“Meu futuro é hoje”

por João Luiz Sampaio 01/12/2018

Entrevista com o pianista Arnaldo Cohen

Competições podem ser momentos angustiantes, mas a final do Concurso Busoni, conta Arnaldo Cohen, “foi o concerto mais feliz da minha vida”. Isso foi em 1972, e a vitória abriu caminho para uma carreira de sucesso, ao longo da qual o pianista esteve nos principais palcos do mundo – sem abrir mão das apresentações no Brasil, onde também realizou projetos marcantes, como a gravação da integral dos concertos de Rachmaninov e Liszt com a Osesp regida por John Neschling e Yan Pascal Tortelier. Além disso, sua carreira como professor foi coroada por uma das mais importantes posições acadêmicas do piano norte-americano, na Universidade de Indiana, em Bloomington, onde vive hoje. Neste mês, Cohen toca com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e Fabio Mechetti em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Vai tocar o Concerto nº 3 de Beethoven, peça que escolheu como companheira para comemorar, ao longo de 2018, seus 70 anos – foi com ela que ele se apresentou, por exemplo, no Festival de Inverno de Campos do Jordão, em julho. A escolha não se deu por acaso. Foi o primeiro concerto que interpretou em público, ainda com 14, 15 anos… mas é melhor deixar ele mesmo contar, na entrevista que concedeu à Revista CONCERTO.

Arnaldo Cohen [Divulgação]
Arnaldo Cohen [Divulgação]

O senhor comemorou seus 70 anos no Festival de Inverno de Campos do Jordão com o Concerto nº 3 de Beethoven, mesma peça que toca neste mês com a Filarmônica de Minas Gerais. É coincidência ou foi uma escolha deliberada de companhia musical para esses momentos importantes de celebração?
O Concerto nº 3 tem sido um fiel escudeiro. Foi o primeiro concerto que toquei, com 14, 15 anos, o primeiro movimento só, com outro piano fazendo a parte da orquestra. Era uma audição de alunos na UFRJ, e lembro vivamente que foi a primeira vez em que senti de fato uma comunhão com o piano. E, claro, foi o concerto que toquei na final do Concurso Busoni, na Itália, em 1972, quando ganhei o primeiro prêmio – ou seja, ele esteve a meu lado em momentos muito marcantes.

A vitória no Busoni foi um episódio particularmente importante.
Foi um dos momentos mais fortes da minha vida. Eu achava que a semifinal já seria como um primeiro prêmio. Eu estudava piano a sério havia quatro anos, só tinha dois recitais completos prontos. Olhando em retrospecto, penso: como me deixaram? (risos) Quando percebi o que estava acontecendo, que eu estava na final, deixou de ser um concurso e passou a ser uma celebração. Eu não estava nervoso. Foi o concerto mais feliz da minha vida. E o concurso não dava primeiro prêmio havia quatro anos. Quando começaram a anunciar os prêmios, a começar pelo terceiro, eu pensei: “Vamos lá, serei eu”. Mas, não, os outros dois finalistas haviam empatado. Aí pensei: “Não deram o primeiro prêmio, fiquei em segundo”. Um silêncio. E, então, ouvi a frase que nunca mais esqueci: “Prêmio Busoni 1972: Brasile”. Fico arrepiado de lembrar.

O senhor estudou engenharia, foi violinista do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e então o piano se impôs. Como foi esse processo de escolha?
A música representa a vida. Tudo o que você faz, tudo o que você toca, cada frase musical é consequência inevitável do que vem antes. É uma cadeia. Meu pai chegou ao Brasil falando o idioma farsi, só. Era um lutador, aprendeu odontologia, trabalhava durante o dia em uma loja de móveis e à noite tinha o consultório. E uma das pacientes dele o convenceu de que os filhos precisavam estudar um instrumento para ter uma formação cultural. Minha irmã [a pianista Miriam Grossmann] ficou com o piano, e eu, com o violino. Mas eu gostava de tocar piano também, e a gente brigava feito gato e rato. Minha mãe foi tirar satisfação: cadê os dividendos da tal formação cultural? (risos) E então comecei a estudar piano também.

E a engenharia?
Nessa época, um grupo chamado Cassino de Sevilha passou pelo Rio de Janeiro; eles queriam um músico que tocasse mais de um instrumento. Ligaram da embaixada para os meus pais, pois eu tocava piano, violino e também o acordeão, que eu aliás odiava. Eles pagavam US$ 1 mil por mês, uma fortuna. Mas era para tocar em festas e embarcar em um navio. Meu pai não deixou. Ele se preocupava, achava que era preciso ter um diploma. Mesmo quando quis estudar matemática, ele foi contra, pois achava que eu acabaria professor. Então, surgiu a ideia da engenharia. Era um ritmo alucinante, fazia três cursos ao mesmo tempo, violino, piano e engenharia, acordava às quatro da manhã, ia dormir tarde da noite. O piano ganharia o protagonismo quando Cecília Conde, diretora do Conservatório Brasileiro de Música, me pediu para tocar para Jacques Klein. E ele me disse: “Você não sabe nada, mas tem condição de ser um profissional”. Eu, com um lado meio naïf, perguntei: “O que é um pianista profissional? É um pianista internacional?”. (risos) Era essa a ideia que tínhamos. Significava a ideia de poder viver da minha música. E ele respondeu: “Isso mesmo, pode ser, pianista internacional”.

Klein foi uma das figuras mais fascinantes do piano brasileiro. 
Eu devo muito a Jacques Klein. Em um primeiro momento, não considerei a ideia de ir para a classe dele, disse que não. Ele era um grande nome, e sempre tive pouca autoestima ou muita consciência do que eu não sabia. O que eu fazia não tinha nada a ver com o que a gente ouvia nas fitas da Deutsche Grammophon. Então, eu falava que não tinha como pagar aulas com Klein. Quando finalmente toquei para ele e virei seu aluno, de fato esse era um problema, pois meu pai foi contra eu abandonar a engenharia. Então saí de casa e precisei me virar. E Klein disse que, se eu não pudesse pagar, tudo bem. Acabei entrando no Municipal, não sei como passei.

Qual foi a lição principal aprendida nesse momento?
Klein foi músico de jazz, não teve uma formação acadêmica. Tinha um talento e uma imaginação musical incríveis. Ele me passou o canal de como resolver problemas ao piano, de forma bem direta. Isso foi importante, junto com toda a teoria que recebia da UFRJ. Eu achava que uma nota errada era um erro mortal, e ele dizia que tudo bem. Demorei muito, mesmo depois do Busoni, para assimilar algumas questões. Lembro-me de um recital em Londres, no Queen Elizabeth Hall, que eu encerrava com Rapsódia espanhola de Liszt. O crítico do Financial Times escreveu que “foi um alívio quando ele tocou aquela odd note (nota estranha)”. Todo mundo viu aquilo como elogio, mas para mim foi uma martelada. Aos 35 anos, aquilo me fez repensar minhas reais intenções na música. Com 24 anos, ganhei um concurso e não tive tempo de digerir nada daquilo, o que estava acontecendo. Eu tinha três concertos no repertório. O empresário ligava e perguntava se eu podia aprender algo correndo, e lá ia eu, Liszt, Rachmaninov. Eu estava em uma corrida de cavalos, a cem metros do último colocado. Demorou para atingir maturidade, o que viria mais tarde, quando em Viena tive um tempo para ler e estudar com mais flexibilidade. E a engenharia foi fundamental nesse processo de aprendizado: para você tocar piano, o dedo precisa mexer; para mexer, precisa da articulação; quantas delas nós temos? Quatro? Então, se uma estiver presa, você perde 25% etc.

Enquanto o senhor falava sobre Jacques Klein, sobre maturidade, engenharia, comecei a pensar no Arnaldo Cohen professor…
É engraçado, também pensei nisso enquanto falava. A coisa mais difícil para um professor é não pretender criar pequenos clones seus. Você precisa mostrar as razões e os porquês do que você faz. E, entendendo o processo, os alunos passam a resolver por conta própria. Talvez por ter começado sem grandes conceitos, hoje sou uma pessoa conceitual. O performer só convence quando está ligado ao que faz. Se você não convence a si mesmo do que faz, não vai convencer ninguém. Tocar piano é como lançar um foguete. Há um primeiro estágio, no qual a cápsula é levada até a atmosfera, e, depois, há o desprendimento da cápsula. O primeiro estágio é o conhecimento, entender o que se deve fazer, o porquê, entender o corpo, os reflexos, pois a grande técnica é aquela que não aparece. O primeiro estágio é o da compreensão. O seu coração está no cérebro. Você até troca o coração por um de plástico, mas com o cérebro não tem como. Conceitualmente, a antecipação é a base. Você pensa e depois fala – se bem que tem gente que não (risos). Tento passar esse conceito da antecipação. Ao gravar em vídeo o momento antes de o dedo tocar na tecla, você vê que é ali que dá para definir o que vem depois. Técnica pianística é aquilo que acontece quando você não toca. Antes de bater o dedo no piano, tem que saber como vai bater, que efeito você quer. E eu mudei com o tempo. Antigamente, se você não podia ter uma carreira internacional, eu achava que não havia motivo para continuar. Hoje, acho que a música faz antes de mais nada uma sociedade melhor.

A que conclusões o Arnaldo Cohen de 70 anos tem chegado?
Eu trabalhei desde muito cedo baseado no conceito de liberdade. E com o tempo ela passou a ter um significado muito específico para mim. Liberdade profissional para mim é a possibilidade de dizer não. Meu anseio por um futuro, a preocupação de sobreviver da minha música, sempre foi algo importante para mim. E posso dizer que meu futuro é hoje. Eu não tenho grandes interesses em ser conhecido, fazer sucesso, em um mercado em que a arte é cada vez mais produto de consumo. O mundo está se desculturalizando, o interesse pela música clássica diminuiu, o interesse dos governos, as verbas. E a liberdade de poder dizer não, inclusive a mim mesmo, é uma sensação indescritível. A psicanálise sempre foi importante para mim na busca por entender onde estamos dentro da realidade. É bom olhar para o espelho e saber quem eu sou, mesmo que, ao dizer a um empresário que só quer fazer cinco concertos, ele possa rifar você. Poder me perguntar: quero? Não? Então, não! É disso que se trata. Acho que, com o tempo, estabeleci prioridades. Tenho saúde, poderia fazer mais, mas para quê? A vida em Bloomington é especial. Estou aqui, sentado em casa, observando pela janela o outono. É como se estivesse fora do mundo. 

Obrigado pela entrevista.


AGENDA
Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
Fabio Mechetti
– regente
Arnaldo Cohen – piano
Dias 6 e 7, Sala Minas Gerais (Belo Horizonte)
Dia 8, Theatro Municipal do Rio de Janeiro