Lançamentos de CDs em 2018: o que ouvi e gostei

por Camila Fresca 01/03/2019

Já estamos às portas do Carnaval, mas ainda é tempo de lembrar dos lançamentos de música clássica do último ano. Costumo acompanhar com interesse os novos discos brasileiros, pois são um bom termômetro para se medir tanto a vitalidade do mercado musical quanto o nível técnico e artístico dos nossos profissionais. Assim, aproveito para fazer uma espécie de resumo de lançamentos de 2018. Não se trata de uma lista conclusiva e nem de “melhores”, mas sim de discos com os quais tive contato e tenho algo a dizer. 

Logo no início de 2018 tivemos aquele que provavelmente foi o mais importante feito discográfico dos últimos tempos por aqui: a conclusão da gravação das sinfonias de Villa-Lobos (bem como a edição das partituras) pela Osesp. Um trabalho importante seja sob o ponto de vista histórico, seja pelo artístico, com a Osesp em ótimas performances sob a regência de Isaac Karabtchevsky. Os seis discos, lançados ao longo dos últimos anos, foram reunidos num box. 

Puertas, da soprano Adélia Issa com o violonista Edelton Gloeden é um disco de concepção sofisticada, com um trabalho cuidadoso de pesquisa e montagem de repertório que demonstra a maturidade dos dois intérpretes. Gloeden, além de exímio violonista, é um dos mais importantes professores das novas gerações do violão. No final do ano ele ainda lançou Francisco Mignone – 12 valsas brasileiras, um estupendo disco no qual une sua verve de intérprete à de pesquisador (a obra foi tema de sua tese de doutorado). Um dos grandes lançamentos do ano.

Apesar do pouco tempo de existência, o Quarteto Carlos Gomes (liderado por Cláudio Cruz) já provou que temos por aqui um quarteto de cordas do mais alto nível, e que tem se dedicado a registrar obras brasileiras inéditas ou pouco gravadas. Em março, o grupo lançou mais um CD, com obras de Carlos Gomes, Alexandre Levy e Glauco Velásquez, acompanhado da edição das partituras.

Loja CLÁSSICOS

Em 1995, Paulo Martelli era um jovem violonista promissor. Por um selo canadense, lançou seu álbum de estreia, com um repertório que transita pelos períodos clássico, romântico e moderno do violão. O disco foi relançado pelo Selo Sesc sob o título de Debut, mostrando que já estava lá toda mestria técnica e sensibilidade musical que fariam dele um dos maiores violonistas da atualidade. Não contente em ser um exímio instrumentista, Martelli atua como produtor cultural à frente do projeto Movimento violão, que teve parte de suas atividades lançadas numa caixa de DVDs também em 2018.

No segundo disco da série Ecomusica, Fabio Caramuru se aprofundou na sua proposta de diálogo entre o piano e os sons da natureza, agora abordando aves japonesas. Trata-se de um belo disco de contemplação e respiro, sem se preocupar com rótulos.

Aventurar-se por um consagrado repertório para violino solo, que já foi visitado por dezenas de intérpretes de fama internacional, exige coragem. Fabio Brucoli passa com eficiência e beleza pelo desafio, no CD Violino solo, em que interpreta peças de Bach, Bartók, Ysaÿe e de seu mestre Olivier Toni.

A Casa Estúdio é uma iniciativa do compositor Sergio Roberto de Oliveira, falecido precocemente em 2017. Dele também foi a iniciativa do Prelúdio 21, coletivo de compositores da cidade do Rio de Janeiro que promove apresentações mensais com estreias contemporâneas. A Casa lançou dois bons discos em 2018, um deles com peças muito interessantes do próprio Sergio Roberto de Oliveira, ao lado de obras de Ricardo Tacuchian. O bonito O piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian tem interpretação das pianistas Miriam Grosman e Ingrid Barancoski. O outro lançamento foi o primeiro disco do T’Rio, conjunto formado por Cristiano Alves (clarineta), Fernando Thebaldi (viola) e Yuka Shimizu (piano), que gravou trios brasileiros de autores contemporâneos. 

Radamés Gnattali – integral das obras para piano, violino e violoncelo, é o terceiro CD do Trio Puelli e outro dos grandes lançamentos do ano. O grupo, formado em 2009, é especializado no repertório dos séculos XX e XXI, especialmente a música brasileira. O disco registra pela primeira vez o Trio n.2 e Lenda n.2, além de trazer os trios n.1 e 3 e o Trio miniatura.

A canção e o violino, da soprano Manuela Freua com o violinista Emmanuele Baldini joga luz sobre um repertório super interessante e pouco conhecido, aqui em ótimas interpretações. O disco confirma a boa fase de Freua, que também se destacou em montagens líricas no último ano.

The art of Olga Praguer Coelho é uma verdadeira joia lançada pela Guitarcoop, selo que tem sido um espaço admirável para os violonistas brasileiros. Aqui temos o prazer de descobrir, como o próprio título indica, a arte da exímia cantora e violonista Olga Praguer Coelho (1909-2008), numa coletânea de registros feitos em diferentes fases de sua carreira. 

Há algum tempo, o pianista Aleyson Scopel deu início a uma empreitada de enorme importância: a gravação da integral das Cartas celestes, conjunto de obras para piano de Almeida Prado inspirado nas constelações. Com sua sensibilidade e talento, ele conclui o ciclo lançando os volumes 3 e 4 e nos brindando com ótimas interpretações. Outro dos lançamentos fundamentais de 2018.

Comemorando 18 anos de atividade independente e contínua, o coro feminino Collegium Cantorum, liderado pela maestrina Helma Haller, lançou Acordes poéticos. Esse quinto CD, todo dedicado a autores brasileiros, traz peças inéditas e valoriza a parceria entre os compositores e os poetas brasileiros. 

O quinteto de sopros é uma das formações mais tradicionais da música de câmara. Formado em 2016 por alguns dos principais representantes de seus instrumentos, o Quinteto Zephyros lançou em 2018 seu ótimo CD de estreia (Zéfiro é o deus grego associado ao vento), com obras de compositores do continente americano. 

Em Fantasia, o compositor Alexandre Guerra dá continuidade a um trabalho sistemático de lançamento de suas composições em disco. Este CD, segundo o autor, trata “do universo de contar histórias”, uma vez que cada uma das peças teve um enredo norteando sua forma. O destaque é a Fantasia para violão e cordas, com solos de Chrystian Dozza. É o próprio compositor quem rege a Orquestra Sinfônica de Budapeste.

Images of Brazil é o disco de estreia da talentosa pianista Érika Ribeiro, em parceria com a violinista norte-americana Francesca Anderegg. Distribuído no mundo todo pela Naxos, traz uma seleção de autores brasileiros dos séculos XX e XXI, num arco que vai de Villa-Lobos a Léa Freire, com ótima interpretação e entrosamento entre as artistas. Também um dos meus preferidos em 2018.

A importância da integral de Villa-Lobos é gigantesca, mas a Osesp concluiu em 2018 ainda outro ciclo: o das sinfonias de Prokofiev, com o lançamento da Sinfonia n.7. Os seis discos, que contêm ainda outras obras orquestrais do autor, foram regidos pela diretora musical do grupo, Marin Alsop. E, encerrando um ano de ótimos lançamentos discográficos, a orquestra ainda lançou a Coleção Bernstein, por ocasião do centenário do compositor e maestro norte-americano. O projeto inclui o lançamento de oito CDs, pela Naxos, com a Osesp e a Sinfônica de Baltimore regidas por Marin Alsop (que foi aluna de Bernstein e tem se dedicado a divulgar suas obras).

Já quase ao final do ano, houve dois lançamentos de outros excelentes violonistas brasileiros: Daniel Murray (14-37) e Fabio Zanon (Americas). Mas prefiro falar deles após uma audição cuidadosa – e esperando que estes sejam os primeiros de muitos bons discos brasileiros a se ouvir em 2019.

 

Alguns dos produtos comentados neste texto estão disponíveis na Loja CLÁSSICOS:

Integral Villa-Lobos, Osesp

Puertas, Adélia Issa e Edelton Gloeden

Francisco Mignone – 12 Valsas brasileiras, Edelton Gloeden

Quarteto Carlos Gomes (Gomes, Levy e Velásquez

Debut – Paulo Martelli

DVDs Movimento violão

Ecomusica – Fabio Caramuru

O piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian

T’Rio – Cristiano Alves, Fernando Thebaldi e Yuka Shimizu

Radamés Gnattali – Trio Puelli

A canção e o violino – Manuela Freua e Emmanuele Baldini

The art of Olga Praguer Coelho – Guitarcoop

Cartas celestes – Aleyson Scopel

Acordes poéticos – Collegium Cantorum, Helma Haller

Quinteto Zephyros

Fantasia – Alexandre Guerra

Images of Brazil – Érika Ribeiro e Francesca Anderegg

Prokofiev Sinfonia nº 7 – Osesp, Marin Alsop

Coleção Bernstein Naxos – Marin Alsop

Americas – Fabio Zanon