Obra será apresentada neste sábado pela Orquestra Sinfônica da USP
A Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo faz concerto neste sábado, dia 14, com um programa que tem como destaque, além de obras de Mozart e Silvio Ferraz, A menina que virou chuva, de Valéria Bonafé, importante nome da geração atual de criadores brasileiros.
A peça foi escrita em 2013 e é dedicada a Heloísa Bonafé de Andrade, sobrinha da compositora. Em um artigo de 2023, Valéria falou sobre o ponto de partida e a proposta da obra, que foi estreada pela Bachiana Filarmônica e o maestro John Boudler, na Sala São Paulo.
“A morte da minha sobrinha Heloísa foi ensurdecedora para mim. A minha memória sonora daquele momento sempre me pareceu a sensação de um ouvido entupido, como quando se desce pelas colinas em direção ao litoral, ou quando se escuta o exterior debaixo de água: sons esparsos e nebulosos, mal definidos. As imagens que ainda guardo daquele dia são muito mais visuais”, ela explica.
“Por outro lado, a minha irmã, mãe da Heloísa, sempre descreveu nas nossas conversas uma memória sonora muito lúcida de tudo o que viveu naquele dia. Refletindo sobre estas diferenças, cheguei a um raciocínio interessante: ela vivenciou a perda da filha primeiramente através da audição. As imagens mentais que ela produziu ao longo dos quarenta minutos de vida da Heloísa foram essencialmente estimuladas por sons, visto que se tratava de uma cesariana e havia um pano que normalmente se coloca verticalmente entre o umbigo e os seios da mulher. A minha irmã não a podia ver, apenas ouvi-la. Por outro lado, do outro lado do vidro, eu tinha uma visão global do centro cirúrgico, mas não conseguia ouvir. Vivenciei o nascimento e a morte de Heloísa em silêncio, apenas com os olhos. Já minha irmã vivenciou tudo com os ouvidos. Minha experiência foi puramente visual. A dela, essencialmente acusmática.”
Assim, ela explica, ao escrever a obra, “associei livremente três fases do luto às três etapas do ciclo da chuva. E para cada fase/etapa, imaginei uma sonoridade”. Na primeira sonoridade, associei a fase de Evaporação a um estágio inicial do luto: a perda, uma imensa sucção e dispersão de energia, a rarefação, o vazio, o silêncio. Na segunda sonoridade, Condensação, lidei com a concentração de densidades, a acumulação, a imagem do desespero, a convulsão. E então, finalmente, a imagem da precipitação, a chuva, viria a seguir. Mas a peça não permite esse desfecho positivo: o fechamento de um ciclo que culmina em uma chuva que lava. Então, escolhi um corte nesse ciclo, um espaço vazio (“o som do vazio”). E o que encerra a peça após esse vazio é uma sonoridade que denominei Depois da chuva. Essa sonoridade evoca até mesmo um certo lirismo, algo que poderia brotar da resignação, de uma serenidade pós-perda. Mas admite necessariamente a irrupção de gritos, espasmos e memórias. Três sonoridades distintas que, juntas, orquestrariam uma imagem sonora um pouco mais complexa: a imagem da morte.”
Na apresentação da obra, a compositora inclui um poema de sua autoria:
Não durmo.
Ainda ouço os sons:
Das minhas mãos batendo contra a dopamina;
Do sugador aspirando meu dentro;
Da sirene da incubadora nunca usada;
Do choro baixo de quem amava como eu;
Do silêncio em que você veio e no qual ficou;
Da dor de te ver só uma vez.
O som do vazio.
Veja mais detalhes no Roteiro do Site CONCERTO
É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.

Comentários
Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.