Em Buenos Aires, uma grande produção de 'Um bonde chamado desejo'

por Jorge Coli 20/05/2019

Enquanto o Theatro Municipal do Rio de Janeiro passa pela maior crise de sua história, confirmada pela recente saída do maestro Luiz Fernando Malheiro (e se ele não conseguiu dar um jeito ali, dificilmente um outro conseguirá); e enquanto o Theatro Municipal de São Paulo perdeu o norte, a ponto de não estar em condições até agora de propor uma temporada para 2019; o Teatro Colón, em Buenos Aires, vai bem, obrigado, e continua uma das mais importantes casas de ópera do planeta.

Ao lado de títulos consagrados, suas escolhas para a temporada atual propõem descobertas e novidades. Pude assistir ali, no dia 14, terça-feira passada, à apresentação de Um bonde chamado desejo, música de André Previn. Estreia na América Latina.

A première dessa ópera em San Francisco foi no ano de 1998, dirigida pelo próprio autor, com um elenco fora do comum, em que brilharam Renée Fleming e Elizabeth Futral. Apresentação que resultou em um CD e um DVD.

Fez sucesso, e aos poucos, foi sendo programada em diversos teatros americanos. Alcançou mais tarde a Europa (Estrasburgo, na França, depois Londres, Dublin, Viena, Turim e, mais longe, Sidney, Melbourne, Tóquio). É um caso raro de ópera contemporânea que se impõe no repertório. Isso graças à estupenda qualidade de sua música.

Previn – que faleceu em fevereiro deste ano – foi um grande compositor de música para o cinema, ganhador de quatro Oscar. Foi notável regente também (entre outras, diretor da Sinfônica de Houston, de Pittsburgh, da Filarmônica de Los Angeles, maestro principal da Sinfônica de Londres e da Royal Philharmonic Orchestra), e excelente pianista no universo clássico e do jazz.

Com essa formação e atividades mescladas tão pouco ortodoxas para um músico “clássico”, sem nenhuma pretensão de escola vanguardista, projeto cerebral ou vocação abstrata, o resultado foi uma ópera muitíssimo inspirada. Previn tem a consciência focada no fato de que escreve para o teatro. Sabe que, em primeiro lugar, é preciso convencer dramaticamente. Sentimos que sua música está a serviço das emoções, embora não haja nela nenhum ressaibo de passadismo ou pasticho. Dura quase três horas, sem contar os intervalos. O público, porém, é imediatamente captado pelo tecido constante de sentimentos, e não sente o tempo passar.

Previn domina a escrita para as vozes e sabe fazer transições de clima. Não se envergonha em ir buscar, onde lhe aprouver, alimento para sua inspiração, de Richard Strauss a Ligeti, do jazz ao blues. É um orquestrador fenomenal, colorindo com cuidado e precisão, sem os lugares comuns tão frequentes em compositores menos inspirados. Tem força original facilmente identificável.

Cena de 'Um bonde chamado desejo', de André Previn, no Teatro Colón [Divulgação]
Cena de 'Um bonde chamado desejo', de André Previn, no Teatro Colón [Divulgação]

É preciso dizer que a produção do Colón esteve à altura da obra. Os cenários de Enrique Bardolfini, minuciosamente realistas, serviram de base para um universo onírico e poético. Sobretudo, a direção cênica de Rita Cosentino, não podia ser melhor. Cosentino sabe que o libreto precisa ser perfeitamente compreendido e respeitado para que a invenção artística da montagem desabroche. Sabe também que é necessária uma cuidadosa direção de atores. Tão diferente desses numerosos diretores que reduzem tudo a ideias e conceitos, facilitando sem vergonha o próprio trabalho por elipses e simbologias simplórias. 

A montagem teve, portanto, uma qualidade muito rara. Acrescente-se que os cinco principais cantores, todos americanos, exceto Blanche, uma irlandesa, revelaram-se perfeitos.

Orla Boylan, com um lindo metal, capaz de pianíssimos comoventes que se projetavam sem dificuldade sobre a orquestra, cantou esplendidamente o papel de Blanche Dubois. Mas se você está imaginando uma Vivien Leigh, esqueça. Orla Boylan era uma Blanche transformada pelos anos numa senhora de meia-idade um pouco encorpada. No entanto, sua capacidade de atração erótica acendia-se e transfigurava-se graças à música e graças ao seu formidável talento de cantora e de atriz. No extremo fim, ao repetir com insistência a frase “Who ever you are”, deixou o público com nó na garganta.

David Adam Moore, barítono de voz segura e bem timbrada, figurou no calendário 2016 dos Barihunks (barítonos sexy, veja aqui). Quer dizer, é fisicamente perfeito para encarnar Kowalsky. Com energia cênica muito expressiva, mostrou-se odioso e perdido em suas contradições, impondo a crescente brutalidade masculina, até o estupro final.

Sarah Jane McMahon, tão musical, de voz jovem, cor de mel, compôs uma Stella adorável, porém forte. A cena da bofetada e a reconciliação que se seguiu foram momentos muito altos.

O tenor Eric Fennel, além de possuir carisma, é um cantor de alto nível. Seu Mitch era menos ingênuo do que o personagem costuma mostrar-se, o que introduziu maior complexidade no quarteto. Victoria Livengwood, que teve bela carreira no Metropolitan de New York, marcou o papel da vizinha Eunice com bela presença.

A orquestra do Colón foi dirigida por David Brophy, maestro irlandês que explorou todas as nuances da partitura. Obteve sonoridades incandescentes e precisas.

Em suma, espetáculo de altíssimo nível, como seria bom que tivéssemos no Brasil. A crise econômica e a inflação estratosférica do peso que a Argentina conhece hoje não foram suficientes para abalar cultura naquele belo país irmão.
 

Leia mais
O Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a morte da excelência, por Luciana Medeiros
Leia outros textos do colunista Jorge Coli