O exemplo do violão

por Leonardo Martinelli 01/01/2019

Projeto coordenado por Ricardo Marui produz e difunde conteúdo de excelência e torna-se referência na cena clássica

Houve um tempo em que a presença do piano na vida musical brasileira era tão forte que Mário de Andrade cunhou o termo “pianolatria” como espécie de alerta aos perigos desse instrumento e de seu repertório “estrangeiro” para a música nacional. Ironia do destino ou não, passamos da pianolatria a um “país sem pianos”, adagio folcloricamente atribuído a Tom Jobim. A mesma ameaça foi sentida com a guitarra elétrica, demonizada por gigantes da MPB no protesto conhecido como Marcha Contra a Guitarra Elétrica, que numa noite de 1967 percorreu as ruas de São Paulo com palavras de ordem contra – adivinha o quê? – a presença da música estrangeira no país. Em maio desse ano, a gigante norte-americana Gibson, então maior fabricante desse instrumento no planeta, entrou em processo de falência. Histerias culturais e identitárias à parte, ao fundo dessas pseudopolêmicas estava a presença histórica e soberana do violão na cultura musical do Brasil.

Também ele “estrangeiro”, o violão logo se tornou “o” instrumento musical do brasileiro. Leve, barato e de construção relativamente simples, ele foi a base melódica e harmônica para diferentes expressões musicais populares, às quais se somava um grande aparato percussivo. Na virada do século XIX para o XX, o violão brasileiro também se tornou mais erudito: a apurada e elegante técnica do espanhol Francisco Tárrega (1852-1909) foi introduzida no país, e já na década de 1920 Heitor Villa-Lobos compunha para o violão um repertório de essência clássica e nacional.

Ricardo Marui [Divulgação]
Ricardo Marui [Divulgação]

O instrumento segue como símbolo importante de nossa expressão musical – e seja do ponto de vista de técnica e intérpretes, seja do repertório que ele gera e estimula, o violão clássico brasileiro desempenha importante papel na cena musical mundial. Movimenta uma engajada comunidade de apreciadores, jovens estudantes e amadores maduros e de talento. Toda essa base explica o sucesso do projeto GuitarCoop, criado e desenvolvido por músicos e gente do meio violonístico brasileiro.

“Os primeiros esboços do que viria a ser a GuitarCoop surgiram em 2013, a partir de conversas com vários músicos que já haviam trabalhado comigo, como Sergio Abreu, Ricardo Dias, Fabio Zanon, Everton Gloeden, entre outros”, explica Ricardo Marui, músico de formação que atua como produtor e engenheiro de som e que realiza a coordenação geral do projeto. “Tínhamos em mente que deveríamos ser mais que uma gravadora. Queríamos construir uma plataforma que refletisse a maneira como se consome música e conteúdo no século XXI, quando as pessoas têm acesso à música e a informações pelos mais diversos meios digitais”, explica Marui.

De fato, desde que o site da GuitarCoop (www.guitarcoop.com.br) entrou no ar, em julho de 2015, a empreitada se mostrou muito além de mero “selo independente”. Além da produção de CDs (seu mais recente produto foi o refinado álbum “Américas”, estrelado por Fabio Zanon), a plataforma desenvolve faixas digitais para download em tocadores de MP3, partituras e livros. Entre os conteúdos mais acessados estão vídeos que abrangem performances filmadas em estúdios, material explicativo sobre peças ou álbuns em destaque, entrevistas e mesmo a transmissão ao vivo de master classes e outros eventos, algo que amplifica para milhares e para além das fronteiras nacionais o alcance de suas atividades.

Todas as atividades do GuitarCoop são realizadas a partir de uma decisão do colegiado artístico, o que garante a qualidade e a excelência de seus produtos e constitui raro exemplo de uma empreitada musical clássica e coletiva bem-sucedida, ainda que, em teoria, muitos de seus integrantes sejam concorrentes entre si. Porém, uma atividade dessa envergadura não se sustentaria apenas com os rendimentos obtidos pela venda dos produtos, e desde os primórdios a plataforma conta com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura  e com o patrocínio direto de Marcelo Kayath, também ele violonista e que fez carreira profissional no mercado financeiro.

Ainda neste mês, o GuitarCoop lança no país o álbum The Segovia Sessions, com o violonista norte-americano Scott Tennant, e para 2019 já estão previstos o lançamento do novo CD do quarteto de violões Quaternaglia e o álbum Vento Brando, de João Camarero, provas que no Brasil nada há de ameaçar o reinado soberano do violão.