sonho que deveríamos sonhar!

 

Orquestra Camerata Sesi-ES e as crianças [Revista CONCERTO]
Orquestra Camerata Sesi-ES e as crianças [Revista CONCERTO]

[Nelson Rubens Kunze viajou a Vitória e acompanhou a abertura da temporada a convite da Orquestra Camerata Sesi Espírito Santo.]