Benjamin Zander inicia turnê brasileira; leia entrevista

por Luciana Medeiros 13/06/2019

Foi aos 12 anos que um já talentoso Benjamin Zander chamou a atenção de ninguém menos que o xará Britten. Nascido perto de Londres no início da 2ª Guerra, de pais judeus alemães, tocava violoncelo e foi musicalmente adotado pelo compositor inglês. Outros grandes mestres moldaram o músico – a professora Imogen Holst e o mítico Gaspar Cassadò. Passados 68 anos, Zander se considera ainda um “eterno estudante” e trabalha pela formação de músicos e de plateias, nos concertos, projetos e também em palestras pelo mundo todo, ancoradas na ideia do poder transformador da música. 

À frente da Orquestra Filarmônica Jovem de Boston, que reúne músicos com idades entre 12 e 21 anos, ele sobe aos palcos brasileiros a partir do dia 15 de junho, em turnê que começa em Salvador, no Teatro Castro Alves, e segue para o Rio de Janeiro, São Paulo, Ribeirão Preto, Campinas, Belo Horizonte e Curitiba. Zander respondeu às perguntas do Site CONCERTO e revelou que, para a turnê, fez a encomenda de uma obra à compositora brasileira Clarice Assad, filha do violonista Sérgio Assad.

Benjamin Zander [Divulgação]
Benjamin Zander [Divulgação]

Sua paixão pela educação através da música é marca registrada. Quando criança, o sr. teve a orientação de grandes mestres como Benjamin Britten e Gaspar Cassadò. Essa paixão de sua vida foi inspirada por esses mentores?
Sim, especialmente esses dois que você menciona, mas também meu pai, Imogen Holst – a filha de Gustav Holst – e muitos outros. Sou um eterno estudante, mesmo aos 80 anos. Permaneço aberto aos ensinamentos de todos à minha volta, incluindo os jovens na minha orquestra. Que imensa inspiração eles são! É preciso ter disciplina para ajuda-los a crescer e fazer florescer suas individualidades, sem restringir seu otimismo e energia espiritual. Minha função é despertar potencialidades e isso mobiliza todas as ferramentas que possuo. Foi uma imensa sorte ter mestres tão inspiradores, que me transmitiram seu conhecimento sem pedir nada em troca. Cassadò me deu aulas por cinco anos sem qualquer pagamento! Agora eu faço o mesmo. Todos os que tocam com a filarmônica dão aulas gratuitamente e, se eles precisam de ajuda na música ou em suas vidas, eu faço o mesmo. É o que todos devemos fazer para os jovens, para que alcancem o melhor na vida. E também que aprendam a transmitir esse conhecimento para outros.

Qual o papel da música clássica em nosso mundo tão repleto de constantes estímulos e distração? 
Música é como ar, água, luz, amor, alimento. É essencial, não sei exatamente por quê. “Sem a música, a vida seria um erro”, escreveu Nietzsche.  A música tem a função de acalmar, inspirar e animar. Para expressar alegria e tristeza, paixão e medo, descrever a natureza, contar histórias, celebrar a vida, encenar conflitos, nos ajudar a superar nossas tristezas e alcançar as estrelas. Cantar, dançar e nos sentirmos totalmente humanos. É a chave para uma plena humanidade. 

A figura do regente inspira força, respeito, poder. Uma vez, o sr. disse que “o maestro depende de sua capacidade de dar poder aos músicos”. Como se estrutura a ideia de trabalhar a liderança de maneira geral a partir da prática orquestral?  
É muito simples. Um regente não toca uma nota sequer, depende de sua habilidade para fazer com que os outros sejam poderosos e capazes. Dou a cada músico uma voz – que é a partitura – e eles são encorajados a tecer comentários sobre qualquer aspecto do processo. Eu aprendo tremendamente com os insights de cada um. Sinto que a orquestra contém imenso poder, delicadeza, sensualidade, energia. É função do regente trabalhar para que tudo isso aconteça.
 
O sr. continua dando palestras e workshops pelo mundo?
Sim! Estive em Abu Dhabi mês passado falando a sheiks. Depois da turnê brasileira, sigo para reger a 9ª de Mahler no Texas e também dar uma palestra. Uma semana depois, vou a Aruba para mais palestras e um curso de regência de dez dias, depois África do Sul, para falar com a orquestra jovem de Johannesburgo. Sigo, então, para Ohio para reger e dar mais palestras... Aliás, na África do Sul receberei um prêmio que muito me honra, ligado à liderança, que já foi concedido a Nelson Mandela e Desmond Tutu. Como você vê, a atividade em torno de construir lideranças é parte essencial da minha vida.

O que guiou a escolha do repertório da turnê brasileira? 
Quando saímos em turnê, tocamos as grandes peças do repertório – a Sinfonia nº 10 de Shostakovich, o Concerto n° 2 para piano e orquestra de Rachmaninov, a Sinfonia do Novo Mundo de Dvórak, Os mestres cantores de Wagner. São obras atemporais, que levam os instrumentistas ao limite de suas capacidades, são desafios que eles adoram enfrentar e que os preparam para a vida como músicos. E o público ama. E é incrível ouvir uma orquestra jovem tocando obras-primas, derramando sua paixão e sua emoção. É verdadeiramente eletrizante.  A solista do Rachmaninov é uma artista de performance internacional: Anna Fedorova tem simplesmente 23 milhões de views em seu canal de Youtube, acho que é campeã na área da música clássica! Uma alegria trazer essa artista ao Brasil. Um detalhe: não nos dispomos a tocar música de compositores locais nas turnês, os músicos de cada país fazem isso melhor do que nós.  Mas para essa turnê, nós encomendamos uma peça a Clarice Assad, a filha do violonista Sérgio Assad, que escreveu uma pequena obra-prima que está nos ensinando a tocar os ritmos brasileiros [a peça será tocada em São Paulo e Salvador].   

Clique na cidade para ver mais detalhes no Roteiro do Site CONCERTO:

Salvador Rio de JaneiroSão PauloRibeirão PretoCampinas Belo Horizonte - Curitiba

Leia mais
Revista CONCERTO:
Os meninos de Benjamin Zander vêm aí, por Júlio Medaglia
Notícia: Theatro São Pedro apresenta a ópera ‘O caso Makropulos’, de Janácek
Notícia: Thierry Fischer é o novo regente titular da Osesp
Colunistas: Leia outros textos de Luciana Medeiros