Céu, terra e mar – e muita chuva e vento!

por Nelson Rubens Kunze 07/08/2019

Choveu, e choveu muito. E fez frio. E a balsa paralisada em razão dos fortes ventos nos obrigou a passar a primeira noite no continente, em São Sebastião. Mas, apenas um dos quatro ótimos concertos que assisti no sábado dia 3 de agosto na Ilhabela, no Festival Vermelhos, já teria compensado as aventuras da viagem. 

Na ponta sul da Ilhabela, a uns 10 km da saída da balsa, situa-se o Centro Cultural Vermelhos. Ali, encostado no mar, em meio a exuberante mata atlântica, o advogado e empreendedor cultural Samuel MacDowell de Figueiredo fez construir um grande teatro de 900 lugares – o Teatro de Vermelhos –, um anfiteatro ao ar livre e uma pequena sala de música de câmara, a Sala do Porão. E ali, já há 5 anos, realiza o Festival Vermelhos Música e Artes Cênicas, matéria de capa da edição corrente da Revista CONCERTO.

Basta um rápida olhada na programação desta 5ª edição para se dar conta da ambição artística que move a empreitada. Entre os clássicos, nomes como Cristina Ortiz, Orquestra Sinfônica Municipal, Roberto Minczuk, Cláudio Cruz, São Paulo Companhia de Dança e o compositor Flo Menezes; entre os populares, André Mehmari, Amilton Godoy, Orquestra Jazz Sinfônica, Dori Caymmi, Jacques Morelenbaum e Maria Rita. Mas aqui, a distinção entre clássicos e populares realmente parece forçada, tal a comunhão que une plateia e artistas. 

Com escrevi acima, nós e muitas outras pessoas acabamos perdendo o show de abertura, “Voz e piano”, com a cantora Maria Rita. O espetáculo estava com todos os ingressos esgotados e, dado os transtornos que impossibilitaram a travessia à Ilhabela, a direção do Festival decidiu ressarcir o público que não conseguiu comparecer com ingressos gratuitos para outras atrações. Mas, finalmente no sábado, uma manhã cinza e chuvosa – mas sem ventos e sem fila na balsa – chegamos a Vermelhos, esse paraíso de natureza e arte. 

O primeiro programa do dia foi o duo Marcelo Bratke (piano) e Dori Caymmi (voz), no espetáculo intitulado “Céu, terra e mar” – como brincou Bratke, “quando montei o programa, acho que me esqueci da chuva e do vento” –, com canções de Villa-Lobos, Tom Jobim e Dorival Caymmi. Contando de sua história, de sua família, da Bahia e do Rio de Janeiro, parece que Dori fez baixar na Ilhabela os santos desses três gênios da música brasileira, especialmente os de seu pai Dorival Caymmi, tal a emoção que tomou conta do público. E Marcelo Bratke acompanhou ao piano com sensibilidade e ricos arranjos musicais. 

Marcelo Bratke e Dori Caymmi
Marcelo Bratke e Dori Caymmi [Divulgação / Denny Naka]

Ainda antes do almoço, seguiu-se o segundo show com o André Mehmari Trio. É a formação tradicional do trio de jazz, com o piano de Mehmari, o contrabaixo e baixo elétrico de Neymar Dias e a bateria de Sérgio Reze. O grupo apresentou o seu último trabalho, o CD inspirado no Clube da esquina de Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges. Foi uma apresentação de alto nível. André Mehmari é um dos mais brilhantes e talentosos músicos da atualidade e, se ele não atuasse com igual desenvoltura também em outros gêneros, eu diria que sua vocação é esta, a do jazz instrumental brasileiro. Neymar Dias é um músico versátil – ele também é intérprete da viola brasileira, e com o instrumento gravou um ótimo CD com arranjos de Bach –, de grande criatividade musical, que desenha um fraseado de baixo que vai muito além do mero suporte harmônico. E o baterista Sérgio Reze, qual um ourives da percussão, magnetiza a atenção pela sofisticação e riqueza de sua interpretação. 

André Mehmari Trio
André Mehmari Trio [Divulgação / Denny Naka]

A parte da tarde iniciou-se na Sala do Porão, um espaço de música de câmara situado sob o palco do grande teatro. A Sala do Porão também se abre para a natureza e – igual ao teatro – a música interage com os sons do vento, da chuva e da floresta. Apresentou-se o Ensemble Barroco, um grupo especializado em música antiga, que tem direção do cravista Fernando Cordella, com as sopranos Ana Schwedhelm e Carla Cottini. Cordella montou um lindo espetáculo de ópera italiana, de Monteverdi a Mozart. Se já é difícil manter os instrumentos de época afinados em condições “normais”, o que dizer naquela bruma húmida da tarde chuvosa da Ilhabela? Mas, em íntimo contato com a plateia e sob a inspirada direção de Cordella, os artistas compensaram largamente essas e outras dificuldades e apresentaram uma empolgante e divertida viagem pela ópera dos séculos 17 e 18. 

Ensemble Barroco na Sala do Porâo [Divulgação / Denny Naka]
Ensemble Barroco na Sala do Porâo [Divulgação / Denny Naka]

Já era noite fechada, e seguia chovendo, quando retornamos ao Teatro de Vermelhos para a última apresentação do dia, com a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e a pianista Cristina Ortiz, sob direção de Roberto Minczuk. Cristina Ortiz, que está radicada há décadas na Europa e é artista de envergadura internacional, solou com grande habilidade e personalidade o Concerto nº 2 de Rachmaninov. Muito aplaudida, Cristina ainda deu Villa-Lobos e Chopin de bis. A Sinfônica Municipal e Minczuk encerraram a apresentação com uma boa interpretação da Sinfonia nº 7 de Beethoven.

Se você gosta de natureza e de música, não perca o Festival Vermelhos, que segue ainda nos próximos dois fins de semana – tem Sujeito a Guincho, São Paulo Companhia de Dança, Ulisses Rocha, recitais de Sonia Rubinsky e Cristina Ortiz, Trio Corrente, Orquestra Jovem do Estado com Cláudio Cruz e Jiyoon Lee, Banda Mantiqueira, Jazz Sinfônica, Orquestra Barroca com Júlio Medaglia, Zélia Duncan e muito mais (clique aqui para ver a programação). Só não deixe de consultar a previsão meteorológica e, conforme for, não se esqueça dos casacos, gorros e guarda-chuva!

[Nelson Rubens Kunze viajou a Ilhabela a convite da organização do Festival Vermelhos.]
 

OSM, Roberto Minczuk e Cristina Ortiz
OSM, Roberto Minczuk e Cristina Ortiz [Revista CONCERTO]

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